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A religião está em desuso’, afirma cético Michael Shermer

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Para autor de divulgação científica, ciência tem sido mais satisfatória ao responder de onde viemos, por que estamos aqui, do que a religião

Michael Shermer construiu seu trabalho em diálogo com outros autores – mais exatamente, questionando as descobertas de cientistas diversos. O americano, famoso por seu ceticismo, conquistou seguidores mundo afora ao colocar em xeque fatos aceitos como verdade, para prová-los ou refutá-los com base na psicologia experimental, que explora amplamente nos best-sellers O Outro Lado da Moeda: A Influência do Fator Emocional na Sua Relação com o Dinheiro(2008) e Por que as Pessoas Acreditam em Coisas Estranhas (2011). Em passagem pelo Brasil para um seminário de divulgação científica, na última semana, Shermer falou a VEJA sobre teorias de conspiração, religião, xenofobia e outros temas.

Em um artigo, você escreveu que os “escritores geralmente oferecem insights da psique humana que a psicologia demora anos para confirmar”. Como a literatura consegue se antecipar? Os escritores extraem aspectos da emoção, psicologia e relacionamento humano da vivência, a chamada “sabedoria popular”, e sabem traduzi-los no papel muito bem. Meu ponto neste artigo foi questionar a veracidade destes conhecimentos a partir de hipóteses e conhecimentos científicos. Por exemplo, qual tipo de relacionamento os fãs de Jane Austen preferem ou se os fãs de Shakespeare tendem a disputas de poder. Por muito tempo, ciência e literatura percorreram caminhos diferentes, que agora estão se encontrando, o que é ótimo.

Como a ciência explica a recente ascensão de ideias de direita, racismo e xenofobia? A imigração sempre foi uma questão em todos os países, tanto que todos têm leis que regulam a entrada de pessoas. Em minha opinião, os Estados Unidos chegam a ser liberais quanto à imigração, se comparados a lugares como Alemanha e Austrália. Agora, quanto a progresso moral, o ideal seria não termos nenhuma fronteira ou Estados, mas só chegaremos lá daqui a alguns séculos.

As teorias da conspiração satisfazem as chamadas ‘dissonâncias cognitivas’ — quando um fato parece extraordinário demais para ser explicado por algo corriqueiro. A morte da Princesa Diana, por exemplo: princesas não morrem vítimas de direção perigosa, excesso de velocidade combinada à falta de cinto de segurança, claro que não, na verdade ela forjou a morte e está vivendo na América do Sul com Elvis. Nós tratamos nossas celebridades como deuses, eles não podem morrer de causas naturais

À luz dos acontecimentos em Charlotteville, você acredita que o homem sempre será racista? É inerente ao ser humano dividir os outros em grupos, desde o primitivo “meu povo versus seu povo”, a casos extremos de xenofobia. A tribo indígena Yanomami, por exemplo, define como “humanos” apenas a eles mesmos, todo o resto recebe outra classificação. No último século, porém, a sociedade trabalhou para desconstruir esses grupos e ser mais inclusiva, por meio de leis que condenam o preconceito, por meio do turismo, do intercâmbio de filmes e músicas e tudo o mais entre os países. Basicamente, estamos tentando reeducar nosso cérebro para entender que o “estranho” também faz parte de nós. Eu acredito que temos feito um bom trabalho, apesar de episódios como o de Charlottesville gritarem o contrário.

Como a evolução enxerga o plebiscito de independência da Catalunha, na Espanha? Acredito que este é um sinal do futuro. Os grandes Estados tendem a se fragmentar em nações menores, como aconteceu com a União Soviética em 1991. Aos poucos, deverá se tornar ilegal estender as barreiras nacionais, pois isso reafirma esta propensão humana de se dividir em grupos.

