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Vacina da Pfizer é eficaz contra variantes britânica e sul-africana, mostra estudo

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Estudo da Universidade do Texas mostra que a vacina desenvolvida pela Pfizer/BionTech contra a covid-19 é eficiente no combate às formas que surgiram, no Reino Unido, e também, embora em menor grau, na cepa de origem sul-africana

(crédito: AFP / JACK GUEZ)

A vacina contra a covid-19 desenvolvida pela empresa americana Pfizer, em parceria com o grupo farmacêutico alemão BionTech, mostrou-se eficaz para três variantes do vírus. Os pesquisadores observaram que a resposta dos anticorpos de pacientes que receberam o imunizante foi alta diante de duas novas formas do patógeno que surgiram no Reino Unido, porém um pouco mais baixa para a que tem origem na África do Sul. A constatação foi divulgada, ontem, na revista Nature Medicine.

Na véspera, outro estudo — ainda não revisado por especialistas — evidenciou, porém, que a vacina criada pela Universidade de Oxford e pelo laboratório AstraZeneca gera pouca defesa para casos leves e moderados da doença provocados pela variante sul-africana.

Os cientistas explicam que, para testar os efeitos dos fármacos nas novas formas do vírus Sars-CoV-2, é necessário identificar quais são as alterações genéticas de cada cepa. Nas análises feitas até agora na vacina da Pfizer, os pesquisadores encontraram duas mutações importantes: a primeira chamada de N501Y, presente nas três variantes escolhidas para o estudo, e a outra nomeada de E484K, vista apenas na sul-africana.

“Essas duas falhas de DNA estão localizadas na proteína principal do patógeno, e podem potencializar a capacidade de conexão com os receptores ACE2 do corpo, que ajudam o agente infeccioso a se espalhar”, explicaram os autores do trabalho, liderado por Pei-Yong Shi, pesquisador da Universidade do Texas, nos Estados Unidos.

No experimento, a equipe liderada por Pei-Yong Shi projetou combinações das duas mutações e testou o material com soros (sanguíneos) de 20 participantes que receberam a vacina BNT162b, desenvolvida pela Pfizer/BionTech. “Todos os analisados haviam participado do ensaio clínico publicado anteriormente e que testou a eficácia do imunizante. Eles receberam duas doses com um intervalo de três semanas entre elas, e portanto já tinham produzido anticorpos contra a doença”, detalhou o artigo da Nature Medicine.

Nas análises, os investigadores observaram que o vírus foi neutralizado nas três variantes testadas — porém, a resposta imune foi menor contra a mutação E484K. “São dados importantes, pois nos mostram que essa variante sul-africana precisa receber mais atenção dos especialistas devido a sua maior resistência”, frisaram os cientistas.

Os autores do trabalho defendem que a evolução contínua do agente da covid-19 exige um monitoramento constante da eficácia da vacina para novas cepas. “Entender se os imunizantes atualmente desenvolvidos para Sars-CoV-2 também fornecem proteção contra essas mutações é uma prioridade urgente”, frisaram no artigo.

Revisão

No último domingo, um estudo feito por cientistas da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, mostrou que a vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford, em parceria com a AstraZeneca, gerou uma baixa proteção (22%) contra a infecção leve e moderada do novo coronavírus provocada pela variante descoberta no país. No trabalho, os pesquisadores avaliaram cerca de dois mil voluntários com média de 31 anos.

A equipe de Witwatersrand informou que o trabalho ainda será revisado e que não avaliou o efeito do imunizante em relação a casos mais severos da enfermidade. A AstraZeneca garantiu que sua vacina “pode proteger contra mortes, hospitalizações e as formas mais graves da doença”, em declaração de um porta-voz do laboratório britânico à agência de notícias France-Presse (AFP).

No mesmo dia em que o estudo foi divulgado, o ministro da Saúde Zewli Mkhize informou que o país iria suspender o uso da vacina Oxford/AstraZeneca de seu programa de imunizações. Ontem, após a repercussão da notícia, o co-presidente do Comitê Consultivo Ministerial da África do Sul, Salim Abdool Karim, declarou que o país aplicará o imunizante de maneira gradual, para avaliar sua eficácia sobre a variante sul-africana.

