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Últimos mamutes da Terra morreram de sede

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Segundo estudo, os efeitos das mudanças climáticas levaram ao desaparecimento de fontes de água doce, há 5.600 anos, deixando os animais sem ter o que beber

Os mamutes-lanosos da Ilha Saint Paul, no Alasca, foram os últimos a entrar em extinção (VEJA.com/Reprodução)

Os mamutes-lanosos da Ilha Saint Paul, no Alasca, foram os últimos a entrar em extinção (VEJA.com/Reprodução)

Um time internacional de cientistas descobriu que a última espécie de mamutes que pisou na Terra entrou em extinção por falta d’água. Segundo estudo publicado na última segunda-feira na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), os mamutes-lanosos morreram há 5.600 anos, na Ilha Saint Paul, no Alasca, porque as mudanças climáticas causaram o aumento do nível dos oceanos – a água salgada invadiu a ilha e também as fontes de água doce, deixando os animais sem ter o que beber. De acordo com os pesquisadores, o exemplo do passado pode ser um aviso para as consequências das atuais alterações do clima.

“Hoje, vemos os efeitos da elevação do nível dos oceanos no Sul do Pacífico. Há ilhas onde as pessoas têm dificuldades para encontrar água doce. O mesmo pode ser dito da Flórida. Se o nível dos oceanos continuar a crescer, isso irá piorar e, realmente, limitar a disponibilidade de água doce”, afirma Russell Graham, um dos autores do estudo, em entrevista ao site americano The Atlantic.

A extinção dos mamutes

A equipe de cientistas, liderada por Graham, professor de geociências da Universidade Estadual da Pensilvânia, nos Estados Unidos, estudou vestígios de mamutes-lanosos recentemente descobertos na Ilha Saint Paul. O local fazia parte da Ponte Terrestre de Bering, um trajeto que conectava Rússia e Estados Unidos. Com o aumento do nível dos oceanos, essa ligação foi tomada pela água e se desconectou dos continentes, restando apenas um pequeno ponto de terra do tamanho de Paris sobre o mar. Os mamutes do Alasca ficaram presos nessa ilha e, enquanto os outros membros de seu grupo se extinguiam em todo o planeta, eles aguentaram 8.000 anos de isolamento antes de, finalmente, desaparecerem. O motivo, porém, era um mistério.

Com o objetivo de compreender o ambiente em que esses animais viviam e descobrir o porquê das mortes, os pesquisadores coletaram e dataram 14 fósseis dos mamutes e reuniram também amostras sedimentares de um lago na região central da ilha, chamado Lake Hill. Esses pedaços de solo permitem aos pesquisadores “voltar no tempo”, pois guardam rastros de DNA e outras substâncias que, dispostas em camadas, representam épocas distintas da ilha.

Nesses registros, os cientistas identificaram um tipo de fungo visto no excremento de animais grandes – provavelmente os mamutes. Assim, para chegar ao momento exato da extinção, além da análise dos fósseis, eles verificaram quando esses fungos sumiram. Os dois exames revelaram a data de 5.600 anos atrás.

Em seguida, os pesquisadores começaram a buscar os motivos do desaparecimento – e chegaram à falta de água doce. As amostras do solo sugeriram que as únicas fontes de água doce da ilha foram tomadas pela água salgada, consequência do aumento do nível dos oceanos causado pelas mudanças climáticas. Na Ilha Saint Paul, esse processo de salinização ocorreu entre 7.850 e 5.600 anos atrás, conforme mostraram os exames de isótopos químicos.

Além das condições climáticas, os especialistas apontam que os mamutes podem ter prejudicado sua espécie. Ao se aproximar das únicas fontes restantes de água potável eles acabaram destruindo a vegetação em volta dos lagos. A falta das plantas, que ajuda a reter água, contribuiu para que os lagos secassem.

“A limitação de água doce foi a causadora da extinção. Agora, alertamos para a vulnerabilidade das populações de pequenas ilhas em meio às mudanças climáticas atuais”, afirmam os cientistas no estudo.