Por que as teorias da conspiração são tão populares? Elas tendem a dar uma explicação “satisfatória” para fatos muito extraordinários. O funcionamento da economia, por exemplo, é muito complicado. Uma série de fatores e algoritmos que influenciam o valor do dinheiro é muito mais difícil de absorver do que doze homens em Londres, os Illuminati, que controlam todo o dinheiro do mundo. É mais simples, limpo e promove a sensação de “agora eu entendo”. As teorias da conspiração também satisfazem as chamadas “dissonâncias cognitivas” — quando um fato parece extraordinário demais para ser explicado por algo corriqueiro. Por exemplo, o assassinato do presidente John F. Kennedy por Lee Harvey Oswald só não soa bem aos ouvidos do público: ele era o presidente dos Estados Unidos e o foi morto por um homem qualquer. Daí, surgiram várias teorias envolvendo o FBI, a CIA, a KGB, Cuba, a Máfia Russa, foi como se tivesse que ter algo maior envolvido. A morte da Princesa Diana é outro caso, princesas não morrem vítimas de direção perigosa, excesso de velocidade combinada à falta de cinto de segurança, claro que não, na verdade ela forjou a morte e está vivendo na América do Sul com Elvis. Nós tratamos nossas celebridades como deuses, eles não podem morrer de causas naturais.

Não existe nenhuma base científica para afirmar que a Terra é plana, é só mais um meme da internet, como as Kardashians

Há quem acredite que o aquecimento global não passa de uma criação para frear o crescimento dos países subdesenvolvidos. Isso pode ser considerado uma teoria da conspiração? Com certeza. Primeiro, existem evidências científicas que comprovam o aquecimento global, e que ele é fruto da ação de humanos e precisamos fazer algo a respeito. Os céticos não aceitam os fatos porque eles abalam suas crenças no livre mercado e na isenção de barreiras industriais.

Existem exemplos mais “ousados” de teoria da conspiração. Recentemente, voltou à tona a tese de que a Terra é plana. Existe algum motivo científico para o assunto estar novamente em pauta? Eu nunca imaginei que alguém fosse voltar à este ponto (risos). Não tenho ideia, alguma celebridade deve ter comentado na internet e popularizou novamente. Também não existe nenhuma base científica para afirmar que a Terra é plana, é só mais um meme da internet, como as Kardashians. Até os que não acreditam em satélites e viagens no espaço podem ver a sombra redonda do planeta na Lua e no Sol durante os eclipses.

Na Europa, o berço do cristianismo, as grandes catedrais hoje funcionam mais como museus de obras magníficas do passado, do que, de fato, um lugar de culto religioso. O Vaticano, por exemplo, abriga uma das maiores coleções de arte do mundo — eles roubaram tanto, pelo menos deixam o povo ver.

Você acredita no diálogo entre ciência e religião? Sim, até porque nós buscamos responder às mesmas demandas. No entanto, desde a Revolução Científica a ciência tem sido mais satisfatória ao responder de onde viemos, por que estamos aqui, do que a religião. Mas, claro, ainda há espaço para uma crença em algo maior.

A religião vai deixar de existir? Acredito que sim, com o passar dos anos. Hoje, ao responder melhor às perguntas, a ciência também oferece certo conforto aos humanos quanto a pertencimento, missão, antes uma exclusividade da religião. O número de pessoas que não se identificam com nenhuma religião (Nons) apresentou o maior crescimento no Ocidente. Não necessariamente todos são ateus como eu, apenas não seguem as doutrinas de nenhum culto, e buscam seus valores em outros lugares, como família, amigos, cultura. A religião, em si, está caindo em desuso. Na Europa, o berço do cristianismo, as grandes catedrais hoje funcionam mais como museus de obras magníficas do passado, do que, de fato, um lugar de culto religioso. O Vaticano, por exemplo, abriga uma das maiores coleções de arte do mundo — eles roubaram tanto, pelo menos deixam o povo ver.