Karim também disse que o plano é oferecer a fórmula protetiva a 100 mil pessoas e monitorar as taxas de hospitalização. “Não queremos vacinar com um imunizante que não seja eficaz para casos graves. Seremos prudentes, faremos a avaliação primária e depois vamos distribuir”, afirmou, em um comunicado à imprensa.

Para Ana Karolina Barreto Marinho, especialista da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI), testes com as vacinas contra a covid precisam ser feitos constantemente para ajudar no controle da pandemia. “Esse monitoramento das mutações e a resposta dos imunizantes a elas é essencial. Só com esse tipo de trabalho poderemos realizar alterações nas fórmulas e assim manter uma proteção alta”, opinou.

De acordo com a especialista, é importante ter a compreensão de que mesmo reações imunes mais baixas não são tão preocupantes. “Passa longe de ser algo desanimador, pois uma pequena proteção ainda é melhor que nenhuma, e pode evitar que complicações bem mais graves surjam”, ressaltou. “Outro ponto que precisamos ter em mente é que temos várias vacinas sendo feitas, então, as chances de outras fórmulas preencherem essas lacunas são bem altas”, complementou.

OMS critica pessimismo

Diante das reações de diversos países — principalmente, europeus — à falta de dados sobre a eficácia da vacina da Universidade de Oxford em pessoas com idade mais avançada, a Organização Mundial de Saúde (OMS) pediu calma e declarou que, ainda, é necessário avaliar melhor os dados científicos relacionados ao efeito do imunizante em idosos. Vários funcionários da agência da ONU e do sistema Covax alertaram contra um excesso de pessimismo em relação ao imunizante, principalmente no que diz respeito a salvar vidas e limitar hospitalizações.

“É muito cedo para rejeitar essa vacina, uma parte importante da resposta global à atual pandemia”, assinalou Richard Hatchett, um dos responsáveis pelo mecanismo Covax para garantir uma distribuição justa da vacina contra a covid. “É absolutamente crucial usar as ferramentas de que dispomos da forma mais eficaz possível”, acrescentou, em uma entrevista coletiva na sede da OMS, em Genebra. As dúvidas sobre a eficácia do fármaco da AstraZeneca em pessoas com mais de 65 anos se multiplicaram nas últimas semanas.

Michael Ryan, responsável por questões emergenciais de saúde da OMS, disse, por sua vez, que “a principal tarefa das vacinas”, hoje, é reduzir o número de hospitalizações e mortes. “E, atualmente, parece-me que os dados mostram que isso é o que todas as vacinas fazem”, afirmou Ryan, reconhecendo que será necessária “uma segunda e terceira geração de vacinas para fazer mais”.

A vacina da AstraZeneca, que ainda não obteve a homologação da OMS, representa a maioria das doses que serão distribuídas pelo sistema Covax aos países mais desfavorecidos. O fármaco foi aprovado para uso emergencial em pelo menos 50 países, incluindo o Brasil, mas nações como Espanha, Alemanha, França, Polônia, Áustria, Suécia e Itália decidiram não recomendar o uso do imunizante em pessoas com mais de 65 anos.

Ontem, Portugal se uniu a esse grupo. De acordo com um documento assinado pela diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, essa medida restritiva vigorará “até novos dados estarem disponíveis”.

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Ministério da Saúde autoriza recursos para 3,2 mil leitos de UTI

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Com hospitais superlotados, medida vai atender 150 municípios em 22 estados

Com hospitais superlotados, medida vai atender 150 municípios em 22 estados

Com hospitais superlotados em diversas regiões do país, o Ministério da Saúde autorizou nesta terça-feira (2) o financiamento de 3.201 leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) exclusivos para pacientes com covid-19. A medida consta em portaria publicada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU), assinada pelo ministro Eduardo Pazuello. A portaria lista cerca de 150 municípios espalhados em 22 estados. O valor a ser desembolsado pelo governo federal para custear as internações soma R$ 153,64 milhões, caso todos os municípios façam a solicitação à pasta.

Pela portaria, as solicitações de autorização de leitos, que terão caráter excepcional e temporário, devem ser encaminhadas por meio do Sistema de Apoio à Implementação de Políticas em Saúde (SAIPS), disponível no endereço eletrônico http://www.saips.saude.gov.br. Entre outros documentos, os municípios atendidos devem assegurar a existência de um respirador por leito, equipamentos e recursos humanos necessários para as internações.