 

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Ciência

Moderna chega a 30 mil voluntários para testes de vacina da covid-19

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De acordo com a companhia, 25.650 indivíduos já receberam as duas doses da proteção; resultados devem ser divulgados em novembro

Moderna: resultados da vacina devem ser divulgados no mês que vem (iStock/Getty Images)

A empresa de biotecnologia americana, Moderna, anunciou nesta quinta-feira (22), que alcançou o número desejado de 30 mil voluntários para a fase três de testes de sua vacina contra o novo coronavírus.

De acordo com a companhia, 25.650 indivíduos já receberam as duas doses da proteção e resultados sobre ela devem ser divulgados no final de novembro e uma aprovação para uso emergencial deve ser protocolada no Food and Drug Administration (FDA, na sigla em inglês, órgão análogo à Anvisa) em dezembro “se todas as estrelas se alinharem”.

Os testes da Moderna ficam atrás somente da Pfizer, que, em parceria com a alemã BioNTech, pretende testar 44 mil pessoas em sua última fase de estudos clínicos.

De todos os participantes testados, a Moderna precisa que 53 sejam infectados pela covid-19, e pelo menos 40 deles precisam ter recebido a dose de placebo.

Quão eficaz uma vacina precisa ser?

Segundo uma pesquisa publicada no jornal científico American Journal of Preventive Medicine uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia. Para evitar que outras aconteçam, a prevenção precisa ser 70% eficaz.

Uma vacina com uma taxa de eficácia menor, de 60% a 80% pode, inclusive, reduzir a necessidade por outras medidas para evitar a transmissão do vírus, como o distanciamento social. Mas não é tão simples assim.

Isso porque a eficácia de uma vacina é diretamente proporcional à quantidade de pessoas que a tomam, ou seja, se 75% da população for vacinada, a proteção precisa ser 70% capaz de prevenir uma infecção para evitar futuras pandemias e 80% eficaz para acabar com o surto de uma doença.

As perspectivas mudam se apenas 60% das pessoas receberem a vacinação, e a eficácia precisa ser de 100% para conseguir acabar com uma pandemia que já estiver acontecendo — como a da covid-19.

Isso indica que a vida pode não voltar ao “normal” assim que, finalmente, uma vacina passar por todas as fases de testes clínicos e for aprovada e pode demorar até que 75% da população mundial esteja vacinada.

Os tipos de vacina disponíveis

Alguns tipos de vacina têm sido testados para a luta contra o vírus. Uma delas é a de vírus inativado, que consiste em uma fabricação menos forte em termos de resposta imunológica, uma vez que nosso sistema imune responde melhor ao vírus ativo. Por isso, vacinas do tipo têm um tempo de duração um pouco menor do que o restante e, geralmente, uma pessoa que recebe essa proteção precisa de outras doses para se tornar realmente imune às doenças. É o caso da Vacina Tríplice (DPT), contra difteria, coqueluche e tétano. A vacina da Sinovac, por exemplo, segue esse padrão.

Outro tipo de vacina é a de Oxford, feita com base em adenovírus de chimpanzés (grupo de vírus que causam problemas respiratórios), e contendo espículas do novo coronavírus.

As outras vacinas em fases clínicas já avançadas também são baseadas em espículas, mas apresentadas em forma de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna.

Como estão as dez potenciais?

Sinovac Biotech: a vacina chinesa que começou os testes em fase 3 no Brasil na última segunda-feira, 20, pretende fabricar até 100 milhões de doses anuais. Por aqui, 9.000 profissionais da área da saúde receberão a vacina.

Sinopharm (Wuhan e Pequim): a vacina com base em vírus inativado, que se mostrou capaz de produzir resposta imune ao vírus, começou as fases 3 de testes neste mês nos Emirados Árabes Unidos. Cerca de 15.000 voluntários participaram do período de testes e a empresa chinesa acredita que a opção estará disponível para o público já no final do ano.