Então não crer em algo superior é um sinal de evolução? Evolução cultural, sim. Mas, especialmente, de disseminação da ciência, razão, filosofia, secularismo e outros valores que concordamos serem benéficos no geral, como os direitos civis, da mulher e os LGBT.

Quando estabelecemos que todos são livres e iguais perante a lei, não importa se a pessoa escolheu ou não seu gênero, opção sexual, todos devem ser tratados iguais e ter o mesmo direito.

Como aplicar o ceticismo no dia a dia? Questionando tudo e conversando com pessoas diferentes, principalmente aquelas que discordam de você. Hoje, temos muita informação falsa na internet, então devemos sempre questionar as fontes e buscar credibilidade de alguma maneira.

Você ouviu algo sobre a fosfoetanolamina, uma substância que pesquisadores brasileiros acreditam ter o poder de curar o câncer? Nós temos procurado a cura para o câncer nos últimos 25 anos, e a cada ano alguém surge com uma nova “solução”. Primeiro, sempre que a ciência moderna não consegue responder algo, abre-se uma porta para alheios entrarem e tentarem suprir este vazio com suas teorias. A grande questão do câncer é que não existe um único tipo, mas vários, então uma única cura não satisfaria a todos eles.

A transexualidade tem sido uma pauta bastante recorrente hoje em dia. E, apesar de todos os exemplos que temos, há quem acredite e pregue que escolher mudar de sexo é uma escolha. Você concorda com eles, ou a transexualidade tem a ver com a genética? Quando estabelecemos que todos são livres e iguais perante a lei, não importa se a pessoa escolheu ou não seu gênero, opção sexual, todos devem ser tratados iguais e ter o mesmo direito. Cientificamente, temos muitas evidências de que homossexualidade seja parte das características genéticas. Quanto aos trans, nós não temos informações o suficiente para afirmar, mas tudo indica que também seja um aspecto biológico. O único aspecto que ainda me preocupa é a cirurgia de mudança de sexo em adolescentes. O córtex pré-frontal, região do cérebro responsável por tomar decisões racionais, não está completamente desenvolvida até os vinte anos, então, para mim, antes disso não deveria ser permitido se submeter a uma cirurgia do gênero, nem aos tratamentos hormonais. Quero deixar claro, ninguém pode impor a você o que você tem que ser, mas apenas quando você chega à idade da maturidade física.

Fonte: VEJA

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Ciência

Casamento pode levar a menor risco de demência, sugere estudo

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Os dados indicam que solteiros têm 42% mais chances de desenvolver a doença do que casados; no caso dos viúvos, esse valor cai para 20%

Boa notícia para os casais: pesquisadores sugerem que o casamento pode reduzir o risco de desenvolver demência. Uma pesquisa publicada nesta terça-feira no Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry concluiu que, comparados com os que levam a vida a dois, solteiros apresentam 42% mais chances de ter a doença. No caso dos viúvos, o risco também a maior do que casados, mas o valor cai para 20%.

“Pessoas casadas tendem a ter estilos de vida mais saudáveis ​​e estão mais engajadas socialmente, o que pode explicar por que elas são menos propensas a desenvolver demência”, disse em comunicado o principal autor do estudo, o psiquiatra Andrew Sommerlad, da University College London, no Reino Unido. Ainda assim, os pesquisadores admitem que essa tendência pode estar mudando.

Sommerlad e sua equipe basearam suas descobertas em dados de 15 estudos publicados em periódicos científicos de grande relevância até o final de 2016. O objetivo era analisar um possível papel do estado civil no risco de desenvolver demência. Os dados analisados envolvem mais de 800.000 pessoas na Europa, América do Norte e do Sul e na Ásia.

A visão geral, no entanto, diverge daquela que aparece quando se leva em conta a idade das populações analisadas. Embora, juntos, os estudos mostrem que solteiros têm 42% mais chance de desenvolver demência, as pesquisas que levam em conta pessoas nascidas depois de 1927 (ou seja, com menos de 90 anos) indicam que o risco é menor, de apenas 24%. Isso pode sugerir que a associação entre os dois fatores esteja diminuindo com o tempo. O motivo, no entanto, ainda não está claro para os cientistas.