Até dezembro, o Ministério da Saúde financiava cerca de 60% dos leitos de UTI em todo o país, mas esse número caiu para cerca de 15% este ano, por causa do fim da vigência do estado de calamidade pública, que permitia a transferência de recursos ao estados além do orçamento regular.

A portaria prevê repasses retroativos à manutenção de leitos de UTI referentes a janeiro e fevereiro, como forma de ressarcir os estados que, nesses dois meses, tiveram de utilizar exclusivamente recursos próprios para abrir novos leitos de UTI.

Em relação a janeiro, a portaria autorizou o financiamento de 1.135 leitos em cidades de 16 estados com pagamento retroativo de R$ 54,48 milhões por mês. Já em relação a fevereiro, foi autorizado o financiamento de 2.025 leitos adultos e 41 leitos pediátricos em cidades de 22 estados, com custo total de R$ 99,16 milhões ao mês, totalizando os 3.201 leitos de que trata a portaria.

O número de óbitos por covid-19 bateu novo recorde hoje, de acordo com o balanço diário do Ministério da Saúde. Ao todo, 1.641 mortes foram notificadas desde ontem, o maior patamar desde o início da pandemia no país. O total de mortos pela doença no país está em 257.361 e o número total de infectados chega a 10,6 milhões de pessoas.

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Hidroxicloroquina não deve ser usada como prevenção contra a covid-19, indica OMS

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Estudos não mostraram efeitos significativos sobre mortes ou internações de covid-19 e apontaram riscos de efeitos adversos provocados pela substância

OMS: estudos mostram que a hidroxicloroquina não deve ser usada na prevenção da covid-19 (Brasil2/Getty Images)

Um painel de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou nesta segunda-feira, 1º, uma recomendação contrária ao uso da hidroxicloroquina como método de prevenção para a covid-19. Eles dizem que os estudos não mostraram efeitos significativos sobre mortes ou internações e apontaram riscos de efeitos adversos provocados pela substância. O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) defendeu o uso do remédio ao longo da pandemia, embora várias pesquisas tenham mostrado que ele não tem eficácia contra o vírus.

A nova recomendação é de autoria do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes (GDG, na sigla em inglês) da OMS. Os especialistas dizem que a “forte recomendação” é baseada em evidências de alta certeza obtidas em seis estudos randomizados e controlados com 6 mil participantes.

“A evidência de alta certeza mostrou que a hidroxicloroquina não teve efeito significativo em mortes e admissões em hospitais, enquanto evidência de certeza moderada mostrou que a hidroxicloroquina não teve efeito significativo sobre infecções confirmadas em laboratório e provavelmente aumenta o risco de efeitos adversos”, declarou a OMS em nota à imprensa.

O grupo, diz a organização, considera que a droga não tem mais prioridade para pesquisa e que os recursos devem ser usados para avaliar outras drogas mais promissoras na prevenção contra o vírus. “Essa diretriz se aplica a todos que não têm covid-19, independentemente da exposição a uma pessoa com a infecção”, reforçou.

A recomendação desta segunda é a primeira versão de uma diretriz voltada a medicamentos capazes de prevenir a doença. O objetivo da OMS é promover orientação confiável sobre a gestão da covid e ajudar médicos a tomarem melhores decisões para seus pacientes. A diretriz poderá ser atualizada diante de evidências. Novas recomendações serão acrescentadas no momento em que estudos de relevância se tornarem disponíveis.

A cloroquina e a hidroxicloroquina integram orientação oficial emitida pelo Ministério da Saúde no ano passado, com recomendação voltada a casos leves, moderados e graves. Neste ano, um aplicativo da pasta chegou a sugerir os remédios até a bebês, e foi retirado do ar. O Estadão mostrou que as prefeituras que receberam a doação do ministério agora querem devolver os medicamentos sem eficácia.

 

 

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Vacina da Pfizer pode ser menos eficaz em pessoas obesas, sugere estudo

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Outras pesquisas sugerem que a obesidade aumenta o risco de morrer de covid-19 em quase 50% e o risco de ir para o hospital em 113%

Obesidade: pessoas com IMC acima de 30 correm maior risco de contaminação e até reinfecção (South_agency/Getty Images)

Pesquisadores do Instituto de Fisioterapeutas Ocupacionais, na Itália, desenvolveram um estudo, ainda não revisado por pares, que indica que pessoas obesas podem precisar de mais de duas doses da vacina contra o coronavírus da Pfizer com a BioNTech para conseguir todos os anticorpos.