Oxford e AstraZeneca: os resultados preliminares das fases 1 e 2 da vacina com mais de 1.000 pessoas mostraram que ela foi capaz de induzir uma resposta imune à doença. As fases 2 (que ainda está ocorrendo no Reino Unido) e 3 de testes (acontecendo no Reino Unido, Brasil e África do Sul) devem garantir a eficácia completa dela. A opção é tida como a mais promissora pela OMS.

Moderna: a empresa americana iniciou a última fase de testes de sua vacina baseada no RNA mensageiro no dia 27 de julho. O teste vai incluir 30.000 pessoas nos Estados Unidos e o governo investiu pesado: cerca de 1 bilhão de dólares para apoiar a pesquisa. A expectativa da empresa é produzir 500 milhões de doses por ano.

Pfizer e BioNTech: a vacina agora também está na fase 3 de testes e também usa o RNA mensageiro, que tem como objetivo produzir as proteínas antivirais no corpo do indivíduo. A expectativa é testar a vacina em aproximadamente 30.000 voluntários com idades entre 18 e 85 anos no mundo. Desse total, 1.000 serão testados no Brasil. Se tudo der certo, a expectativa é que a eficácia da vacina seja comprovada até o outubro. A empresa espera produzir até 100 milhões de doses até o fim do ano. Outras 1,3 bilhão de doses podem ser fabricadas no ano que vem.

Instituto Gamaleya: em 11 de agosto a Rússia registrou a primeira vacina do mundo contra a covid-19. A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus e é por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima. Na segunda-feira, 31, o país anunciou que o primeiro lote de sua vacina, a “Sputnik V”, estará disponível já neste mês.

CanSino: a vacina chinesa usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus de tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo e, segundo a companhia, conseguiu induzir uma resposta imune nos indivíduos que foram testados. No começo de agosto, a China concedeu a primeira patente da vacina.

Janssen Pharmaceutical Companies: a vacina, em parceria com o gigante Johnson & Johnson conseguiu induzir imunidade robusta em testes pré-clínicos. A tecnologia usada para a produção dela é a mesma utilizada no desenvolvimento da vacina do Ebola, que inclui o uso do vírus inativado da gripe comum, incapaz de ser replicado.

Novavax: a empresa americana nunca produziu uma vacina em mais de três décadas de existência, mas decidiu tentar. A vacina tem como base as proteínas do próprio vírus.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscara, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina.

A mais rápida a passar por todas essas fases foi a do Ebola, que demorou cinco anos para ficar pronta e ser aprovada pela agência análoga à Anvisa nos Estados Unidos e pela Comissão Europeia, em 2019.

Até o momento, em relação à pandemia atual, nenhuma situação do tipo aconteceu.

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Ciência

Pesquisadores podem ter descoberto novo órgão escondido no corpo humano

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Um quarto par de glândulas salivares foi detectado acidentalmente por cientistas na Holanda. Esta pode ser a primeira descoberta deste tipo em 300 anos

Corpo humano: existência de mais um órgão pode ter sido confirmada (LEONELLO CALVETTI/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

O corpo humano pode ter mais órgãos do que se imaginava até então. Pesquisadores holandeses do Instituto do Câncer da Holanda analisaram tomografias cerebrais de alta resolução e descobriram um novo conjunto de órgãos, referente um par de glândulas salivares, escondido dentro da base do crânio humano.

Conforme apontam os pesquisadores ao The New York Times, as glândulas salivares estão aninhadas próximas entre o topo da garganta e a cavidade nasal das pessoas. Até então, era certo que cada pessoa tinha apenas três pares de glândulas salivares. Para que se tenha noção do tamanho da descoberta, este pode ser o primeiro par de glândulas encontrado nos últimos 300 anos. Cansaço? Estafa? Burnout? Faça da pandemia uma oportunidade de reset mental.

O estudo, que ainda é bastante limitado, já foi publicado na revista científica Radiotherapy & Oncology. As análises iniciais foram feitas em dois cadáveres. Ainda é necessário analisar mais corpos para comprovar a existência dessas glândulas. “Parece que eles estão no caminho certo”, disse a Valery Fitzhugh, patologista da Rutgers University, ao ser consultada pelo The New York Times.