Da mesma forma, o risco de desenvolver a doença para viúvos também diminuiu misteriosamente quando foi considerado o grau de educação dos participantes. Pessoas que estudaram mais apresentavam uma tendência menor.

Já no caso dos divorciados, a associação não esteve presente em praticamente nenhum dos estudos, embora os cientistas ressaltem que isso pode ser resultado da pequena representatividade deste grupo nas populações analisadas. Todas as descobertas foram baseadas em estudos observacionais, portanto, nenhuma conclusão sólida sobre causa e efeito pode ser tirada, apenas sobre uma associação entre os dois fatores. Os pesquisadores advertem também que alguns dos estudos incluídos não fornecem dados sobre o tempo que os participantes estão viúvos ou divorciados.

A única conclusão sem ressalvas do estudo é que, em todos os casos, o menor risco de desenvolver demência persistiu entre pessoas casadas. “Esperamos que nossas descobertas possam ser aplicadas em medidas de prevenção de demência para pessoas não casadas, como manter a saúde física e garantir a estimulação mental por meio do envolvimento social”, afirma Sommerlad.

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Ciência

Sinais de matéria escura são detectados por satélite chinês

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A misteriosa substância não pode ser vista diretamente por telescópios, mas exploradores podem detectá-la por seus efeitos gravitacionais

satélite chinês DAMPE (sigla em inglês para “explorador de partículas de matéria escura”) acaba de detectar os primeiros sinais de matéria escura desde que foi lançado, em maio de 2016. A substância é impossível de ser observada e dá sustentação a diversas teorias científicas. Os dados fornecem uma visão detalhada do fluxo de elétrons de raios cósmicos, informações valiosas para estudar o comportamento das misteriosas partículas invisíveis que, junto com a energia escura, compõem 95% do Universo, anunciou a Academia Chinesa de Ciências nesta quarta-feira.

O DAMPE é o primeiro satélite astronômico da China. Ele foi capaz de medir uma ruptura no espectro energético dos raios cósmicos próxima a 0,9 teraelétron-volt (TeV) – um valor tão pequeno que marca uma precisão sem precedentes em pesquisas desse tipo. “Juntamente com dados de experiências sobre microondas cósmicas, medições de raios gama de alta energia e informações de outros telescópios astronômicos, os dados DAMPE podem ajudar a esclarecer a conexão entre a anomalia de pósitrons [partículas de carga positiva opostas aos elétrons] e a aniquilação ou decaimento de partículas de matéria escura”, diz Fan Yizhong, chefe da equipe que desenvolveu o sistema de aplicação utilizado pelo DAMPE, em comunicado.

Matéria escura

A matéria escura é uma hipotética substância que não emite radiação eletromagnética suficiente para ser vista por detectores atuais de partículas, mas que poderia ser detectada por seus efeitos gravitacionais. Os astrofísicos consideram essas partículas necessárias para compor elaborações matemáticas que explicariam o funcionamento do Universo. Se ela não existisse, ruiriam diversas equações da astrofísica, principalmente as aceitas para explicar as relações gravitacionais entre os corpos celestes.

O satélite DAMPE é dotado dos mais avançados detectores de partículas. É a aposta mais ousada até agora para a detecção da enigmática matéria escura. Caso esse mistério não seja desvendado, porém – o resultado divulgado nesta quarta-feira, que rendeu uma publicação na prestigiada revista científica Nature, já poderia colocar os organizadores do projeto como candidatos a um Nobel –, a iniciativa não será perdida. A Academia Chinesa de Ciências também pretende utilizar a nave para estudar outros fenômenos espaciais, como os relacionados aos raios cósmicos e aos raios gama de alta energia.

