MATHEUS DOS SANTOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A campanha para as eleições começou no dia 16 de agosto e já tem impactado os preços dos investimentos no Brasil. A falta de clareza sobre como os candidatos vão lidar com a dívida pública tem levado a expectativas de juros mais altos, pressionando tanto a Bolsa de Valores quanto o real.
Este cenário, junto com a guerra no Oriente Médio e a inflação causada por esse conflito, tem sido um dos motivos para investidores estrangeiros venderem ações brasileiras e para a saída de dólares do país em agosto.
Segundo dados da B3, investidores internacionais retiraram R$ 18,7 bilhões este mês, o pior resultado de 2026 até agora. Apesar disso, no ano, o saldo ainda é positivo em R$ 22,3 bilhões.
Conforme o Banco Central informou em 26 de agosto, houve uma saída líquida de US$ 2,55 bilhões entre o início do mês e o dia 21, com uma saída ainda maior de US$ 4,055 bilhões só na última semana.
De acordo com o JP Morgan, a instabilidade gerada pelas eleições brasileiras tem afetado o mercado. Isso levou o banco a baixar sua recomendação para ações brasileiras de ‘acima da média’ para ‘neutra’.
No começo do ano, o fluxo de investimentos estrangeiros estava positivo, com entrada de R$ 26,5 bilhões na Bolsa e US$ 5,1 bilhões em câmbio. Havia expectativa de redução da taxa Selic para 12%, o que tornaria ações mais atrativas que renda fixa e poderia valorizar o real.
No entanto, agora a previsão é de apenas mais uma pequena queda na Selic, que deve ficar em 13,75%, segundo analistas do Boletim Focus.
O banco JP Morgan aponta que, no Brasil, a queda esperada dos juros não aconteceu e, com isso, o impacto nas ações deve ser limitado. Além disso, o aumento da dívida pública é motivo de preocupação. O montante da dívida subiu de 71,7% do PIB em dezembro de 2022 para 81,9% em junho deste ano.
As eleições trazem incertezas, pois o vencedor terá que lidar com juros altos e déficit fiscal. Historicamente, o desempenho do mercado é fraco nos seis meses que antecedem as eleições, segundo o banco.
O Morgan Stanley também destaca a situação fiscal como crítico. O próximo governo precisará mostrar ao mercado que pode controlar a dívida. Um plano fraco pode causar desvalorização do real e aumento do dólar para até R$ 6,00, devido ao medo de inflação descontrolada.
Por outro lado, um plano robusto pode manter o dólar entre R$ 4,50 e R$ 5,25.
Para João Daronco, analista da Suno Research, a volatilidade tende a crescer conforme as eleições se aproximam, devido a mais gastos e medidas eleitorais.
Ele explica que, com um controle fiscal mais frouxo, os juros futuros aumentam, afetando vários setores da economia. Por exemplo, bancos ficam mais cautelosos com empréstimos, e no varejo, o custo dos juros altos encarece os negócios e diminui o consumo.
Luan Aral, especialista em dólar da Genial Investimentos, destaca que a eleição é crucial porque pode mudar o rumo das contas públicas a partir de 2027.
Segundo ele, qualquer presidente que assumir em 2027 enfrentará grandes desafios, e a continuidade da política fiscal atual manterá juros elevados.
Aral afirma que o mercado não precisa gostar do presidente eleito, mas avaliar sua capacidade de administrar as contas públicas. ”A maior divisão não é entre candidatos, mas entre programas fiscais confiáveis ou não”, conclui.
