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Tragédia em Taguaí: motorista de ônibus que bateu em carreta é indiciado por homicídio culposo; 42 pessoas morreram

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Acidente aconteceu no quilômetro 172 da Rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho. A colisão causou a morte de 41 passageiros do ônibus e do motorista do caminhão.

Perícia em 3D de acidente que matou 42 pessoas em Taguaí — Foto: Reprodução

O motorista do ônibus envolvido no acidente em Taguaí (SP), em novembro do ano passado, foi indiciado por homicídio culposo, quando não há a intenção de matar, no fim da manhã desta segunda-feira (22). O acidente matou 42 pessoas.

A Polícia Civil chegou a essa conclusão depois de receber um laudo, que aponta que não houve falha nos freios, versão dada pelo motorista à polícia.

O laudo do acidente que deixou 42 mortos na rodovia Alfredo de Oliveira Carvalho, no dia 25 novembro de 2020, apontou que não foi identificada falha nos freios do ônibus. A perícia completa foi revelada no Fantástico neste domingo (21).

Tragédia em Taguaí: perícia no sistema de freio do ônibus não apontou falha do freio — Foto: Reprodução/TV TEM

Tragédia em Taguaí: perícia no sistema de freio do ônibus não apontou falha do freio — Foto: Reprodução/TV TEM

Para a polícia e em entrevistas, o motorista Mauro Aparecido de Oliveira havia falado que não tentou ultrapassar outro veículo no trecho onde era proibido e que, segundo ele, houve uma falha mecânica.

“Não tem como falar que o freio não falhou porque o freio falhou. Porque na hora que eu mais precisei, que eu pisei pra segurar mesmo, o freio não segurou”, disse Mauro.

Novas informações, contudo, revelam detalhes do acidente na rodovia. Peritos do Instituto de Criminalística de São Paulo analisaram a estrada e não acharam buracos ou qualquer outra deformação na pista que pudessem ter provocado o acidente.

Os peritos verificaram também os freios do lado esquerdo do ônibus e desmontaram as rodas do lado direito para uma checagem completa.

Motorista de ônibus que transportava trabalhadores disse à polícia que freio falhou; perícia não identificou problema — Foto: Reprodução/TV TEM

Motorista de ônibus que transportava trabalhadores disse à polícia que freio falhou; perícia não identificou problema — Foto: Reprodução/TV TEM.

A conclusão do laudo oficial foi de que: “mangueiras, válvulas e demais componentes estavam íntegros e não foram encontrados vestígios que indicassem falha no sistema de freios”.

“Na verdade, infelizmente nesse acidente houve uma falha humana”, explicou a delegada Camila Rosa Alves.

Ônibus destruído após acidente em Taguaí, SP — Foto: AP Photo/Juliano Oliveira

Ônibus destruído após acidente em Taguaí, SP — Foto: AP Photo/Juliano Oliveira

Animação em 3D

27 pessoas prestaram depoimento à polícia e o inquérito está em fase final. Com base nas informações da investigação e nos dados reais do local do acidente, os peritos do IC fizeram uma reconstituição em 3 dimensões da tragédia.

Em uma curva onde é proibido ultrapassar, o ônibus conduzido por Mauro Aparecido de Oliveira estava atrás de outro ônibus e de um caminhão.

Dados do GPS revelam que, naquele momento, Mauro estava acelerando. Cinco minutos antes, ele dirigia a 49 quilômetros por hora e, depois, praticamente não tirou o pé do acelerador.

Na curva, o ônibus que estava à frente foi um pouco para o acostamento. Mauro diz que foi naquele momento que ele pisou no freio.

“Não havia falha no freio. Houve uma ultrapassagem em local proibido de fato, que foi uma ação deliberada do motorista”, detalhou a delegada.

Na pista contrária havia outro caminhão, que tentou sair da estrada. Naquele momento, o ônibus estava a 89 quilômetros por hora.

Com a batida, a lateral do caminhão se desprendeu e, como se fosse uma faca, “rasgou” o ônibus. O motorista do caminhão morreu na hora, 41 passageiros que estavam no ônibus também morreram e 10 ficaram feridos. Todos iam para o serviço. O acidente aconteceu exatamente às 6h35 da manhã.