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Ciência

Operários acham osso de dinossauro durante obra no interior de SP

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Os restos, encontrados na cidade de Jaci, pertencem a um titanossauro. A descoberta foi levada para o Museu de Paleontologia de Uchoa

O osso de um dinossauro que viveu há 40 milhões de anos no interior de São Paulo foi encontrado na última semana por operários de uma obra na zona rural de Jaci, na região de São José do Rio Preto. O fóssil de 25 quilos e 40 centímetros foi identificado como sendo a parte inferior do fêmur de um titanossauro pelo paleontólogo Fabiano Iori, que esteve no loca

Esses dinossauros herbívoros de cauda e pescoço longos andavam em bandos pelo território em que se localizam atualmente as regiões norte e oeste paulista. A peça foi levada para o Museu de Paleontologia de Uchoa, cidade próxima.

De acordo com o administrador Leonardo Silva Paschoa, o osso foi localizado durante obras para um empreendimento imobiliário. Os operários avisaram o dono do imóvel e ele conseguiu retirar o fóssil.

“Por sorte, o osso estava em terreno macio e ele conseguiu fazer a retirada sem fragmentar a peça. É raro encontrar um fóssil em tão bom estado.” Segundo Paschoa, também foi achado um dente de dinossauro carnívoro próximo ao pedaço do fêmur. “A equipe de prospecção do museu vai ao local em dezembro para um trabalho de campo, já que temos autorização federal para fazer essas escavações.”

O fóssil será tombado, catalogado e passará por análise. Em seguida, será exposto no museu, que é municipal e já tem no acervo outros fósseis de animais pré-históricos, como dentes de um abelissauro e a vértebra de um megaraptor, ambos dinos carnívoros.

As peças foram encontradas em Uchoa e cidades próximas. O diretor de Turismo de Uchoa, Gustavo Dalla Dea, conta que os achados fósseis já renderam à cidade a inclusão no rol de municípios de interesse turístico do Estado de São Paulo. “Estamos construindo réplicas de dinossauros em concreto para instalar em nossa entrada principal”, disse.

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Ciência

Análise indica que ‘Abominável Homem das Neves’ é um tipo de urso

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Cientistas avaliaram o DNA de nove restos que foram atribuídos à figura lendária e descobriram que oito deles são de ursos e um pertence a um cachorro

Parece que o Abominável Homem das Neves, uma criatura misteriosa e com características humanoides que habitaria as montanhas da Ásia, não é tão abominável assim. Cientistas analisaram o DNA presente em nove amostras coletadas na cordilheira do Himalaia e no planalto tibetano, todas atribuídas à figura lendária (restos de pelo, pedaços de pele, dentes, fezes e até um osso), mas os resultados indicam que os materiais pertencem, na verdade, a oito ursosasiáticos e um cachorro. A descoberta foi publicada nesta quarta-feira no periódico Proceedings of the Royal Society B.

“Nossos resultados sugerem fortemente que os fundamentos biológicos da legenda do Homem das Neves podem ser encontrados em ursos locais, e nosso estudo demonstra que a genética deve ser capaz de desvendar outros mistérios semelhantes”, diz a líder do estudo, Charlotte Lindqvist, professora de ciências biológicas na Universidade de Buffalo, nos Estados Unidos, em comunicado.

Há décadas pessoas alegam ter visto a criatura ou indícios de que ela passara por aquele lugar enquanto caminhavam pelas montanhas asiáticas. Os restos analisados por Lindqvist e sua equipe, inclusive, faziam parte de coleções particulares e foram vendidos como se pertencessem à figura mitológica.

A equipe da Lindqvist não é a primeira a buscar por amostras de DNA do Homem das Neves, também conhecido como Yeti, em algumas partes do mundo. Mas, segundo ela, os estudos anteriores ​​realizaram análises genéticas mais simples, o que deixou questões importantes em aberto.

