O setor do agronegócio brasileiro está preocupado com o aumento das tensões no Oriente Médio, originadas pelos ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã. Essa guerra amplia os riscos para o setor, especialmente devido a dois fatores econômicos importantes. Primeiro, há o risco no transporte, com bloqueios em rotas comerciais, aumento do seguro dos navios e falta de contêineres.
Segundo, o aumento dos preços do petróleo, do frete e dos fertilizantes gera um impacto nos custos. Esses dois fatores juntos podem atrapalhar a exportação, a competitividade e os lucros do agronegócio. Especialistas, entidades ligados ao setor e autoridades do governo destacam que o impacto dependerá da duração do conflito e da capacidade de encontrar rotas alternativas para o comércio.
O comércio de produtos agropecuários entre Irã e Brasil é significativo. No último ano, o Brasil exportou para o Irã quase 12 milhões de toneladas do agronegócio, totalizando US$ 2,92 bilhões, segundo dados oficiais. O milho foi o principal produto, com US$ 1,98 bilhão em vendas, seguido pela soja, açúcar, farelo de soja e café verde.
O Irã, por sua vez, exporta principalmente ureia para o Brasil, que comprou cerca de 184 mil toneladas deste fertilizante, gastando US$ 66,8 milhões.
Além disso, a relação comercial do Brasil com toda a região do Oriente Médio movimenta US$ 12,5 bilhões em produtos do agronegócio, incluindo carne de frango, milho, açúcar, carne bovina e soja. O governo brasileiro avalia que o impacto da guerra depende da sua duração; o secretário Luis Rua ressalta que o comércio tende a encontrar caminhos mesmo em situações difíceis e que os alimentos geralmente têm prioridade nos transportes.
Ele acredita que o conflito pode até aumentar as compras dos países do Oriente Médio para formação de estoques de segurança. Essa visão é compartilhada pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, cujo secretário-geral Mohamad Mourad diz que embora algumas rotas marítimas estejam sendo evitadas, os impactos devem ser amenizados ao longo do ano, pois os países árabes contam com o Brasil para sua segurança alimentar.
Estoque do Ramadã ajuda a manter o fornecimento sem falta de produtos no curto prazo. Novas rotas podem demorar mais, mas garantirão a chegada das mercadorias.
Para a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o milho é o produto mais vulnerável, já que 23% de seu embarque vai para o Oriente Médio. No momento, o foco das exportações brasileiras é a soja. A carne bovina tem exposição de baixa a moderada, e soja e açúcar têm baixa exposição. Embora o custo do frete e do seguro possa aumentar, a indústria do frango tem conseguido adaptar suas rotas apesar das multas e custos adicionais. Cerca de 6,8% da carne bovina brasileira é exportada para esta região.
O setor de frango, que destina 23% de sua produção para o Oriente Médio, enfrenta restrições logísticas, sem cancelamentos ainda, mas com dificuldades para novas cargas. Existe risco de atrasos e aumento de custos devido aos bloqueios no Estreito de Ormuz e no Canal de Suez, segundo Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
Ele destaca a importância do Brasil para o abastecimento do Oriente Médio e a diversificação das exportações de frango ajuda a reduzir o risco comercial.
No setor da carne bovina, o presidente Roberto Perosa da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) afirma que 30% a 40% das exportações brasileiras de carne bovina passam pelo Oriente Médio de alguma forma. A paralisação dos agendamentos de transporte e a falta de contêineres, assim como a cobrança de taxas extras, dificultam as vendas e podem levar à redução da produção e efeitos negativos para o mercado interno.
O comércio de café também sofre com o aumento dos custos de transporte causados pelo conflito. Rotas críticas próximas ao Mar Vermelho encarecem o frete e o seguro, afetando a competitividade do café robusta, que depende do corredor asiático. Se as rotas forem desviadas, o preço final do produto aumenta, mas isso pode beneficiar as exportações brasileiras deste tipo de café, segundo o analista Leonardo Rossetti da consultoria StoneX.
A consultoria AgResource aponta ainda um risco financeiro associado ao conflito, que pode afetar decisões de compra e reduzir os preços dos grãos no mercado global.
Segundo o Insper Agro Global, o conflito tem impacto importante nas rotas logísticas estratégicas e nos mercados de energia, com potencial para efeitos rápidos nas cadeias globais. A região é crucial para o escoamento do milho e frango brasileiros e para o fornecimento de fertilizantes, em meio a bloqueios nas rotas de Ormuz, Bab el-Mandeb e Suez.
Especialistas concordam que o conflito deve atrapalhar o comércio mais por dificuldades no transporte do que por queda na demanda. As rotas mais longas, o aumento do seguro, a escassez de contêineres e a suspensão de novas reservas elevam custos e geram incertezas sobre o cumprimento dos contratos.
Para produtos mais dependentes da região, como frango e milho para o Irã, e para setores que usam o Oriente Médio como rota, os bloqueios podem causar atrasos, necessidade de transferências e armazenagem, mudança de rotas e, em casos extremos, aumento da oferta interna com pressão para redução dos preços.
Por outro lado, como segurança alimentar é prioridade para os países importadores, parte dos impactos tende a se transformar em custos e volatilidade, e não em queda permanente nas exportações. A duração do conflito e a rapidez na normalização das rotas logísticas definirão a intensidade dos efeitos.