Eles analisaram 248 profissionais que tomaram a vacina da Pfizer e viram que, sete dias após a segunda dose, 99,5% desenvolveram anticorpos. O número foi, inclusive, mais alto do que é visto em pessoas que se recuperaram da covid-19 e não tomaram vacina.

Para pessoas obesas, porém, a resposta foi outra: a equipe descobriu que profissionais de saúde com obesidade produziram por volta de metade dos anticorpos previstos na segunda dose em comparação com pessoas consideradas magras, de acordo com o índice de massa corporal (IMC).

Outras pesquisas feitas previamente sugerem que a obesidade (IMC acima de 30) aumenta o risco de morrer de covid-19 em quase 50% e o risco de ir para o hospital em 113%. Tais números se dão por conta das outras condições médicas que pessoas obesas tendem a ter, como doenças cardíacas ou diabete tipo 2, que as tornam vulneráveis ao coronavírus.

O excesso de gordura corporal também leva a resistência à insulina e inflamações, o que dificulta o combate do corpo contra infecções. A inflamação constante enfraquece respostas imunológicas como as lançadas pelas células B e T, responsáveis pela ação protetora após a vacinação.

Um segundo artigo foi realizado pelos pesquisadores italianos, desta vez com foco em profissionais de saúde brasileiros, e mostrou que a reinfecção também é mais comum entre pessoas com IMC alto. Já em análises sobre a vacina contra a gripe, não realizados pela equipe, o resultado é semelhante ao novo estudo: apenas metade da eficácia em pessoas obesas em comparação com magros.

“Visto que a obesidade é um importante fator de risco para morbidade e mortalidade para pacientes com covid-19, é obrigatório planejar um programa de vacinação eficiente neste subgrupo”, escreveram os autores do estudo. “Embora mais estudos sejam necessários, esses dados podem ter implicações importantes para o desenvolvimento de estratégias de vacinação particularmente em pessoas obesas. Se nossos dados fossem confirmados por estudos maiores, dar aos obesos uma dose extra da vacina ou uma dose mais alta poderia ser uma opção a ser avaliada nessa população”.

Para Danny Altmann, professor de imunologia do Imperial College London, o artigo é interessante, mas utiliza um conjunto de dados preliminares bastante pequeno. “Isso confirma que ter uma população vacinada não é sinônimo de ter uma população imune, especialmente em um país com alta obesidade, e enfatiza a necessidade vital de programas de monitoramento imunológico de longo prazo”, comenta.

 

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Um ano de coronavírus no Brasil: os bastidores da descoberta do primeiro caso oficial

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Por mais que o primeiro caso tenha sido detectado no Brasil no dia 26 de fevereiro de 2020, hoje sabe-se que o coronavírus já circulava por aqui muito antes disso

 

O infectologista Fernando Gatti estava descansando em casa quando seu celular tocou por volta das 20h do dia 24 de fevereiro de 2020, uma Segunda-Feira de Carnaval.

Do outro lado da linha, um médico que trabalhava no plantão do pronto-socorro do Hospital Israelita Albert Einsten, na zona sul de São Paulo, tinha uma pergunta importante: ele deveria ou não pedir um teste de covid-19 para um paciente que apresentava sintomas de gripe e tinha acabado de voltar de uma viagem à Itália?

Gatti, que é coordenador médico do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Einstein, não teve dúvidas, e orientou seu colega a realizar o exame.

Em poucas horas, já no dia 25, o laudo deu a notícia que todo o Brasil sabia que viria, mais cedo ou mais tarde: o primeiro caso de covid-19 havia sido oficialmente detectado no país.

Mas antes de entrar nos detalhes desta história, é preciso retroceder algumas semanas para entender qual era o clima e o contexto no Brasil e no mundo.

Casa arrumada para o caos

As primeiras notícias sobre uma “pneumonia misteriosa” que estava afetando algumas partes da China começaram a surgir na mídia internacional no final de dezembro de 2019.

A informação de que a doença era causada por um novo tipo de coronavírus foi transmitida por cientistas chineses e divulgada a partir do dia 8 de janeiro de 2020.