“Este estudo representa a análise mais rigorosa até agora de amostras suspeitas de derivar de criaturas anômalas ou míticas semelhantes a ‘hominídeos’”, afirma. Das amostras analisadas, uma pertencia a um urso preto asiático, outra a um urso marrom do Himalaia e as seis restantes a ursos marrons tibetanos. A raça do cão ao qual pertencia a última amostra não foi especificada.

Lindqvist diz que a ciência pode ser uma ferramenta útil para explorar as raízes dos mitos sobre criaturas grandes e misteriosas. Ela lembra que algo semelhante aconteceu no início do século passado na África, quando a lenda ocidental de um “unicórnio africano” foi desmistificada por pesquisadores britânicos. A criatura era, na verdade, um parente da girafa pertencente a uma espécie desconhecida até então, chamado okapi, que lembra uma mistura entre esse animal, uma zebra e um cavalo.

Urso marrom do Himalaia

Urso marrom do Himalaia (Abdullah Khan, Snow Leopard Foundation/Divulgação)

No caso, Lindqvist e sua equipe relacionaram as amostras a animais já conhecidos. Mas, assim como a descoberta do okapi, a pesquisadora afirma que os resultados são diretos. “Claramente, uma grande parte da lenda do Homem das Neves tem a ver com os ursos”, diz ela.

Além de traçar as origens da figura mitológica, o estudo fornece informações importantes sobre a história evolutiva dos ursos asiáticos. “Os ursos nessa região estão ou em situação vulnerável, ou criticamente ameaçados. Pouco se sabe sobre seu passado e sua história”, lamenta a pesquisadora. “Os ursos marrons do Himalaia, por exemplo, estão muito ameaçados. Esclarecer a estrutura de sua população e sua diversidade genética pode ajudar a estimar o tamanho de sua população atual e pensar em estratégias de administração [desses grupos].”

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Ciência

Asteroide de 5 km passará ‘raspando’ pela Terra em dezembro

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A enorme rocha deve chegar a 10 milhões de quilômetros do nosso planeta no próximo dia 16, sem oferecer riscos

Um gigantesco asteroide se aproximará do nosso planeta em 16 de dezembro. A rocha, conhecida como 3200 Phaethon (ou Faetonte, em português), tem cinco quilômetros de extensão e passará a uma distância de 10 milhões de quilômetros da Terra. Pode parecer muito – e é, tanto que cientistas do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, que costuma monitorar todos os objetos que se aproximam do nosso planeta, garantem que ele não vai chegar nem perto de colidir conosco ou oferecer qualquer risco. Mas, em termos cósmicos, isso é quase um “raspão”. O valor é “apenas” 26 vezes a distância entre a Terra e a Lua.

Os cientistas acreditam que a passagem de Faetonte será uma grande oportunidade para monitorar o asteroide e tirar algumas fotos a partir de radares localizados em Arecibo, em Porto Rico, e Goldstone, no estado americano da Califórnia. “As imagens devem ser excelentes para obter um modelo 3D detalhado”, afirma a agência espacial americana em comunicado.

Acredita-se que Faetonte seja o objeto cósmico que deu origem à chuva de meteoros Geminídeos, que normalmente ocorre todos os anos entre 13 e 14 de dezembro, por causa da similaridade entre a órbita do asteroide e a dos meteoros. Ainda assim, a maioria dos eventos celestes desse tipo é provocada por cometas (rochas espaciais com estilhaços de gelo, que provocam o efeito de “cauda luminosa” no céu), e este não parece ser o caso de Faetonte.

A dúvida, então, é se a rocha poderia ser um núcleo inativo de cometa, que pode se comportar como um cometa comum quando se aproxima do Sol. Os cientistas esperam esclarecer esta questão ao analisar a passagem do objeto celeste nas próximas semanas. Por enquanto, Faetonte é classificado como um asteroide.