A maioria das vítimas tinha saído da cidade de Itaí e ia trabalhar numa fábrica de roupas em Taguaí, a 40 quilômetros de distância.

Defesa nega

Caminhão ficou destruído após colisão com ônibus em Taguaí (SP) — Foto: Minuto do Amorim/Divulgação

Caminhão ficou destruído após colisão com ônibus em Taguaí (SP) — Foto: Minuto do Amorim/Divulgação

O advogado de Mauro, Hamilton Antônio Gianfratti, diz que há testemunhas que comprovariam que o freio falhou.

“Haverá um conflito probatório nos autos e vai caber obviamente ao juiz discernir essa questão. Nós temos testemunhas que comprovam que não houve, por exemplo, uma ultrapassagem.”

O advogado deve pedir o perdão judicial, ou seja, que a Justiça deixe de aplicar a pena, caso Mauro seja condenado.

“O Mauro, no momento que está vivendo sob intenso sofrimento, sob medicação. E havia uma relação subjetiva de afetividade com todos os componentes do ônibus. Isso favorece o perdão judicial.”

Perícia foi realizada no local do acidente que deixou dezenas de mortos em Taguaí (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

Perícia foi realizada no local do acidente que deixou dezenas de mortos em Taguaí (SP) — Foto: Arquivo Pessoal

O ônibus pertencia a uma empresa chamada “Star Turismo”. Ela não tinha autorização para fazer o transporte intermunicipal e a perícia constatou uma outra irregularidade.

“Os pneus do veículo estavam carecas. Não foi decisivo no acidente, mas comprometia a segurança dos passageiros”, afirmou a delegada.

Em nota, o advogado da Star Turismo disse que a manutenção dos ônibus era realizada semanalmente e que a empresa ainda não foi notificada sobre a suspensão da autorização para fazer o transporte intermunicipal

As vítimas trabalhavam para 3 empresas que funcionavam na mesma fábrica de roupas. Segundo a polícia, os donos contrataram a empresa de turismo e devem ser indiciados por colocar a vida dos funcionários em perigo.

O Fantástico procurou o advogado das empresas da fábrica de roupas, mas ele não respondeu. O inquérito policial deve ser concluído em breve e encaminhado ao Ministério Público.

Sobreviventes e parentes dos mortos estão recebendo acompanhamento médico e psicológico, para tentar superar o trauma.

Mesmo trajeto em 8 anos

Acidente provocou mortes entre Taguaí e Taquarituba — Foto: Arquivo Pessoal

Acidente provocou mortes entre Taguaí e Taquarituba — Foto: Arquivo Pessoal

Segundo as investigações, o motorista do ônibus levava e trazia os trabalhadores de uma cidade para outra havia 8 anos.

Além do resultado da perícia, que mostra que o freio não falhou, a polícia usa outra prova, que é a constatação do local do acidente para afirmar que a versão do motorista não é verdadeira.

No depoimento, Mauro alega que não desviou o ônibus para a direita porque pensou que aqui havia uma ribanceira, só que no trecho não há ribanceira.

Como Mauro fazia o caminho todos os dias, ele conhecia bem o percurso, a investigação aponta que o motorista do ônibus poderia ter desviado para a direita.

Acidente entre ônibus e caminhão deixou dezenas de mortos em rodovia de Taguaí (SP) — Foto: Reprodução/TV TEM

Acidente entre ônibus e caminhão deixou dezenas de mortos em rodovia de Taguaí (SP) — Foto: Reprodução/TV TEM

 

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Brasil tem quase 30 fábricas de vacina para gado e só 2 para humanos

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Enquanto o setor de vacinas para humanos depende da importação de 90% dos insumos, quase 100% das vacinas para gado são produzidas inteiramente no Brasil

A pandemia da covid-19 evidenciou uma fragilidade do Brasil: a alta dependência de insumos importados da China para a fabricação de vacinas e o sucateamento de laboratórios e fábricas usados para produzir imunizantes no país.