Este quarto par de glândulas é o mais escondido entre todos os outros e só foi detectado graças a imagens bastante sensíveis. Esta era uma tecnologia que não estava disponível décadas atrás.

As glândulas salivares, como o nome já deixa a dica, produzem saliva. Cada par é responsável por produzir cerca de 1 litro de saliva por dia. A saliva tem uma função importante para o corpo, lubrificando a boca e tornando mais fácil para que a pessoa possa falar e engolir alimentos, além de ajudar a acelerar o fechamento de feridas na boca.

O vídeo abaixo mostra mais detalhes da descoberta.

https://youtu.be/RHAyoQF09X4

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Ciência

Máscara e distanciamento não são o suficiente contra covid-19, diz estudo

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Pesquisa foi realizada pelas universidades Técnica de Viena, da Flórida, de Paris, de Clarkson e pelo MIT; mesmo assim, medidas não devem ser descartadas

Máscara: cientistas não recomendam pausa no uso da proteção (Aleksandr Zubkov/Getty Images)

As máscaras e o distanciamento social podem não ser o suficiente contra o novo coronavírus. Ao menos é o que aponta um estudo realizado pelas universidades Técnica de Viena, da Flórida, de Paris, de Clarkson e também pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Isso porque, segundo os cientistas, “as bases científicas nas quais essas recomendações são baseadas têm décadas de idade e não refletem o estado atual do conhecimento”. Cansaço? Estafa? Burnout? Faça da pandemia uma oportunidade de reset mental.

Apesar disso, os pesquisadores entendem que as máscaras são importantes para evitar que ainda mais gotículas de saliva de infectados sejam propagadas, “mas isso não deve te iludir em um falso senso de segurança”, afirmam eles no documento publicado nesta terça-feira, 20. O estudo diz que “mesmo com uma máscara, gotículas infecciosas podem ser transmitidas em metros de distância e permanecem no ar por mais tempo do que o que era inicialmente imaginado”.

Para chegar a essa conclusão, e ajudar o entendimento, as universidades trabalharam na construção de um modelo que identifica a propagação da covid-19. O que foi descoberto é que, em atividades típicas diárias, uma partícula infectada de cerca de dez micrômetros demora quase 15 minutos para chegar ao chão. Isso indica que é possível que se tenha contato com o vírus mesmo quando o distanciamento social está sendo aplicado — como em elevadores. “Ambientes particularmente problemáticos têm uma umidade relativa alta, como salas de reunião pouco ventiladas”, explicam os pesquisadores.

As partículas do vírus, mesmo sendo líquidas, se movem de forma gasosa, o que, para os cientistas, é algo bastante complicado. “As gotículas menores eram consideradas não prejudiciais, mas isso está errado. Mesmo quando a gotícula de água evapora, uma partícula de aerosol continua a existir no ambiente, o que pode conter o vírus. Isso faz com que a covid-19 se espalhe em distâncias maiores e continue presente no ar por muito mais tempo”, explica o professor Alfredo Soldati, da Universidade Técnica de Viena, um dos autores do estudo.

Essa não é a primeira vez que o MIT, por exemplo, confronta as recomendações de um distanciamento social de um a dois metros de distância em locais públicos. Essa ideia de ficar de um a dois metros longe de outras pessoas para evitar infecções é baseada em uma teoria muito antiga (de 1890) — que, para os cientistas, não leva em conta outras particularidades da covid-19.

Pesquisas científicas sugerem que as gotículas da covid-19 conseguem viajar por mais de dois metros quando o infectado tosse ou grita, o que gera um espalhamento da saliva infectada por até oito metros — o que pode significar uma necessidade de aumentar ou reduzir o distanciamento social conforme necessário.

Mesmo assim, enquanto a nova cartilha, vacina ou tratamento não chega, o distanciamento social e o uso de máscaras não devem ser descartados.

Uma pesquisa publicada no jornal científico The Lancet, por exemplo, mostrou que a cada metro de distância que uma pessoa fica distante de outra infectada, o risco de disseminação do SARS-CoV-2 cai. O estudo em questão também mostrou que máscaras e proteções para os olhos reduzem os riscos de disseminação do vírus — as máscaras diminuem o risco de 17% para apenas 3%, e a proteção para os olhos mostrou uma redução de 16% para 6%.

