O anúncio recente dos pedidos de recuperação extrajudicial feitos pelo Grupo Pão de Açúcar e pela Raízen chamou atenção para a situação financeira das empresas brasileiras. O aumento dos juros tornou mais caro o custo das dívidas e dificultou os investimentos das companhias. Cerca de 24% das empresas com ações na Bolsa de Valores não conseguem gerar dinheiro suficiente para pagar os juros que devem, conforme estudo da consultoria RK Partners.
A pesquisa considerou 282 empresas listadas na Bolsa e mostrou que muitas delas também apresentam altos níveis de endividamento, com dívidas que são de três a seis vezes maiores que o resultado operacional, medido pelo ebitda, uma referência importante para analistas.
Ricardo Knoepfelmacher, sócio da RK Partners, explicou que a alta da taxa Selic prejudica as empresas, aumentando o número de pedidos de recuperações judiciais e extrajudiciais, que passou de cerca de 25 para 50 por trimestre. Ele alerta que isso deve continuar enquanto os juros permanecerem altos, com as empresas precisando reestruturar suas finanças.
Atualmente, a taxa básica de juros está em 15%, o maior valor dos últimos 20 anos, e as projeções indicam que não deve cair abaixo de 10% até o final de 2027. Renato Donatti, diretor da agência Fitch, diz que é muito difícil para as empresas suportar juros elevados por tantos anos. Além dos juros, problemas de gestão também contribuem para as dificuldades financeiras.
Um exemplo recente é o caso da Raízen, que pediu recuperação extrajudicial devido a fatores como baixa produtividade agrícola e aumento dos custos da dívida, com um valor de renegociação de cerca de R$ 65 bilhões, o maior pedido do tipo já feito no Brasil.
O aumento nos pedidos de recuperação judicial começou a se destacar em 2024, e, segundo a plataforma NEOT, foram registrados milhares de pedidos nos últimos anos, destacando o agronegócio como setor especialmente afetado.
Júlio Moretti, CEO da NEOT, destaca que os principais credores estão dispostos a negociar para evitar prejuízos ainda maiores.
O problema atual está ligado a decisões de captação de recursos feitas quando os juros estavam muito baixos (cerca de 2%), o que incentivou as empresas a tomar mais dívidas para investimentos e aquisições. No entanto, com a alta da inflação e os juros subindo, o custo dessas dívidas aumentou muito.
Dados mostram que o montante usado para pagar dívidas com os recursos captados tem crescido significativamente nos últimos anos, refletindo a pressão financeira das companhias.
Guilherme Maranhão, presidente do Fórum de Estruturação de Mercado de Capitais da Anbima, ressalta que emitir dívidas com custos menores ajuda as empresas a terem fôlego para cumprir pagamentos.
Porém, a alta inflação e a elevação dos juros provocaram situações difíceis, levando muitas empresas a reestruturar suas dívidas, como mostram estatísticas recentes da Serasa Experian que indicam recordes de inadimplência.
Paulo Carnaúba, professor do Insper, comenta que a alta dos juros prejudica principalmente quem está muito endividado e não fez ajustes financeiros ou renegociações necessárias.
O Comitê de Política Monetária se reúne para decidir o futuro da taxa de juros, com expectativa de cortes graduais devido ao contexto internacional. Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo, alerta que os juros altos estão criando “empresas zumbis”, que operam, mas não geram caixa suficiente para pagar os custos financeiros.
Relatórios indicam que algumas empresas gastam metade de sua receita operacional apenas pagando juros, deixando pouco espaço para outras despesas essenciais.
Mesmo com possíveis reduções nos juros ao longo dos próximos anos, os especialistas indicam que a taxa ainda permanecerá alta por um período, mantendo a pressão sobre as finanças das empresas.
Estadão Conteúdo