Enquanto na década de 1980, o Brasil tinha pelo menos cinco institutos capazes de produzir vacinas, atualmente, há apenas dois em operação: Bio-Manguinhos, da Fiocruz, e o Instituto Butantan.

E das 17 vacinas atualmente distribuídas por esses dois institutos de pesquisa, só quatro são fabricadas totalmente no Brasil e não dependem da importação do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), como é chamada a matéria-prima para produzir imunizantes.

Esse sucateamento do setor de vacinas para humanos contrasta com os elevados investimentos na fabricação nacional de imunizantes para animais, principalmente gado.

Enquanto o Brasil importa a grande maioria das vacinas usadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mais de 90% das vacinas para gado são fabricadas no país, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan).

“O problema do Brasil é que a gente importa tudo. Nos últimos anos, reduzimos em 50% a capacidade de produção nacional de vacinas. Temos só duas fábricas. No setor veterinário, temos inúmeras fábricas”, diz Ana Paula Fernandes, pesquisadora do Centro de Tecnologia em Vacinas e Diagnóstico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

De fato, existem cerca de 30 fábricas para vacina veterinária — a maioria no Sudeste do país, segundo o Sindan. Trata-se de um mercado que garantiu faturamento de R$ 6,5 bilhões ao setor farmacêutico veterinário e que ajuda a manter a liderança mundial do Brasil na exportação de gado.

vacas

REUTERS/Phil Noble ‘Para mais de 90% das vacinas para gado, o ciclo completo de produção ocorre em território brasileiro’, diz Emílio Saldanha, vice-presidente do Sindan

Todo o processo de fabricação, da semente de trabalho do vírus vivo ao envase e distribuição, é feito aqui. Para mais de 90% das vacinas voltadas a gado, o ciclo completo de produção ocorre em território brasileiro”, disse à BBC News Brasil o vice-presidente executivo do Sindan.

Mas quando foi que o setor de vacinas para humanos deixou de ser prioridade, enquanto a vacinação de gado se desenvolvia?

Da autossuficiência à dependência da China

Segundo o fundador e primeiro presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Gonzalo Vecina Neto, foi na década de 1980 que o setor de pesquisa e fabricação nacional de vacinas para humanos viveu o auge de investimentos.

“No regime militar, foi implementado o modelo de substituição de importações. Os militares fizeram um esforço para ampliar capacidade produtiva local de insumos farmacêuticos e o pico se deu no final dos anos 1980”, recorda.

Em 1985, o regime militar lançou o Programa de Autossuficiência de Imunobiológicos (Pasni), com a meta de tornar o Brasil autossuficiente na produção de imunizantes. Recursos do Ministério da Saúde foram transferidos em peso para quatro instituições de pesquisa: Bio-Manguinhos, Instituto Butatan, Fundação Ezequiel Dias e Instituto Vital Brasil.

Em poucos anos, o Brasil passou a fabricar uma série de vacinas em território nacional, como a da tríplice viral, febre amarela, tríplice bacteriana, poliomielite, tuberculose (BCG), e hepatite B.

Idosa sendo vacinada

REUTERS/Amanda Perobelli Pandemia evidenciou dependência do Brasil em importações de insumos da China

Tanto para o Butantan quanto para a Fiocruz os investimentos da década de 1980 foram um marco. O Brasil possuía um parque farmoquímico para produção de IFA (Insumo Farmacêutico Ativo)”, disse à BBC News Brasil Tiago Rocca, gerente de parcerias estratégicas e novos negócios do Butantan.

Mas a maré logo iria mudar para a indústria de pesquisa em vacinas. A partir de março de 1990, a abertura comercial promovida pelo então presidente Fernando Collor permitiu a entrada maciça de produtos importados e muitas indústrias brasileiras não resistiram, inclusive o setor de imunizantes. Nesse meio tempo, China e Índia despontaram como grandes produtores de insumos farmacêuticos.

“O Brasil passou a importar em larga escala IFA, moléculas pequenas e outras matérias-primas usadas para fazer vacina. O problema é que os investimentos não acompanharam a competitividade e abertura. Atualmente, importamos cerca de 90% dos insumos imunobiológicos”, explica Rocca, do Butantan.

