LAIZ MENEZES
FOLHAPRESS
A maioria das crianças que nasceram com microcefalia causada pelo vírus zika no Brasil apresenta vários problemas neurológicos e sensoriais que atrapalham seu desenvolvimento e aumentam o risco de morte. Um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), publicado na revista Plos Global Public Health, mostrou que mais da metade dessas crianças teve epilepsia e dificuldade de atenção social, e até 67% tiveram problemas nos olhos. Além disso, cerca de 80% apresentaram depósitos de cálcio no cérebro em exames de imagem.
Este é o maior estudo do mundo sobre os efeitos do vírus zika na infância, porque outros estudos geralmente têm poucos participantes. A Fiocruz analisou a saúde e o desenvolvimento de 843 crianças com Síndrome Congênita do Zika (SCZ), nascidas entre 2015 e 2018, durante a epidemia no Brasil. As informações foram coletadas em consultas presenciais com mães e crianças em 12 centros de pesquisa nas regiões Norte, Nordeste e Sudeste do país.
O vírus zika foi identificado no Brasil pela primeira vez em 28 de abril de 2015. Nos meses seguintes, milhares de bebês nasceram com microcefalia. A doença é transmitida pelo mosquito Aedes aegypti, que também transmite dengue e chikungunya.
No estudo, 71,3% das crianças (601 de 843) tinham microcefalia ao nascer. No acompanhamento após o nascimento, 20,4% desenvolveram microcefalia, ou seja, não tinham a malformação ao nascer. Destas, 63% apresentavam microcefalia grave e 36%, moderada.
Das crianças estudadas, 394 apresentaram microcefalia desproporcional, quando o corpo está do tamanho esperado, mas a cabeça é menor, indicando danos cerebrais mais graves. A pesquisadora Maria Elizabeth Moreira, da Fiocruz, afirma que a maioria dos casos de microcefalia são desproporcionais.
Os problemas neurológicos foram frequentes e graves. A epilepsia, que causa convulsões intensas, afetou em média 58,3% das crianças, variando entre 30% e 80%. Problemas de atenção social, como falta de sorriso e de contato visual, foram observados em pelo menos metade das crianças. Quase metade apresentou dificuldades em engolir.
Exames de imagem como ultrassom, tomografia e ressonância mostraram danos cerebrais graves em quase todos os casos. As calcificações cerebrais, que são depósitos de cálcio no cérebro, foram comuns e podem causar convulsões, rigidez muscular e contrações que dificultam os movimentos.
Para o infectologista Kleber Luz, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e coordenador do comitê de arbovírus da Sociedade Brasileira de Infectologia, o estudo é importante para confirmar aspectos que já eram observados, mas ainda geravam dúvidas na comunidade científica.
Segundo ele, a síndrome causada pelo zika foi um quadro totalmente novo e chegou a ser erroneamente atribuída a outros fatores, especialmente por ter afetado principalmente o Nordeste do país.
“É um estudo robusto, com muitas crianças, que confirma o que médicos e pesquisadores já vinham percebendo desde a epidemia”, diz Kleber Luz.
Maria Elizabeth Moreira explica que a gravidade da microcefalia varia conforme o trimestre da gravidez em que a mãe foi infectada. Se a infecção ocorre no primeiro trimestre, o cérebro do feto não se forma direito. Se acontece no segundo ou terceiro trimestre, o cérebro, que já está crescendo, sofre destruição das células, chamada apoptose.
A gravidade depende da extensão do dano e da idade gestacional em que a infecção ocorreu.
O estudo identificou também que prematuridade, baixo peso ao nascer e outras malformações estão ligadas à microcefalia. A prematuridade piora o prognóstico.
Cerca de 30% das crianças com formas graves da síndrome morreram no primeiro ano de vida, principalmente por complicações como pneumonia e infecções. Aproximadamente 70% continuam sob acompanhamento, mas ainda não se sabe a expectativa de vida dessas crianças, pois a condição é recente e pouco estudada.
Kleber Luz acrescenta que, embora estudos menores já tivessem mostrado esses problemas, faltava um estudo amplo que confirmasse a gravidade e a duração das sequelas. A epilepsia associada à microcefalia por zika, segundo ele, é grave e difícil de controlar, exigindo vários medicamentos e acompanhamento constante.
Maria Elizabeth Moreira ressalta a importância da estimulação precoce. Estimulação sensorial, motora e cognitiva pode ajudar áreas ainda saudáveis do cérebro a substituir as partes danificadas.
Intervenções como fisioterapia, fonoaudiologia, correção rápida de problemas visuais e auditivos e controle rigoroso das convulsões são essenciais para melhorar o prognóstico.
Kleber Luz afirma que as sequelas são permanentes e a expectativa de vida dessas crianças é, em média, de 10 a 15 anos, embora alguns possam viver mais com os avanços da medicina.
