MATHEUS DOS SANTOS
FOLHAPRESS
A Bolsa de Valores do Brasil caiu 2,13% nesta quarta-feira (4), fechando em 181.708 pontos, segundo dados preliminares. Essa queda aconteceu devido à venda dos lucros recentes e à baixa nos valores das ações dos bancos brasileiros após a divulgação dos resultados financeiros.
Além disso, o aumento da cautela global e dados fracos do mercado de trabalho dos Estados Unidos influenciaram o movimento dos investidores durante o dia.
Na terça-feira (3), a Bolsa bateu uma alta histórica, chegando a mais de 185 mil pontos pela primeira vez. Durante o pregão de quarta, o índice chegou a cair 2,91%, atingindo 180.268 pontos no ponto mais baixo.
O dólar terminou o dia praticamente estável, com uma leve alta de 0,04%, cotado a R$ 5,250.
Nas últimas semanas, a alta da Bolsa foi impulsionada pelo interesse dos investidores estrangeiros, que analisaram o mercado brasileiro como atraente. Em janeiro, o volume de investimentos externos na B3 ultrapassou o montante total de todo o ano de 2025, segundo a consultoria Elos Ayta.
No entanto, nesta quarta, a tendência foi de venda para garantir lucros, conforme explica Otávio Araújo, consultor sênior da ZERO Markets Brasil.
“A queda no Ibovespa sugere uma provável saída de recursos da Bolsa nacional após os fortes investimentos no primeiro mês do ano”, acrescenta Bruno Shahini, especialista da Nomad.
Além do Brasil, os principais mercados dos Estados Unidos também apresentaram queda: o índice S&P 500 caiu 0,51% e o Nasdaq recuou 1,51%.
Outro fator que influenciou a Bolsa brasileira foi o começo da divulgação dos balanços financeiros. O Santander Brasil apresentou lucro líquido gerencial de R$ 15,615 bilhões em 2025, valor próximo ao esperado pelos analistas consultados pela Bloomberg.
No último trimestre do ano, porém, a inadimplência do Santander subiu para 3,7%, contra 3,2% no ano anterior. Pedro Galdi, analista CNPI do AGF, comenta que o aumento da inadimplência pode ter causado a queda das ações do setor bancário, que estavam em alta recente.
Segundo Otávio Araújo, o movimento indica expectativa de queda nos lucros dos grandes bancos devido à inadimplência e ajustes técnicos após valorização recente.
As ações do Santander caíram 2,69%, negociadas a R$ 34,97, acompanhando a queda geral do setor. O Itaú divulgará seus resultados ainda nesta quarta-feira.
A indicação do secretário de política econômica da Fazenda, Guilherme Melo, para o Banco Central também causou apreensão no mercado, elevando as taxas dos Depósitos Interfinanceiros (DIs), especialmente nas operações de longo prazo.
“A nomeação gerou desconforto e cautela, levando a juros maiores no longo prazo, pois o mercado pede mais remuneração para emprestar dinheiro ao governo”, explica Rafael Lima, CEO da fintech Ótmow.
Guilherme Melo tem ligação com o PT e participou da formulação do plano econômico do governo Lula. Sua possível indicação para o Banco Central é vista como sinal de maior influência do partido na instituição.
No cenário internacional, os investidores ficaram atentos ao relatório ADP de janeiro nos EUA, que mostrou a criação de apenas 22 mil empregos no setor privado, abaixo da estimativa média de 48 mil vagas.
“Menos empregos indicam menor pressão sobre a inflação, aumentando a chance de cortes nas taxas de juros americanas. Isso torna a estratégia de carry trade mais atraente, pressionando o dólar para baixo,” afirma Alison Correia, analista e cofundador da Dom Investimentos.
O carry trade consiste em tomar empréstimos em países com juros baixos, como os EUA, e investir em mercados com maior retorno, como o Brasil. Quanto mais forte essa estratégia, maior a entrada de dólares e valorização do real.
Os dados recentes, contudo, não alteraram muito as expectativas para as taxas de juros americanas, atualmente entre 3,5% e 3,75%. Segundo a ferramenta FedWatch do CME Group, há 90% de chance de o Federal Reserve manter as taxas na próxima reunião em março.
O presidente Trump tem pressionado por cortes imediatos e significativos nas taxas de juros. Na última sexta-feira (30), Trump indicou Kevin Warsh para substituir Jerome Powell na presidência do Fed. Warsh é considerado favorável a políticas duras contra a inflação, diferente da postura de Trump.
No entanto, declarações recentes sugerem que Warsh pode ser mais flexível do que o esperado inicialmente. Gabriel Cecco, especialista da Valor Investimentos, afirma que Warsh tende a valorizar o crescimento econômico e pode evitar juros altos por muito tempo.