Como consequência da abertura econômica, institutos e fábricas foram fechando as portas, restando apenas Fiocruz e Butantan como capacidade para produzir vacinas de tecnologia nacional.

“A abertura da economia no governo Collor foi feita sem cuidado, sem verificar como os diferentes segmentos seriam afetados. Na indústria farmacêutica, o que fizemos foi secar a capacidade de produção nacional e passar a importar tudo através das multinacionais”, acrescenta Vecina Neto, que é professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Regulamentação mais rígida e necessária foi ‘prego no caixão’

Outro momento importante na trajetória da indústria de vacinas foi a criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), no governo Fernando Henrique Cardoso, em 1999.

O Brasil passou a adotar um regime mais criterioso para liberação de medicamentos e foram impostas regras para equiparar o Brasil aos padrões internacionais de segurança em qualidade em pesquisa.

Os pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil dizem que essas medidas foram importantes, mas destacam que elas não foram acompanhadas de investimentos para que institutos como Fiocruz e Butatan pudessem atualizar sua infraestrutura e continuar a fabricar vacinas de ponta a ponta no país.

frasco de vacina

REUTERS/Rodolfo Buhrer Abertura econômica no governo Collor prejudicou indústria nacional de imunizantes

O resultado disso foi que imunizantes que antes eram produzidos no Brasil passaram a ser importados. O Butantan, por exemplo, fabricava a vacina Tríplice Bacteriana Acelular (contra difteria) e a de hepatite B, mas passou a importar esses produtos porque é custoso atualizar as fábricas para que se adequem às exigências regulatórias.

“Nós registramos a patente, detemos a tecnologia, mas precisamos de uma nova fábrica para produzir essas vacinas de acordo com as melhores práticas da Anvisa”, explica Tiago Rocca.

Atualmente, das sete vacinas que o Instituto Butantan fornece só a da gripe é fabricada inteiramente no Brasil, a partir de um acordo de transferência de tecnologia. E das 10 vacinas fornecidas pela Fiocruz, só 4 não dependem da importação de Insumo Farmacêutico Ativo, ou IFA.

Gonzalo Vecina Neto avalia que os governos que se seguiram ao de Collor, inclusive os de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, não tiveram uma visão de longo prazo e também não investiram em pesquisa farmacêutica e de vacinas.

“O boom das commodities estimulou os governos a navegar em águas tranquilas e se fiar na exportação de produtos agrícolas. Por que FHC e Lula não investiram na autossuficiência em vacinas? Falta de visão de longo prazo. Nenhum dos dois tirou o pé do curto prazo, do populismo local, da reeleição no quarto ano.”

“Vale da Morte”

Segundo a microbiologista Ana Paula Fernandes, que é professora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o grande gargalo na indústria nacional de vacinas está na ausência de laboratórios tecnológicos e plantas fabris para viabilizar a transformação da pesquisa em produto final.

“Temos capacidade técnica, pesquisadores de ponta, mas existem gargalos que impedem que as descobertas se transformem em vacina. Temos conhecimento técnico para fazer vacinas como a da Pfizer e Moderna contra a covid-19, mas não temos matéria-prima, investimentos e fábricas para produzir”, resume.

Esses gargalos são chamados pelos cientistas de “vale da morte”. Isso porque, entre a descoberta científica e o uso desse achado, existe um abismo atualmente intransponível.

Segundo o professor de imunologia da USP Jorge Kalil, faltam laboratórios e plantas fabris que permitam testar a descoberta das universidades em animais e, depois, em seres humanos.

“O que impede que isso aconteça é falta de investimentos. Nós temos uma ciência de excelência no Brasil, mas precisamos atravessar o vale da morte, que é ir da descoberta científica nos laboratórios acadêmicos para a fase final, da industrialização”, diz Kalil, que também é diretor do Laboratório Incor de Imunologia e ex-presidente do Instituto Butantan.

Interesse econômico alimenta vacinas veterinárias

Já o setor de vacinas veterinárias conseguiu sobreviver à abertura de mercado e escapou às regulações criteriosas da Anvisa.