Rapidamente, a cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, foi identificada como epicentro da crise sanitária e teve seus aeroportos, portos, ferrovias e rodovias bloqueadas, numa tentativa de conter a disseminação do agente infeccioso.

Mas já era tarde demais: logo apareceram casos em outras partes da China e o agente infeccioso foi identificado em países próximos, como Japão e Tailândia.

Wuhan

Getty Images Primeiro caso de uma ‘pneumonia por causa desconhecida’ foi registrado em Wuhan no início de dezembro de 2019

Os episódios de covid-19 se espalharam rapidamente para outros continentes e foram detectados na Europa e na América do Norte.

Portanto, havia a certeza quase absoluta que o vírus chegaria em algum momento ao Brasil ainda no primeiro trimestre de 2020.

“E nós sabemos que o público que utiliza os serviços do Einstein e de outros hospitais particulares costuma fazer muitas viagens internacionais, então já imaginávamos que o primeiro caso poderia ser diagnosticado aqui”, aponta Gatti.

Foi justamente pensando nessa possibilidade que o infectologista liderou uma verdadeira força-tarefa para organizar a instituição para o que viria pela frente.

“Desde o início de janeiro de 2020 nós fizemos treinamentos para deixar toda a equipe preparada e reforçamos os estoques de equipamentos de proteção, como as máscaras, os aventais, as luvas, os óculos e o face shield”, lembra.

Segundo Gatti, outra decisão importante foi a de ampliar a suspeita de covid-19 para todos aqueles que tivessem feito viagens internacionais e apresentassem sinais sugestivos de uma infecção respiratória.

“Naquele momento, a Organização Mundial da Saúde só preconizava a realização de exames para aqueles indivíduos com sintomas que tinham retornado da Ásia”, diz.

A orientação para todos os médicos que faziam plantões no Einstein era uma só: ligar para o Serviço de Controle de Infecção Hospitalar caso tivessem qualquer dúvida sobre a necessidade de fazer o teste para detectar o novo coronavírus nos pacientes que ingressavam pelo pronto-socorro da instituição.

O primeiro de 10 milhões

E esse protocolo foi seguido à risca naquela noite de 24 de fevereiro.

Poucas horas depois, já na madrugada do dia 25/02, Gatti recebeu uma nova ligação em seu telefone: o Laboratório de Biologia Molecular do Einstein havia concluído a análise da amostra de material colhida do paciente e tinha encontrado o novo coronavírus ali.

Entre janeiro e fevereiro, os cientistas da instituição haviam examinado cerca de 20 a 30 casos suspeitos por semana, mas todos voltavam com resultados negativos.

A virologista Rúbia Anita Santana, coordenadora do Setor de Biologia Molecular do Einstein, se recorda da dificuldade em encontrar materiais e insumos num momento em que as informações sobre o novo coronavírus estavam absolutamente desencontradas.

“Não existia no mercado nenhum kit de detecção pronto. Nós tivemos que desenvolver um novo produto do zero, para estarmos preparados quando a doença chegasse no Brasil”, conta.

Santana mal sabia que, passados alguns meses dessas primeiras experiências, ela e sua equipe precisariam fazer até 80 mil testes de covid-19 ao mês. “Reestruturamos completamente nosso espaço e nosso fluxo de trabalho. Foi muito desafiador”, destaca.

Ao receber a informação do laudo positivo, Santana, Gatti e a equipe do laboratório repetiram o exame novamente, para ter certeza de que não havia acontecido algum percalço no procedimento ou algum problema nos equipamentos do laboratório.

“Esse segundo teste foi processado durante a madrugada e, na manhã do dia 25, eu já estava no hospital quando ficamos sabendo que o resultado era mesmo positivo”, diz o infectologista.

Após a confirmação, o imunologista Luiz Vicente Rizzo, diretor do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, ficou responsável por levar a notícia ao alto comando do hospital.

“O protocolo já estava pronto e, quando o resultado saiu, as lideranças foram notificadas para seguir com o plano de divulgação”, descreve.

Antes de comunicar a imprensa e a sociedade, porém, as amostras do paciente foram enviadas para o Instituto Adolfo Lutz, que é o laboratório referência para a análise de doenças infecciosas no Estado de São Paulo.