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Ciência

Outubro sem vacina? As más notícias sobre a covid-19

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Quase 200 vacinas estão sendo desenvolvidas. Em meio a pausas em testes e a uma produção acelerada, é preciso lembrar que segurança deve estar em 1º lugar

Vacina: proteção contra covid-19 não deve ficar pronta em outubro (Malte Mueller/Getty Images)

Em setembro o cenário das vacinas contra o novo coronavírus era um pouco mais otimista do que o visto atualmente — era esperado que aquele seria o último mês sem uma proteção contra o vírus. Agora, a 11 dias para outubro acabar, nenhuma vacina passou da fase três de testes ou foi aprovada. Pelo contrário. É provável que a situação frustre expectativas, como quase tudo em 2020.

Em meio a uma pandemia que já deixou mais de um milhão de mortos, existe pressa para que uma aprovação ocorra. No entanto, em média, uma vacina pode demorar até 10,7 anos para ficar pronta. Os esforços contra a covid-19 são inéditos no mundo — e, mesmo acelerados, não podem ignorar a segurança da população mundial.

Há exatamente uma semana, a farmacêutica americana Johnson & Johnson teve seus testes pausados pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) por conta de um efeito colateral em um voluntário em outro país. O teste da vacina da farmacêutica, iniciado no final de setembro, é o maior do mundo, com 60 mil voluntários em países como Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru e África do Sul. Todo o processo foi pausado.

A pausa, comum em testes científicos, não significa que os demais voluntários deixarão de fazer parte da pesquisa, mas sim que a empresa não poderá recrutar novos indivíduos e os demais continuarão a ser monitorados de perto por equipes médicas, a fim de identificar se novos efeitos adversos irão ocorrer.

A também americana Pfizer, apesar da pressão de Donald Trump para que uma aprovação ocorra antes das eleições nos Estados Unidos, também não deve ter uma vacina pronta até meados de novembro (ou até mais tarde), quando a companhia pretende submeter a proteção ao Food and Drug Administration (FDA) [espécie de Anvisa americana] para uso emergencial.

No Brasil, a vacina do laboratório chinês Sinovac em parceria com o Instituto Butantan também passou por atrasos. O prazo colocado como ideal pelo governo de São Paulo para a conclusão da última fase de testes era a sexta-feira passada, 16, mas ainda faltam mais dados e aplicar a vacina em mais voluntários. Em uma segunda etapa, em novembro, serão feitos testes em grupos específicos, como idosos, crianças e mulheres grávidas. Sem apresentar pesquisas publicadas ou uma conclusão de estudos, o governo afirmou que 35% dos voluntários tiveram efeitos colaterais. E, se até recentemente o governador João Doria (PSDB-SP) falava em uma campanha de vacinação iniciada em 15 de dezembro deste ano, o discurso mudou e nenhuma data é citada. A falta de provas preocupa a comunidade científica brasileira.

Mas não é só o Sinovac que está causando “dor de cabeça”. A vacina russa do Instituto Gamaleya, chamada de Sputnik V, também gera preocupação desde seu primeiro anúncio. A Rússia, mesmo sem a conclusão dos testes, foi o primeiro país do mundo a registrar uma vacina. O instituto também demorou para divulgar os dados relacionados aos testes e, quando estes foram publicados, mostraram inconsistências.

Nem mesmo as medicações experimentais para o tratamento de quadros da covid-19 escaparam da onda de má sorte de outubro. Em uma pesquisa feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o antiviral remdesivir, considerado o primeiro tratamento promissor na luta contra o vírus, apresentou pouco ou quase nenhum efeito sobre os tempos de internação ou chances de sobrevivência de pacientes.

Os resultados do megaestudo feito com 11.266 no mundo todo pela OMS não batem com os apresentados pela biofarmacêutica americana Gilead Sciences, que em agosto, afirmou que a medicação foi responsável por uma redução de 62% na mortalidade em casos da doença. A análise foi feita com base no ensaio SIMPLE-Grave, em Fase 3 de testes, que incluiu 312 pacientes tratados com a medicação e outros 818 com características parecidas, mas que receberam os tratamentos padrão contra a covid-19.

