JORGE ABREU
FOLHAPRESS
Na quarta-feira (4), representantes do governo Lula se encontraram com indígenas que ocupam há 14 dias a sede da empresa Cargill, que atua no agronegócio, em Santarém, Pará. A reunião teve como pauta o decreto nº 12.600/2025, que inclui trechos dos rios Tapajós, Madeira (RO) e Tocantins (TO) no Programa Nacional de Desestatização (PND).
Os indígenas do Tapajós exigem a revogação desse decreto, pois acreditam que ele pode levar à privatização dos rios, incluindo serviços como dragagem para manter a navegabilidade.
Sem respostas concretas do governo, os manifestantes bloquearam a saída dos servidores do governo federal do acampamento e também impediram o acesso à avenida Fernando Guilhon, via que leva ao aeroporto de Santarém, obrigando passageiros a percorrerem o trecho a pé.
O cacique Gilson Tupinambá declarou aos representantes do governo: “Ninguém sai de Santarém. O aeroporto foi fechado. Vocês vão ficar aqui conosco, comer o que nós comemos e passar pelo que nós passamos.”
Foram retidos no local Marcos Kaingang, secretário nacional de direitos territoriais do Ministério dos Povos Indígenas; Pagu Rodrigues, diretora de direitos humanos da Funai; e Marcelo Fragoso, chefe de gabinete da Secretaria-Geral da Presidência.
Os representantes afirmaram que levariam as demandas às autoridades superiores, ausentes na reunião. Os indígenas não concordaram com as propostas apresentadas e pediram uma ligação direta com o presidente Lula, que não foi atendida.
Este projeto de hidrovias já enfrentou protestos durante a COP30, conferência do clima da ONU em Belém. As ministras Sônia Guajajara e Marina Silva prometeram uma consulta prévia com as comunidades, promessa não cumprida até o momento.
O governo federal não se pronunciou até a publicação deste texto.
Alessandra Korap Munduruku, liderança indígena, disse: “Estamos ocupando a Cargill há 14 dias e agora fechamos o aeroporto de Santarém. O turismo chega para tirar fotos, mas poucos sabem dos problemas que enfrentamos.”
Ela ainda afirmou que o decreto assinado pelo presidente privatiza três rios e facilita a dragagem do rio Tapajós, motivo da mobilização.
A empresa Cargill, em nota, afirmou respeitar o direito de manifestação e cumprir as leis, e que a ocupação ocorre em frente à portaria de caminhões, bloqueando o tráfego, não dentro da área de operação da empresa.