A liberação de vacinas e medicamentos para uso animal é regulamentada pelo Ministério da Agricultura, que impõe regras mais flexíveis, diz o ex-presidente da Anvisa Gonzalo Vecina Neto.

Além disso, um amplo e lucrativo mercado privado garante a compra das vacinas para gado, suínos e aves, enquanto o maior comprador de vacinas humanas é o governo federal.

vacas

Brasil chega a exportar vacinas veterinárias a paises da América do Sul, diz Ministério da Agricultura

O Brasil é o maior exportador de gado do mundo e a quantidade de bois no território brasileiro equivale ao tamanho da população brasileira. A venda em larga escala de vacinas para uso animal garante que seja mais vantajoso fabricar o produto no Brasil a importar de outros países, até porque o custo de fabricação é menor que o de vacinas para humanos, já que as regras são menos rígidas que as impostas pela Anvisa.

Otto Mozzer, dono da Allegro Biotecnologia, destaca ainda que parte da indústria de vacina animal cresceu na garupa do programa do governo federal de erradicação, até 2026, da febre aftosa — doença altamente contagiosa que pode causar a morte do animal e que provocava grandes prejuízos aos produtores.

“O grande parque tecnológico industrial foi na trilha da produção de vacina contra febre aftosa. Todos captaram recursos para fabricação dessa vacina e foram produzidos, nos últimos 20 anos, mais de R$ 6,2 bilhões de doses aqui no Brasil”, disse Mozzer, que é doutor em biotecnologia pela USP.

Para se ter uma ideia, o Brasil tem cerca de 220 milhões de cabeças de gado, segundo o vice-presidente-executivo do Sindan, Emilio Saldanha. Cada um desses animais, precisa tomar duas doses de vacina contra febre aftosa — uma exigência do Ministério da Agricultura para todos os produtores de gado do país.

“Faz 30 anos que somos autossuficientes nas principais vacinas para rebanho brasileiro. Vacinação é sinônimo de competividade”, destaca Saldanha.

E para que investir em vacina brasileira para humanos?

O principal argumento contrário a investir em vacinas nacionais é o de que, atualmente, é mais barato importar produtos da Índia ou China do que construir laboratórios e fábricas para garantir autossuficiência. Atualmente, o déficit na balança comercial brasileira de insumos farmacêuticos é de R$ 2,1 bilhões (dado de 2019), segundo a Associação Brasileira da Indústria de Insumos Farmacêuticos (Abiquifi).

Como o Brasil passou por mais de 30 anos de desinvestimentos no setor, seria preciso um investimento pesado do poder público para reverter esse cenário.

Por outro lado, a pandemia do coronavírus mostrou os riscos de depender inteiramente da importação de insumos. A demora na entrega de matéria-prima pela China pode significar meses de atraso no cronograma de vacinação da população contra covid-19.

Além disso, há doenças que existem no Brasil e que não despertam interesse de pesquisa de grandes farmacêuticas estrangeiras, por serem um problema regional.

“Por exemplo, tem um tipo de malária que é comum no Brasil, mas não em outros países. Temos dengue, zika, chikungunya… Fabricar vacinas eficazes contra doenças que predominam aqui é importante para proteger a população”, diz Ana Paula Fernandes, que participa de um projeto nacional de vacina contra covid-19.

O gerente de parcerias do Butantan, Tiago Rocca, também defende investimentos em tecnologia nacional. “Não é só uma questão de lucro, de custo e de venda. É uma questão estratégica não depender quase inteiramente de importações”, diz.

“Hoje, nós temos uma parceria com uma empresa estrangeira para continuar fornecendo a vacina da Hepatite B. Mas é uma questão estratégica ter a produção nacional, porque todos os habitantes do Brasil precisam tomar e precisam de dose de reforço a cada dez anos. É uma doença que está aí.”

Cientistas brasileiros também argumentam que investir na infraestrutura de fabricação nacional de imunizantes é importante para fazer frente ao coronavírus, especialmente diante de evidências de que as vacinas contra a covid-19 terão que ser atualizadas constantemente para responder a variantes do vírus.

