LEANDRO MACHADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A comunidade Douglas Rodrigues, localizada na zona norte de São Paulo, vive há 13 anos tentando que o governo e as empresas de energia instalem e legalizem a rede elétrica para os 12 mil moradores, muitos deles imigrantes.
Desde 2013, quando famílias de movimentos de moradia ocuparam o local, a eletricidade é ilegal, feita com ligações improvisadas e fios expostos puxando energia de transformadores em ruas próximas.
Essas ligações perigosas causam muitas vezes curtos-circuitos, aparelhos queimados e até incêndios graves, como em julho de 2016, quando duas pessoas morreram e 350 casas foram destruídas.
Moradores dizem que eletricistas da própria comunidade mantêm as gambiarras, cobrando R$ 30 por mês. Um deles foi preso este ano por furto de energia.
Também há relatos de funcionários de empresas terceirizadas da Enel que cobram até R$ 4.000 para religar a energia ou consertar as ligações quando há problemas.
Nilda Dias, 63 anos, líder do movimento local, conta que uma vez um caminhão da Enel chegou, a energia caiu, e depois voltaram cobrando pela religação.
Na visita da reportagem em 2 de julho, foram encontrados três postes com transformadores da empresa Itaipu, fornecedor da Enel, instalados de forma irregular, pois a rede oficial nem foi projetada.
Henrique Ollitta, secretário-geral do movimento, afirma que os técnicos da Enel sempre dão desculpas diferentes para não realizar o serviço.
A Enel nega as cobranças injustas e diz não compactuar com irregularidades, destacando seu compromisso com ética e compliance.
Nos últimos anos, a comunidade tentou várias vezes que o poder público e a concessionária regularizassem a energia. Em 2017, a Justiça ordenou que a então AES Eletropaulo fizesse a instalação, mas a empresa recorreu e venceu em segunda instância. Quando a Enel assumiu, o processo reiniciou.
Em 2021, após articulação do então vereador Eduardo Suplicy (PT), diretores da Enel visitaram a comunidade prometendo acelerar a regularização, mas nada avançou. Em maio de 2026, dirigentes da Enel se reuniram novamente com moradores, com a presença da vereadora Luna Zarattini (PT), mas ainda sem solução.
A pressão chegou até a Itália, sede da Enel, com sindicatos italianos pedindo que a empresa regularize o serviço para garantir dignidade às famílias.
A Enel alega que a comunidade está em uma Área de Preservação Permanente (APP), o que dificulta a instalação por questões ambientais, e que faltam condições técnicas para uma implantação segura. Destaca que a regularização depende de melhorias na infraestrutura feitas pelo poder público e da aprovação ambiental.
Por sua vez, a prefeitura de São Paulo afirma que só parte da área é APP e que a região é zona especial para moradia social (ZEIS), onde a instalação pode ser autorizada se cumprir requisitos do Código Florestal.
O terreno ocupado estava abandonado há 22 anos antes da ocupação em 2013 por famílias e movimentos sociais. O nome do local homenageia Douglas Rodrigues, jovem morto por policial em 2013.
Mais de 300 das 2.000 famílias são de imigrantes da Bolívia, Colômbia, Paraguai e Haiti, que participam da organização comunitária.
Os moradores também enfrentam disputa judicial contra a antiga dona do terreno, a empresa Ideal Empreendimentos Imobiliários S.A., subsidiária do grupo Tenório, que deve impostos à União e IPTU à prefeitura.
Em 2023, o prefeito Ricardo Nunes assinou decreto para desapropriar 50 mil metros quadrados, facilitando a regularização e urbanização da área.
A Justiça avaliou o terreno em R$ 9,6 milhões, valor que será abatido da dívida da empresa com o município.