Uma terceira rodada de testes, que se alongou pela tarde e pela noite da terça-feira (25/02), confirmou mais uma vez que se tratava mesmo do primeiro caso de covid-19 no Brasil.

O anúncio oficial foi feito no dia seguinte, na manhã da quarta-feira de cinzas, 26 de fevereiro, por Luiz Henrique Mandetta, o então ministro da Saúde.

“Agora, com o primeiro caso confirmado no Brasil, vamos ver como o vírus vai se comportar em um país tropical em pleno verão. É um vírus novo, que pode ou não manter o mesmo padrão de comportamento de transmissão que tem no hemisfério norte, com o frio”, discursou Mandetta naquele dia.

No mesmo evento, o então ministro da Saúde também descartou a possibilidade de fechar as fronteiras ou fazer testagem em aeroportos. “[Isso] não tem eficácia nenhuma, porque os pacientes podem ter o vírus sem apresentar sintomas. Essa é mais uma doença que a humanidade vai ter que enfrentar.”

Vale dizer, no entanto, que o caso identificado no Einstein, como descrito acima, foi o primeiro detectado de forma oficial.

Estudos posteriores divulgados a partir de maio de 2020 mostraram que o vírus já circulava pelo país muito antes dessa data — e se aproveitou das aglomerações e da falta de medidas de restrição para criar cadeias de transmissão Brasil adentro.

Evoluções e recaídas

À época, o primeiro diagnosticado com covid-19 no Brasil estava com 61 anos, morava em São Paulo e havia retornado de uma viagem pela Itália, onde permanecera entre os dias 9 e 21 de fevereiro.

A situação da Itália, mais especificamente na região da Lombardia, foi bastante dramática nos primeiros meses da pandemia. Cenas de caminhões militares transportando caixões pelas ruas da comuna de Bergamo foram um dos símbolos mais fortes da crise de saúde pública que abateu a Europa naquele momento.

Com incômodos como tosse, febre, dor de garganta e coriza, o paciente foi avaliado pelos médicos do Einstein e, como não apresentava sinais de complicação, acabou liberado para seguir o tratamento em casa, com orientações de quarentena bastante restritas.

Seu estado clínico era checado várias vezes ao dia por meio de conversas telefônicas e mensagens de WhatsApp.

“Uma semana depois, ele precisou ser internado porque a febre persistia. Durante a hospitalização, nós encontramos uma pneumonia bacteriana, que costuma ser um quadro associado a covid-19 em cerca de um terço dos casos”, estima Gatti.

Caminhões do exército italiano em comboio pelas ruas de Bergamo, na Itália

Getty Images Em Bergamo, na Itália, caminhões do exército foram recrutados para recolher os caixões dos mortos pela covid-19 e levá-los até os cemitérios e crematórios de cidades próximas

Após o tratamento adequado, a infecção nos pulmões acabou controlada e logo a alta hospitalar foi dada.

Gatti lembra que o paciente se mostrou bastante incomodado com a cobertura jornalística de sua condição de saúde. Ele sentia que as reportagens o apontavam como culpado por trazer a covid-19 ao Brasil — e hoje em dia não há dúvidas que o coronavírus já circulava por aqui antes de 26/02 e teve múltiplas entradas no país, com vários passageiros que retornaram já infectados de viagens internacionais.

O outro lado do consultório

Mas as complicações após o primeiro diagnóstico não se limitaram ao paciente. O médico também acabou sentindo abalos na própria saúde.

“Em março, eu tive um episódio de burnout e precisei tirar uma licença do trabalho durante dez dias”, revela Gatti.

Burnout é uma enfermidade psiquiátrica marcada pelo completo esgotamento físico e emocional que impede a pessoa de trabalhar ou fazer qualquer atividade.

O infectologista diz que parte de sua condição se deveu à frustração de lidar com uma doença nova, em que não havia conhecimento suficiente para oferecer o melhor tratamento a quem precisa de ajuda.

“Nós perdemos muitas vidas e é muito difícil comunicar a família. Depois de cada dia, sempre ficava pensando o que podia ter feito de diferente, de melhor, e não encontrava respostas”, comenta.

A crise só foi superada graças ao apoio psiquiátrico. “Nós precisamos falar mais sobre o esgotamento e a sobrecarga de trabalho que afetam todos os profissionais de saúde que estão na linha de frente da pandemia”, alerta Gatti.

