O Banco Master comprou um precatório relacionado a uma usina do Grupo João Santos, que estava passando por recuperação judicial, através de uma negociação falsa. Esse ativo foi registrado no balanço do banco enquanto ele atuava no mercado financeiro. O dinheiro obtido com essa venda foi transferido para o exterior por antigos donos do grupo, em transações suspeitas, conforme documentos revelados.
Fernando Santos, ex-proprietário do grupo, afirmou que a venda seguiu os padrões do mercado, considerando a situação do processo na época. A atual administração disse que a decisão foi tomada isoladamente pela antiga diretoria e causou um prejuízo de cerca de R$ 1,8 bilhão. O proprietário do Master, Daniel Vorcaro, não comentou o assunto.
O precatório é um direito de crédito — um valor que a empresa tem a receber do governo, ainda pendente na justiça. O Banco Master adquiriu esse crédito assinando Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) que prometiam retornos muito acima do comum. Em novembro do ano passado, o banco foi fechado pelo Banco Central depois de serem descobertas fraudes em negociações com o Banco de Brasília. Vorcaro chegou a ser preso, e o caso está no Supremo Tribunal Federal.
Origem do precatório
O precatório bilionário vem de uma condenação da União para indenizar usinas do setor de açúcar e álcool que tiveram prejuízos na definição de preços entre 1989 e 1994. Essa condenação foi confirmada em 2012, mas o processo ainda está em disputa.
Uma das usinas beneficiadas foi a Companhia Agro Industrial de Goiana (Caig), dona da Usina Santa Tereza, parte do Grupo João Santos, que entrou em recuperação judicial com várias outras empresas do grupo.
A União foi condenada a pagar quase R$ 1 bilhão para a usina, com parte desse valor já definida e o restante em disputa. Devido a atualizações, o valor total chegou a aproximadamente R$ 2,2 bilhões.
Fernando Santos negociou a venda desse precatório para o banco Master, que estava então chamado Banco Máxima. A venda foi feita em várias parcelas entre 2019 e 2020, por meio de fundos de investimento ligados ao banco, como Amazonita, Luna, Noruega, Atenas, Dublin e Horizon.
Em alguns desses fundos, o Master era o principal investidor, e o crédito acabou sendo transferido para o banco ou fundos relacionados. A suspeita é que esses fundos foram usados para operações financeiras do Master.
O grupo vendedor recebeu R$ 180 milhões, muito abaixo do valor real do precatório, que era cerca de R$ 1 bilhão. Posteriormente, os fundos venderam os créditos para o banco de Vorcaro, segundo documentos judiciais.
Dinheiro enviado para a Suíça
Relatórios enviados à Polícia Federal indicam que R$ 32 milhões desse dinheiro foram enviados para três empresas na Suíça entre 2019 e 2022. Essas contas eram mantidas no próprio Master. Além disso, R$ 75 milhões foram transferidos para contas ligadas ao genro de Fernando Santos e a empresas da família.
Essa movimentação ficou conhecida como Operação La La Land. As transferências foram justificadas como pagamentos da variação cambial de empréstimos em dólar, mas as empresas tiveram fundos liberados logo após a criação, causando suspeitas de simulação para enviar dinheiro para o exterior.
Fernando Santos, seu genro e outras pessoas ligadas foram investigados por suspeitas de lavagem de dinheiro e organização criminosa, incluindo o envio ilegal de recursos para fora do país. Os documentos indicam que o dinheiro da venda do precatório estava envolvido nesse esquema.
Decisões judiciais e situação atual
Em setembro de 2025, a Justiça Federal de Pernambuco considerou que houve fraude na venda do precatório para o Master e bloqueou o crédito, impedindo sua transferência. Essa decisão foi confirmada em novembro pelo Tribunal Regional Federal da 5ª Região.
Segundo a Justiça, a empresa que vendeu o crédito tinha dívidas com a União e deveria ter usado o dinheiro para pagar essas dívidas, não para vender o precatório.
A Procuradoria-Geral da Fazenda da União concordou que houve fraude, pois o ativo foi transferido mesmo com dívidas fiscais em aberto, numa tentativa de evitar o pagamento desses débitos.
Atualmente, o precatório está em um “limbo jurídico”. A atual diretoria do Grupo João Santos pediu a anulação da venda, alegando que o ativo foi vendido por um preço muito baixo, prejudicando o patrimônio da empresa que precisa pagar suas dívidas com o governo federal, que somam cerca de R$ 10 bilhões. Em 2023, o grupo chegou a um acordo para pagar R$ 4 bilhões desse total.
O Master defende que a compra foi feita de forma legal e seguindo os padrões do mercado, considerando que a maior parte do valor do crédito está judicialmente questionada e de difícil recebimento.
O Banco Master alega ainda que a Justiça de Pernambuco não tem autoridade para decidir sobre o caso, pois o processo ocorre no Distrito Federal. A Justiça do Distrito Federal confirmou que ainda não há uma decisão definitiva.
Tentativas de revenda e impacto
Vorcaro tentou vender o precatório para outros bancos, incluindo o BTG Pactual, mas a Justiça impediu qualquer transferência. O Master foi fechado pelo Banco Central em novembro, após fraudes encontradas em negociações, e o precatório poderia ser usado para pagar credores do banco na liquidação.
Especialistas financeiros afirmam que o precatório é um dos ativos mais valiosos do Master, não um crédito sem valor, e tem potencial para gerar ganhos significativos, mesmo que demore para ser pago.
Um laudo da Justiça já confirmou que a União deve essa indenização para as usinas. Em dezembro do ano passado, a Justiça Federal do Distrito Federal reforçou a condenação da União, embora ainda existam recursos pendentes.
Posição dos envolvidos
Fernando Santos declarou que vendeu o precatório para obter recursos durante a pandemia, embora a transferência tenha começado antes da crise sanitária. Ele afirma que o negócio foi feito dentro dos parâmetros de mercado e que todos os valores foram recebidos em contas do grupo, com parte do dinheiro usada para pagar acordos trabalhistas.
O advogado da atual administração do Grupo João Santos afirmou que a venda foi feita de forma isolada pela antiga diretoria sem aprovação dos demais membros da família e que causou um prejuízo de R$ 1,8 bilhão. A atual direção está tomando medidas judiciais para recuperar o ativo.
O grupo acredita que a operação com o Master foi simulada e configurou fraude contra o Fisco, e pediu a anulação da venda por causa do prejuízo causado ao grupo e seus credores.