Butantan assinou contrato de transferência de tecnologia para produzir no país a CoronaVac. E a Fiocruz negocia contrato similar com a Oxford-AstraZeneca. Os dois institutos investiram na atualização das suas fábricas e laboratórios para viabilizar esses acordos.

Enquanto isso, pesquisadores brasileiros tentam angariar recursos para colocar no mercado vacinas feitas com tecnologia 100% nacional.

O grupo de pesquisa da microbiologista Ana Paula Fernandes, da UFMG, já terminou a fase pré-clínica de estudos para produção de uma vacina brasileira contra covid-19. “Tivemos uma resposta excelente. Usamos camundongos e eles responderam muito bem.”

O professor Jorge Kalil, da USP, tenta desenvolver uma vacina em formato de spray nasal contra covid-19. Ele também já usou o produto em camundongos e tenta transpor o “vale da morte” para conseguir testar o produto em humanos.

“Se a gente consegue dinheiro para a fase mais fundamental da descoberta, é difícil percorrer o caminho que leva ao desenvolvimento do produto industrializado. Estamos agora negociando parcerias com empresas brasileiras.”

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“Samba do ministério louco”, ironiza Doria sobre recomendação vacinal

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Fala do governador de São Paulo se refere aos sinais trocados emitidos pelo Ministério da Saúde em relação à necessidade de reter metade das doses da CoronaVac para garantir a segunda aplicação. Após liberar o uso integral, a pasta voltou atrás

(crédito: Reprodução/Twitter)

O governador de São Paulo, João Doria, criticou, nesta quarta-feira (24/2), o fato de o Ministério da Saúde ter voltado atrás na própria recomendação e indicar que os estados e municípios deverão manter em estoque metade das doses da CoronaVac, a fim de garantir a segunda aplicação no intervalo de até 28 dias.

A nova recomendação, que contradiz a fala do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, durante reunião com a Frente Nacional dos Prefeitos (FNP), foi dada no novo informe técnico de distribuição das vacinas contra a covid-19, no qual a pasta considera “que ainda não há um fluxo de produção regular”.

A divergência de orientação entre o líder da pasta e o próprio órgão, segundo Doria, causa confusão. “Nós vamos acreditar em quem? No ministro ou no ministério? É o verdadeiro samba do ministério louco”, comentou, definindo o trocadilho como um “comentário bem humorado”.

O governador frisou, ainda, que a mudança repentina de posicionamento tem ocorrido ao longo de toda a pandemia. “Um dia tem uma posição, no dia seguinte, outra. Um dia tem vacina, no outro, não tem vacina. Um dia não tem seringa, não tem agulha e quer interditar os estados que têm. É difícil administrar assim”, reclamou.

Dentro do prazo

Ao comentar a necessidade de garantir a segunda dose no tempo estabelecido pela bula, o secretário de Saúde de SP, Jean Gorinchteyn, ressaltou que, mediante os riscos de desabastecimento, o estado tinha, por responsabilidade, garantir o reforço dentro do prazo.

“Hoje, com a atualização do fornecimento dos insumos, da produção, da fábrica do Butantan, das doses que estarão sendo disponibilizadas semanalmente […], vamos ter vacinas, sim”, garantiu Gorinchteyn, reafirmando o fluxo de fornecimento.

O próprio Instituto Butantan, responsável pela finalização da CoronaVac, indicou que não haverá interrupções nas liberações.

“Com relação a matéria-prima, ontem (segunda-feira) foi autorizada a exportação de 8,2 mil litros da matéria-prima da China, que devem chegar na semana que vem. Mais uma partida chegando. Não vamos ter problemas, neste momento, não temos nenhuma previsão de problema com o fluxo de matéria-prima”, disse o diretor do Butantan, Dimas Covas, durante coletiva de imprensa na terça-feira (23).

Apesar da garantia, o governo de SP informou que seguirá os ritos de vacinação da maneira com que forem definidos.