Um ano depois, as lições

Passados 12 meses do primeiro diagnóstico oficial, o Brasil contabiliza mais de 10,2 milhões de casos e quase 250 mil mortes pela covid-19.

Até o momento, o Brasil é o país com o segundo número mais alto de óbitos de todo o mundo e o terceiro na quantidade de infectados em números absolutos.

Mas o que será que um ano de pandemia nos deixou de ensinamento? A BBC News Brasil fez essa pergunta para os três profissionais que estiveram envolvidos com o episódio dos dias 24, 25 e 26 de fevereiro de 2020.

Para Rizzo, a covid-19 escancarou a necessidade de investimentos na ciência colaborativa dentro do Brasil e no mundo.

“Enquanto cientistas, precisamos estar mais abertos para trabalhar em conjunto e entender que é impossível viver sem pesquisa. Se nós tivéssemos mantido os estudos sobre o Sars-CoV, o vírus causador da Síndrome Aguda Respiratória Grave (Sars) de 2003, talvez hoje entendêssemos um pouco melhor o coronavírus atual e já tivéssemos tratamentos para ele”, analisa.

O especialista destaca a façanha do desenvolvimento de uma vacina em menos de um ano e do esforço para estudar e conhecer os possíveis efeitos de diversos medicamentos contra a covid-19.

Santana sublinha a necessidade de lidar com o imprevisível e, de certa maneira, estar preparado para isso.

“O coronavírus fez a gente voltar ao jardim de infância da virologia e reaprender muito do que sabíamos sobre doenças infecciosas. Ele tem características únicas, muito diferentes daquilo que já tínhamos visto”, raciocina.

Por fim, Gatti entende que a comunicação e o trabalho em equipe foram decisivos para salvar muitas vidas.

“A pandemia deixou ainda mais nítida a noção de que a saúde não depende só do médico. A equipe multidisciplinar composta de enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas, nutricionistas e os demais profissionais é decisiva para a melhora do paciente”, defende o infectologista.

No cenário em que a vacinação contra a covid-19 está disponível e sinaliza que a pandemia acabará (num futuro ainda distante), os exemplos do passado recente nos permitem lembrar o início de um ano que mudou o Brasil e o mundo para sempre.

 

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Com decisão do STF, estados começam movimentação para comprar vacinas

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Os governos de São Paulo, do Pará e de Goiás confirmam que iniciaram negociações para adquirir imunizantes, além dos incorporados ao Programa Nacional de Imunização (PNI)

(crédito: THOMAS KIENZLE / AFP)

Após o Supremo Tribunal Federal (STF) autorizar, por maioria, a aquisição de vacinas contra a covid-19 por parte dos estados e municípios quando a oferta do governo federal for insuficiente, os entes federativos começam a movimentar compras cujas tratativas estavam em andamento. Enquanto a Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) anunciou a criação de um consórcio para garantir doses extras aos municípios, os governos de São Paulo, do Pará e de Goiás, por exemplo, confirmam a contribuição para adquirir imunizantes além dos incorporados ao Programa Nacional de Imunização (PNI).

Em comunicado, o governador do Pará, Helder Barbalho, anunciou a importação de 3 milhões de doses de vacinas de laboratórios que tenham aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). “Estamos acompanhando o plano nacional e, lamentavelmente, a oferta de vacina ainda é muito pequena, o que impede que possamos avançar rapidamente”. O objetivo, segundo o governo, é vacinar o maior número possível de pessoas nos 144 municípios paraenses.

O governador do Goiás, Ronaldo Caiado, também informou pelas redes sociais que já busca negociar com laboratórios para imunizar a população goiana. “Vacina já e para todos sempre foi o meu objetivo frente a essa pandemia. E agora que o STF autorizou, já estou em negociação com laboratórios para que em breve possamos ter o todo povo goiano imunizado e protegido da covid-19”, disse.

O governo do estado de São Paulo havia informado anteriormente a decisão do Supremo que busca fechar um contrato com a Sinovac, empresa desenvolvedora da vacina CoronaVac, para a aquisição de mais 20 milhões de doses para imunizar a população paulista.

“O governo do estado de São Paulo tomou a decisão de adquirir sob sua responsabilidade, sob seu custo, mais 20 milhões de doses da vacina”, disse o governador paulista, João Doria, em coletiva em 5 de fevereiro.