A farmacêutica americana Eli Lilly também interrompeu os testes de seu medicamento com base em anticorpos contra o SARS-CoV-2 na semana passada após uma recomendação do Grupo de Monitoramento de Segurança de Dados (DSMB, na sigla em inglês), que faz parte do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. Segundo a empresa, a pausa foi feita por “questões de segurança”.

Segundo o último relatório da OMS, publicado nesta segunda-feira, 19, 44 vacinas estavam em fase de testes e outras 154 em desenvolvimento — o que faz com que quase 200 estejam sendo avaliadas até o momento. No início de setembro, 34 estavam em alguma fase necessária para a aprovação.

Quem terá prioridade para tomar a vacina?

Nenhuma vacina contra a covid-19 foi aprovada ainda, mas os países estão correndo para entender melhor qual será a ordem de prioridade para a população uma vez que a proteção chegar ao mercado. Um grupo de especialistas nos Estados Unidos, por exemplo, divulgou em setembro uma lista de recomendações que podem dar uma luz a como deve acontecer a campanha de vacinação.

Segundo o relatório dos especialistas americanos (ainda em rascunho), na primeira fase deverão ser vacinados profissionais de alto risco na área da saúde, socorristas, depois pessoas de todas as idades com problemas prévios de saúde e condições que as coloquem em alto risco e idosos que morem em locais lotados.

Na segunda fase, a vacinação deve ocorrer em trabalhadores essenciais com alto risco de exposição à doença, professores e demais profissionais da área de educação, pessoas com doenças prévias de risco médio, adultos mais velhos não inclusos na primeira fase, pessoas em situação de rua que passam as noites em abrigos, indivíduos em prisões e profissionais que atuam nas áreas.

A terceira fase deve ter como foco jovens, crianças e trabalhadores essenciais que não foram incluídos nas duas primeiras. É somente na quarta e última fase que toda a população será vacinada.

Quão eficaz uma vacina precisa ser?

Segundo uma pesquisa publicada no jornal científico American Journal of Preventive Medicine uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia. Para evitar que outras aconteçam, a prevenção precisa ser 70% eficaz.

Uma vacina com uma taxa de eficácia menor, de 60% a 80% pode, inclusive, reduzir a necessidade por outras medidas para evitar a transmissão do vírus, como o distanciamento social. Mas não é tão simples assim.

Isso porque a eficácia de uma vacina é diretamente proporcional à quantidade de pessoas que a tomam, ou seja, se 75% da população for vacinada, a proteção precisa ser 70% capaz de prevenir uma infecção para evitar futuras pandemias e 80% eficaz para acabar com o surto de uma doença.

As perspectivas mudam se apenas 60% das pessoas receberem a vacinação, e a eficácia precisa ser de 100% para conseguir acabar com uma pandemia que já estiver acontecendo — como a da covid-19.

Isso indica que a vida pode não voltar ao “normal” assim que, finalmente, uma vacina passar por todas as fases de testes clínicos e for aprovada e pode demorar até que 75% da população mundial esteja vacinada.

Os tipos de vacina disponíveis

Alguns tipos de vacina têm sido testados para a luta contra o vírus. Uma delas é a de vírus inativado, que consiste em uma fabricação menos forte em termos de resposta imunológica, uma vez que nosso sistema imune responde melhor ao vírus ativo. Por isso, vacinas do tipo têm um tempo de duração um pouco menor do que o restante e, geralmente, uma pessoa que recebe essa proteção precisa de outras doses para se tornar realmente imune às doenças. É o caso da Vacina Tríplice (DPT), contra difteria, coqueluche e tétano. A vacina da Sinovac, por exemplo, segue esse padrão.

Outro tipo de vacina é a de Oxford, feita com base em adenovírus de chimpanzés (grupo de vírus que causam problemas respiratórios), e contendo espículas do novo coronavírus.

