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domingo, 01/02/2026

Calor alto aumenta abandono escolar no ensino médio público

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ISABELA PALHARES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O aumento de dias com temperatura acima de 34°C eleva em 5% as chances de estudantes do ensino médio da rede pública abandonarem a escola no Brasil, segundo uma pesquisa feita pela FGV e pela Universidade Minerva, nos EUA.

Estudos anteriores já mostravam que o calor intenso dificulta a capacidade de concentração e o desempenho acadêmico, mas este é o primeiro a relacionar as altas temperaturas ao crescimento da evasão escolar.

O impacto negativo foi observado somente nas escolas públicas, especialmente as localizadas em áreas urbanas. Nas escolas particulares, que normalmente têm melhores condições para amenizar o calor, não houve mudança significativa.

Os pesquisadores destacam que o aumento dos dias quentes pode agravar as desigualdades educacionais no país. Os dados foram publicados na revista científica Nature Climate Change.

Julio César dos Santos, um dos autores do estudo, afirma que o maior risco de abandono ocorre porque os adolescentes, que já têm menos consciência dos benefícios de concluir os estudos, encontram mais dificuldade para aprender devido ao desconforto causado pelo calor.

“Acima dos 27°C, funções cerebrais importantes para o aprendizado, como concentração e autocontrole, ficam prejudicadas. Isso desmotiva o jovem a frequentar a escola, pois ele sente dificuldade para aprender e pode acabar desistindo”, explica Santos, professor do programa de pós-graduação em neurociência da UFF (Universidade Federal Fluminense).

Ele também ressalta que o calor noturno afeta a qualidade do sono, prejudicando a fixação do aprendizado.

Para compreender o impacto do calor na evasão, a pesquisa analisou dados do Censo Escolar entre 2007 e 2016, com mais de 80 milhões de matrículas em mais de 30 mil escolas brasileiras, além de informações climáticas detalhadas do ERA5, do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus.

Não foram observados efeitos relevantes do calor para estudantes do 1º ao 9º ano do ensino fundamental nem para aqueles de escolas particulares.

Santos destaca que fatores socioeconômicos e desigualdades também influenciam a evasão, afetando principalmente alunos mais pobres, pretos, pardos e indígenas, que estudam em escolas com infraestrutura precária e mais vulneráveis ao calor.

Ele reforça que, apesar de o calor ser mais um desafio, soluções existem para reduzir seus impactos nas escolas.

O Plano Nacional de Educação (PNE), vigente até 2034, incorpora pela primeira vez medidas para adaptar escolas às mudanças climáticas, exigindo que todas tenham planos para prevenir, mitigar e se adaptar ao aumento das temperaturas e eventos extremos.

A legislação prevê que até 2023 todas as escolas disponham de infraestrutura que garanta conforto térmico e atribui ao governo federal e aos estados a responsabilidade de financiar essas mudanças.

No entanto, um estudo do Ciepp mostra que, em 2023, apenas 33% das salas de aula públicas eram climatizadas, enquanto nas privadas essa taxa é de 47%.

Santos alerta que estudantes em condições menos favoráveis enfrentam mais essa dificuldade e que é fundamental acelerar as respostas às mudanças climáticas.

Além da adaptação estrutural, algumas redes de ensino têm adotado estratégias, como alterar horários para evitar períodos de maior calor.

No início de 2025, o Governo do Maranhão orientou as escolas para antecipar ou adiar os horários de aula, tentando evitar as horas mais quentes do dia.

Embora essa não seja a solução ideal, é uma alternativa temporária enquanto a infraestrutura adequada não estiver disponível.

Recentemente, a Justiça do Rio de Janeiro determinou que o governo estadual apresente um diagnóstico e um plano emergencial para climatizar as escolas, após relatos de salas alcançando até 42ºC, causando desmaios entre estudantes.

O governo do estado tem prazos estabelecidos para entregar o diagnóstico e o plano de ação com cronograma e orçamento detalhados.

A Secretaria Estadual de Educação afirmou que 97% das escolas da rede já contam com ambientes climatizados, mas não especificou se todas as salas possuem ar-condicionado.

Ainda segundo a secretaria, está em andamento um plano contínuo para climatização das escolas, incluindo obras para melhorar a rede elétrica e aquisição de ventiladores como solução temporária.

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