FERNANDO CANZIAN
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A produtividade do Brasil está mudando de lugar. Agora, o motor do crescimento não está mais nas grandes indústrias das cidades, mas no interior, principalmente por causa do agronegócio no Centro-Oeste e da expansão para novas áreas agrícolas, onde a desigualdade social também está diminuindo.
O impacto do agro vai além da agricultura. Ele impulsiona várias áreas da economia, como transporte, comércio, construção, tecnologia, crédito e serviços, que correspondem a cerca de 70% da economia do país, além de alimentar a indústria.
Quase 70% do que o Brasil produz no campo serve para a indústria de alimentos, que é uma das maiores do mundo e líder em produtividade.
No primeiro semestre, as exportações da indústria de alimentos chegaram a US$ 33 bilhões (R$ 170 bilhões), com aumentos em receita e volume comparados ao ano anterior. Esse valor representou 18% das exportações totais, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia).
Enquanto isso, a indústria tradicional, principalmente no Sudeste, está perdendo força.
A participação da indústria no PIB caiu de 15,7% para 9,8% desde 1995, uma queda de 38%, devido à perda de competitividade, segundo consultoria MB Associados.
No agro, o crescimento da produtividade é muito maior. Entre 2002 e 2019, a produtividade geral do país subiu 18,7%, mas no campo o crescimento foi de 80,1%, nos serviços 10,3% e na indústria apenas 5,4%. Alguns estados cresceram bastante nesta área.
O Piauí lidera esse crescimento, com aumento de 103%. O Maranhão cresceu 86% e Tocantins 69,7%. Já em São Paulo e Rio de Janeiro, o crescimento foi baixo, 1,2% e 4%, respectivamente.
Com esses avanços, estados antes menos desenvolvidos passaram a ser referências em ganhos de produtividade. Mato Grosso é exemplo, com crescimento nove vezes maior que a média nacional nos últimos anos.
Pesquisa da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA) mostra que 94,8% dos produtores têm dificuldade para contratar trabalhadores, mesmo com os salários no campo aumentando 35,2% entre 2022 e 2025, superando os 24,8% da média dos outros setores.
Uma das causas é a migração dos trabalhadores agrícolas para o setor de serviços.
Alan Bueno, economista da Universidade Estadual do Paraná e autor do estudo sobre produtividade nos municípios, diz que o crescimento do agro está acontecendo fora das áreas tradicionais. O Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) é o novo destaque, como o Centro-Oeste foi nos anos 1950. Isso está mudando a realidade das regiões.
O estudo de Bueno e Diogo Ferraz considera tanto empregos formais quanto informais para medir a produtividade sem distorções, usando dados da Rais e da Pnad.
De acordo com o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), a chance média de crianças brasileiras chegarem entre os 10% mais ricos é de 1,8%. No Centro-Oeste, essa chance sobe para 2,86% e em cidades como Sapezal (MT) chega a 3,9%.
Fernando Veloso, diretor do IMDS, comenta que essas cidades conseguem bons recursos públicos, com bons serviços de educação e saúde, favorecendo a mobilidade social.
Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, destaca que quem investe no agro acaba investindo na própria região, criando mais oportunidades locais, como escritórios e consultórios, gerando uma multiplicação de chances para as pessoas.
Investimentos em pesquisa e tecnologia tropical feitos pela Embrapa ajudaram o Brasil a construir uma agricultura competitiva. O valor bruto da produção agropecuária foi estimado em R$ 1,39 trilhão em julho.
Essa produção movimenta uma cadeia econômica grande: máquinas, fertilizantes, sementes, crédito, tecnologia, transporte, armazenamento, ferrovias, portos, comércio e indústria, transformando soja, milho, leite e outros em produtos para o mundo.
Cleber Sabonaro, gerente da Abia, afirma que a indústria de alimentos investe cada vez mais em tecnologia, logística e sustentabilidade para ser eficiente.
O maior desafio é agregar mais valor aos produtos, ampliar a presença do Brasil no mercado global e fortalecer o papel do país na segurança alimentar mundial.
Por outro lado, Rodrigues alerta que o Brasil precisa abrir novos mercados para produtos alimentícios mais elaborados, transformando esse tema em uma prioridade nacional.