Prefeitos também vão atrás de vacinas

Nessa terça-feira (23), diante da decisão do STF, a Frente Nacional dos Prefeitos (FNP) anunciou a criação de um consórcio para organizar as aquisições de novas vacinas contra covid-19, de forma a complementar a oferta do Programa Nacional de Imunização (PNI), caso ela seja insuficiente para atender à demanda.

O objetivo, segundo a frente, é buscar alternativas que não estão sendo adquiridas pelo governo federal. Pelas redes sociais, a FNP declarou: “Diante da decisão do STF, vamos liderar a constituição de um consórcio público com finalidade específica para aquisição de vacinas contra a covid-19”. Os detalhes de como funcionará esta articulação serão anunciados nos próximos dias.

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“Temos sido muito duros, e eles têm sido mais”, diz Pazuello sobre Pfizer

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Segundo o ministro da Saúde, a pressão por parte do governo para que a farmacêutica afrouxe as cláusulas não tem surtido resultado. Por isso, a pasta aguarda lei para flexibilizar responsabilidade do governo em relação a eventuais efeitos colaterais

(crédito: AFP / JACK GUEZ)

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, afirmou, nesta quarta-feira (24/2), que aguarda a flexibilização de leis para poder comprar a vacina contra a covid-19 produzida pela Pfizer/BioNTech, que teve o registro definitivo aprovado no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) na última terça-feira (23). O Ministério da Saúde questiona cláusulas, como isenção de responsabilidade sobre efeitos colaterais por parte da farmacêutica, e por isso diz que ainda não foi possível adquirir o imunizante.

Nós estamos negociando com os laboratórios, basicamente os americanos, com a Pfizer e Janssen, já há seis meses, e essas negociações implicam em discussões das cláusulas exigidas. Nós temos sido muito duros e eles têm sido mais duros do que a gente. Eles não afrouxam uma vírgula. Nós levamos o problema ao governo e o governo está tratando isso junto ao Congresso, e está se discutindo a possibilidade de termos flexibilização de lei para isso”, informou o general, durante coletiva de imprensa realizada durante visita do gestor ao Acre.

As informações foram ditas pelo ministro em visita ao Acre ao lado de outros ministros e do presidente da República, Jair Bolsonaro, que complementou reforçando a cláusula do contrato com a Pfizer que a isenta de responsabilização.

“Uma coisa de extrema responsabilidade quem por ventura no Brasil tiver que dar a palavra final. Se sou eu como presidente, se é parlamento derrubando possível veto ou se é o Supremo Tribunal Federal(STF). Agora, todas as cláusulas serão mostradas à população para que, na ponta da linha, cada um saiba o que está sendo aplicado”, afirmou Bolsonaro.

Questões legislativas brasileiras

Segundo a Pfizer, as cláusulas apresentadas ao governo brasileiro “estão em linha com os acordos fechados em outros países do mundo, inclusive na América Latina”. O imunizante da farmacêutica já é aplicado em diversos países, como Estados Unidos, Canadá, Israel e Chile. A farmacêutica atribui o impasse a questões legislativas brasileiras. Em comunicado, a Pfizer admite que, ao longo das negociações, “ficou claro que é necessária uma adequação legislativa para que o país tenha, assim como outros países, um amplo acesso às vacinas”.

Pazuello afirmou que “se vier uma autorização clara”, que flexibilize as cláusulas, irá comprar os imunizantes da Pfizer e da Janssen. No âmbito do Congresso Nacional, parlamentares têm atuado para que o Brasil passe a aplicar a vacina da Pfizer, buscando soluções em relação às cláusulas. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), apresentou um projeto de lei na última terça-feira (23) que permite que a União assuma os riscos, com a intenção de solucionar os entraves relativos à cláusula que não está sendo aceita pelo Palácio do Planalto.

A proposta abre margens para que o poder público assuma riscos de ser responsabilizado por eventuais efeitos negativos provocados por vacinas contra a covid-19. A medida valeria enquanto durar a emergência em saúde pública nacional em razão da pandemia e só serviria de subsídio para iniciativas que receberem o aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como é o caso da Pfizer, primeira farmacêutica a ter o registro definitivo de uma vacina contra a covid-19 no Brasil.

 

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quarta-feira, 3 de março de 2021

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