As outras vacinas em fases clínicas já avançadas também são baseadas em espículas, mas apresentadas em forma de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna.

Como estão as 10 potenciais?

Sinovac Biotech: a vacina chinesa que começou os testes em fase 3 no Brasil na última segunda-feira, 20, pretende fabricar até 100 milhões de doses anuais. Por aqui, 9 mil profissionais da área da saúde receberão a vacina.

Sinopharm (Wuhan e Pequim): a vacina com base em vírus inativado, que se mostrou capaz de produzir resposta imune ao vírus, começou as fases 3 de testes neste mês nos Emirados Árabes Unidos. Cerca de 15 mil voluntários participaram do período de testes e a empresa chinesa acredita que a opção estará disponível para o público já no final do ano.

Oxford e AstraZeneca: os resultados preliminares das fases 1 e 2 da vacina com mais de mil pessoas mostraram que ela foi capaz de induzir uma resposta imune à doença. As fases dois (que ainda está ocorrendo no Reino Unido) e três de testes (acontecendo no Reino Unido, Brasil e África do Sul) devem garantir a eficácia completa dela. A opção é tida como a mais promissora pela OMS.

Moderna: a empresa americana iniciou última fase de testes de sua vacina baseada no RNA mensageiro no dia 27 de julho. O teste vai incluir 30 mil pessoas nos Estados Unidos e o governo investiu pesado: cerca de 1 bilhão de dólares para apoiar a pesquisa. A expectativa da empresa é produzir 500 milhões de doses por ano.

Pfizer e BioNTech: a vacina agora também está na fase três de testes e também usa o RNA mensageiro, que tem como objetivo produzir as proteínas antivirais no corpo do indivíduo. A expectativa é testar a vacina em aproximadamente 30.000 voluntários com idades entre 18 e 85 anos no mundo. Desse total, 1.000 serão testados no Brasil. Se tudo der certo, a expectativa é que a eficácia da vacina seja comprovada até o outubro. A empresa espera produzir até 100 milhões de doses até o fim do ano. Outras 1,3 bilhão de doses podem ser fabricadas no ano que vem.

Instituto Gamaleya: em 11 de agosto a Rússia registrou a primeira vacina do mundo contra a covid-19. A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus e é por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima. Na última segunda-feira, 31, o país anunciou que o primeiro lote de sua vacina, a “Sputnik V”, estará disponível já neste mês.

CanSino: a vacina chinesa usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus de tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo e, segundo a companhia, conseguiu induzir uma resposta imune nos indivíduos que foram testados. No começo de agosto, a China concedeu a primeira patente da vacina.

Janssen Pharmaceutical Companies: a vacina, em parceria com a gigante Johnson & Johnson conseguiu induzir imunidade robusta em testes pré-clínicos. A tecnologia usada para a produção dela é a mesma utilizada no desenvolvimento da vacina do Ebola, que inclui o uso do vírus inativado da gripe comum, incapaz de ser replicado.

Novavax: a empresa americana nunca produziu uma vacina em mais de três décadas de existência, mas decidiu tentar. A vacina tem como base as proteínas do próprio vírus.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina.

A mais rápida a passar por todas essas fases foi a do Ebola, que demorou cinco anos para ficar pronta e ser aprovada pela agência análoga à Anvisa nos Estados Unidos e pela Comissão Europeia, em 2019.

Até o momento, em relação à pandemia atual, nenhuma situação do tipo aconteceu.

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Ciência

Marte fica ainda mais visível no céu nesta terça; saiba como assistir

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Nesta terça, Marte estará em perfeita oposição ao Sol e ficará o mais brilhante possível

Marte: planeta estará em perfeita oposição com o Sol (Getty/Getty Images)

Apesar de estar mais longe do que no dia 5 de outubro, quanto esteve o mais próximo da Terra, na noite de hoje, em sua pequena órbita em volta do Sol, a Terra deve passar mais ou menos entre o Sol e o planeta vermelho, visível por aqui a partir das 19h, mas com o pico às 00h05 da meia noite desta quarta-feira, 14.