A rocha foi descoberta em 1983. Seu nome faz referência a Faeton, filho do deus Hélio (que representava o Sol) na mitologia grega. Segundo a lenda, Hélio atravessava o céu em uma carruagem guiada por quatro cavalos. Um dia, Faeton decidiu passear com a carruagem sem a autorização do pai e acabou perdendo o controle dos animais, quase colocando fogo na Terra. Para evitar isso, Hélio destrói o veículo com um raio e acaba matando o filho.

Órbita

A passagem de Faetonte em 2017 é a mais próxima do nosso planeta desde 1874 e continuará com esse título até 2093, quando a rocha deve chegar a 1,9 milhões de quilômetros da Terra (ainda sem oferecer riscos).

O asteroide também vai passar por outros planetas do sistema solar, como Vênus e Mercúrio. Ele é classificado como um “Asteroide Potencialmente Perigoso” pelo Minor Planet Center, por causa de seu tamanho. Mas, para a Nasa, é pouco provável que ele venha colidir com a Terra até o fim deste século.

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Ciência

Pesquisadores identificam pássaro em processo de evolução

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Cientistas conseguem observar pela primeira vez a origem de uma espécie, que surgiu na natureza em apenas duas gerações

Um pássaro em processo de evolução para gerar uma nova espécie foi identificado na ilha de Daphne Major, no Arquipélago de Galápagos, segundo um estudo publicado na última semana na revista científica Science. É a primeira vez que cientistas conseguem identificar a origem de uma espécie na natureza. No estudo, os pesquisadores observaram durante 40 anos um grupo de aves conhecidas como tentilhões de Darwin – espécie que ajudou o naturalista inglês Charles Darwin a formular sua teoria da evolução, apresentada em 1859 na obra A Origem das Espécies.

“A novidade deste estudo é que podemos acompanhar o surgimento de novas espécies na natureza”, disse em comunicado a bióloga Rosemary Grant, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. O estudo de campo foi liderado por ela e por seu marido, Peter Grant, que também é professor de biologia evolutiva na instituição, além de contar com a ajuda de pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia. Graças à localização afastada da ilha, que fica isolada no Oceano Pacífico, a equipe pode observar diretamente a atuação da seleção natural prevista por Darwin, em que apenas os indivíduos com características vantajosas para aquele meio sobrevivem e transmitem seus genes para a próxima geração, dando origem a uma nova espécie, a longo prazo.

A parte surpreendente é que esse “a longo prazo” resultou bem mais rápido do que o esperado no caso do novo pássaro: apenas duas gerações. Em 1981, os pesquisadores perceberam que um macho de uma espécie que não era nativa chegou à ilha e acasalou com uma fêmea de tentilhão de Darwin, gerando uma nova linhagem fértil.

A ave que resultou desse cruzamento apresentou características físicas e comportamentais suficientemente diferentes para configurar uma nova espécie, que foi batizada pelos cientistas de Big Bird lineage (algo como “linhagem do pássaro grande”, em português). Ainda assim, análises genéticas a partir de amostras de sangue coletadas ao longo dos anos confirmou a descoberta. Atualmente, a nova espécie conta com uma população de 30 indivíduos.

Os pesquisadores também descobriram que o pai que deu origem ao novo pássaro era um grande tentilhão da espécie Geospiza conirostris, nativa da Ilha de Española, localizada também em Galápagos, mas a 100 quilômetros de Daphne Major. Isso significa que o passarinho, por não conseguir voltar para casa, teve de acasalar com fêmeas de uma das três espécies que já existiam na ilha. Este isolamento geográfico é considerado um passo crítico no desenvolvimento de uma nova espécie, pois provoca, também, um isolamento reprodutivo que leva à troca de genes entre dois tipos diferentes de animais.

“Um naturalista que viesse a Daphne Major sem saber que esta linhagem surgiu muito recentemente teria reconhecido esses animais como uma das quatro espécies da ilha. Isso demonstra claramente o valor dos estudos de campo de longa duração”, concluiu Leif Andersson, da Universidade de Uppsala, que também participou do estudo.

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