O setor do agronegócio no Brasil enfrenta grandes desafios devido à guerra no Oriente Médio. A continuação do conflito e a possibilidade de que ele se expanda para outras regiões aumentam os custos para a próxima safra, podendo afetar até mesmo o crescimento da área plantada e os investimentos em novas tecnologias para 2026/27.
Especialistas em mercado e comércio internacional, além de representantes do setor e do governo, apontam a energia como a principal fonte desse aumento de custos. O conflito eleva o preço do petróleo, o que causa aumento no diesel, fertilizantes e transporte.
Fontes do setor destacam que o conflito envolvendo o Irã rapidamente impacta preços e a logística mundial, principalmente pelo aumento do custo do petróleo, gás natural e problemas nas rotas marítimas. Isso faz crescer o custo para produzir no agronegócio brasileiro, em um momento já difícil, com preços baixos e margens apertadas.
Para o Ministério da Agricultura, é importante agir com calma para não provocar reações exageradas. O ministro Carlos Fávaro reconhece que o país depende de fertilizantes importados, principalmente nitrogenados, mas acredita que é hora de monitorar a situação, já que o momento de comprar insumos ainda não chegou. Ele alerta: “não precisamos criar pavor”.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) também confirma o impacto no custo de energia e transporte. A região do Oriente Médio é essencial para o fornecimento de energia, gás e ureia, produtos fundamentais para a produção agrícola. Qualquer problema no Estreito de Ormuz rapidamente eleva os custos globais e brasileiros.
Entre os fatores que aumentam os custos no Brasil estão o preço da ureia, pressionado pelo gás natural, o custo do frete, seguros, operações marítimas e a volatilidade do câmbio. O maior impacto no curto prazo é no preço do diesel, essencial para o funcionamento das máquinas agrícolas, especialmente na época da colheita.
Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, alerta que a prioridade é garantir o abastecimento e o preço do diesel. Recentemente, produtores no Rio Grande do Sul chegaram a parar a colheita de soja e arroz por falta de combustível. O cenário atual, com juros altos, dívidas e margens reduzidas, fica ainda mais difícil com o conflito, que encarece os custos para os produtores.
A Associação Brasileira dos Produtores de Milho (Abramilho) alerta para o aumento dos preços nos insumos e na logística, fatores que são pouco flexíveis. O presidente Paulo Bertolini afirma que a situação está crítica e que insumos essenciais passam pela zona de conflito. Cerca de 30% a 35% do suprimento de nitrogenados vem dessa região, além do risco para o ácido sulfúrico usado em outros fertilizantes.
Mesmo com o aumento do preço do milho na bolsa, os valores não compensam o crescimento dos preços dos fertilizantes. Na logística, os produtores enfrentam um desafio maior do que o ocorrido durante a pandemia, com alta nos custos e falta de diesel.
Relatórios do Insper Agro Global mostram que muitos fertilizantes usados no mundo vêm dos países do Golfo. O conflito pode prejudicar a competitividade do setor, que já sofre com custos e financiamentos difíceis. Uma rápida solução para a guerra poderia diminuir a volatilidade dos preços, mas um conflito prolongado trará mais pressão sobre fertilizantes, transporte e custos operacionais.
O banco holandês Rabobank prevê que o aumento nos preços dos fertilizantes será duradouro, enquanto os preços dos grãos podem não subir na mesma proporção, comprimindo as margens de lucro dos produtores. A região do Oriente Médio é central na produção de nitrogênio e amônia, e os custos estão ligados ao preço do gás natural. Isso pode dificultar ainda mais o acesso aos fertilizantes e reduzir a quantidade aplicada na lavoura.
A consultoria StoneX observa que a alta dos preços dos fertilizantes já está afetando os custos futuros, chegando antes do pico de compras para a próxima safra. O analista Tomás Pernías destaca que os preços subiram significativamente nos portos brasileiros: ureia mais de 15% e nitrato de amônio cerca de 28%. O cenário não é favorável para os produtores brasileiros, especialmente na relação entre milho e ureia.
O banco BTG Pactual alerta que o Brasil pode não ter falta imediata de fertilizantes, mas enfrentará aumento nos preços. O problema maior, segundo o banco, é o custo e não o acesso, já que os fertilizantes já vinham caros e o conflito pode elevar ainda mais os custos para o ciclo 2026/27.
A Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato) informa que a alta dos preços dos fertilizantes já começa a ser sentida regionalmente e deve se intensificar na próxima safra, durante o período de compra dos insumos. O presidente Vilmondes Tomain alerta que o aumento de cerca de 20% nos preços dos nitrogenados pode levar o produtor a repensar o crescimento da área plantada em 2026/27.
O conflito no Oriente Médio causa um choque externo nos custos do agronegócio brasileiro, principalmente via energia, fertilizantes e transporte, o que pode impactar os preços finais dos alimentos e a inflação.
Especialistas concordam que o impacto será mais sentido nos custos da safra 2026/27, embora já afete a produção de milho safrinha e trigo. Esse cenário, junto com preços baixos, juros altos e maior insegurança no crédito, pode reduzir a rentabilidade e diminuir investimentos dos produtores no próximo ciclo, especialmente se o conflito se prolongar.
Estadão Conteúdo