Na oposição deste ano, Marte será uma vista brilhantemente vermelha no céu durante a noite toda — ainda mais brilhante do que a que deve acontecer em 2035. A oposição é um “período especial” para qualquer planeta, uma vez que, exatamente quando a Terra se localiza entre a principal estrela do sistema solar e um planeta, ele brilha o mais forte no céu terrestre.

Configuração da Terra, do Sol e de Marte durante a oposição (Nasa/Reprodução)

Se Marte e a Terra tivessem órbitas perfeitamente circulares, a distância mínima entre os dois planetas seria sempre a mesma — mas não é assim que funciona, uma vez que a órbita de ambos os planetas tem um formato parecido com o de um ovo.

Apesar da proximidade, esse não é o número recorde que a Terra e Marte se encontraram tão de perto. Em 2003, o planeta vermelho ficou a 55,7 milhões de quilômetros do nosso — um fenômeno que não acontecia há cerca de 60 mil anos. Agora, para vê-lo tão de perto novamente, só em 2287.

Mas a Nasa pede cuidado: Marte não ficará do tamanho da Lua em nosso céu (e nem do Sol, por sua vez). “Se isso fosse verdade, teríamos um grande problema, porque teríamos a gravidade da Terra, de Marte e da Lua”, explica a agência americana.

Como assistir?

Segundo a Nasa, quando o assunto é observar Marte em sua posição de oposição, é sempre melhor ter um telescópio, uma vez que ele possibilitará que mais detalhes do planeta sejam mostrados — como regiões mais claras e escuras da superfície planetária, bem como a proeminente calota de gelo polar, que estará virada diretamente para a Terra.

Pela turbulência da nossa atmosfera, como explica a agência espacial, os detalhes podem ser mais difíceis de serem vistos, especialmente com telescópios menores. E, apesar de ser chamado de “planeta vermelho”, nesta terça Marte terá uma cor mais parecida com uma abóbora, em tons alaranjados.

Apesar disso, a própria Nasa afirma que “se você quiser ver o planeta, simplesmente saía e olhe para cima. Dependendo da temperatura local e das condições de iluminação, você deve conseguir ver Marte”. Se isso não der certo, o Virtual Telescope Project fará uma transmissão ao vivo de Marte no céu na noite de hoje.

Simples, não?

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Coronavírus: EUA investe US$ 486 milhões em tratamento da AstraZeneca

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Estados Unidos contribuirá para o desenvolvimento e distribuição de 100 mil doses até o final de 2020

Vacina da AstraZeneca contra a Covid-19 (Dado Ruvic/Reuters)

O governo dos Estados Unidos vai investir US$ 486 milhões no desenvolvimento e distribuição em larga escala de um tratamento para a covid-19 do laboratório britânico AstraZeneca, que está em fase final de testes clínicos, anunciou a gigante farmacêutica nesta segunda-feira (12).

O medicamento, atualmente chamado AZD7442, é uma combinação de dois anticorpos de longa ação derivados de pacientes convalescentes da covid-19, descobertos pelo centro médico da Universidade de Vanderbilt e licenciados pela AstraZeneca em junho.

Com investimento de quase 500 milhões de dólares, o governo dos Estados Unidos contribuirá para o desenvolvimento e distribuição de 100 mil doses até o final de 2020 e poderá adquirir mais um milhão em 2021, anunciou o laboratório em comunicado à Bolsa de Valores de Londres.

Este fármaco “avança rapidamente nos testes de fase 3”, acrescentou o grupo.

Para esta última fase, dois ensaios serão conduzidos “nos Estados Unidos e em outros lugares” envolvendo “6.000 adultos para a prevenção da doença” e “ensaios adicionais em cerca de 4.000 adultos terão como foco o tratamento da infecção” pelo coronavírus, disse.

AztraZeneca, que desenvolve em paralelo com a Universidade de Oxford uma vacina contra a covid-19, havia anunciado no final de agosto o início da fase 1 de seu medicamento AZD7442, que já era financiado pelo governo dos Estados Unidos com US$ 25 milhões.

 

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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

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