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Motorista sem habilitação suspeito de matar mulher e bebê atropelados se apresenta à polícia em Sete Lagoas

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Marcos Winícius Silva Gomes, de 18 anos, compareceu à Delegacia da Polícia Civil na cidade, com um advogado. Segundo a Polícia Civil, ele foi ouvido e liberado, porque o tempo de flagrante já havia passado. Vítimas estavam na calçada, na porta de casa, na tarde da última quinta-feira (18), quando foram atropeladas.

Motorista sem habitação atropela e mata bebê e mulher, em Sete Lagoas — Foto: Reprodução

O motorista que atropelou e matou um bebê de cinco meses a a babá dele, de 41 anos, em Sete Lagoas, na Região Central de Minas Gerais, na última quinta-feira (18), se apresentou à Polícia Civil, na noite deste domingo (21).

Marcos Winícius Silva Gomes, de 18 anos, compareceu à Delegacia da Polícia Civil na cidade, com um advogado. Segundo a Polícia Civil, ele foi ouvido e liberado, porque o tempo de flagrante já havia passado.

De acordo com o delegado Thiago Pacheco, Marcos compareceu à delegacia de forma espontânea e confessou que estava dirigindo o veículo. Falou que não estava embriagado e nem em alta velocidade. Afirmou que não conseguiu fazer a curva.

Ainda segundo o delegado, até o momento, a investigação mostra o contrário do que foi dito. Ele estaria em alta velocidade e com sinais de embriaguez.

“A apresentação dele não trava as medidas cautelares que forem necessárias para condução do caso. Ainda é preciso ouvir três pessoas que estavam no carro. A Polícia Civil vai dar resposta à família e à população de Sete Lagoas. Usaremos inclusive a Polícia Judiciária para as medidas necessárias”.

Brayan Henrique da Silva e Adriana Aparecida Pereira estavam na calçada quando foram atingidos pelo carro desgovernado. De acordo com a polícia, cinco pessoas estavam no veículo. Eles faziam uma festa em uma casa vizinha e tinham saído para buscar bebidas.

“Depois do acidente todos os ocupantes do carro fugiram. O dono do veículo procurou a polícia e foi preso por repassar a direção a uma pessoa sem carteira de habilitação” disse o tenente da Polícia Militar, Ricardo Araújo.

O motorista, que não tinha carteira de habilitação, não conseguiu fazer a curva e invadiu o terreno. Os corpos do bebê e da mulher foram enterrados na última sexta-feira (19).

Parentes e amigos prestaram homenagens e Brayan e Adriana, que morreram atropelados em Sete Lagoas. Enterro foi no Cemitério Parque Boa Vista. — Foto: Fabiana Almeida / TV Globo

Parentes e amigos prestaram homenagens e Brayan e Adriana, que morreram atropelados em Sete Lagoas. Enterro foi no Cemitério Parque Boa Vista. — Foto: Fabiana Almeida / TV Globo

Um cortejo com balões e buzinas pediu justiça pela morte de Adriana e Brayan. — Foto: Fabiana Almeida / TV Globo

Um cortejo com balões e buzinas pediu justiça pela morte de Adriana e Brayan. — Foto: Fabiana Almeida / TV Globo

Antes do sepultamento, a mãe de Brayan, Tatila Cristiane da Silva, falou sobre o crime . Com voz embargada, ela mal conseguia se expressar, mas registrou sua tristeza:

“A minha dor está… está muito dolorosa. Não posso acreditar que meu filho… O que ele fez com meu filho não vai ter volta, não vai ter nada… Quero justiça”.

A irmã de Adriana Pereira ficou com o braço quebrado e a criança chegou sem vida ao hospital.

“Foi a pior cena da minha vida, ver minha mãe debaixo do carro e não poder fazer nada”, lamentou o filho da Adriana, Marlon da Cruz

Revoltados, os vizinhos foram até a casa onde ocorria a festa, jogaram pedras e atearam fogo. O imóvel foi todo destruído. Segundo a PM, a casa é da mãe do motorista.

Os parentes da criança se mobilizaram depois do acidente e pediram justiça. A mãe, que estava trabalhando como cozinheira, passou o tempo todo amparada pelos familiares.

“O Brayan era um bebê que trouxe muita alegria pra nossa casa e ver ele partindo assim, dói demais”, desabafou o padrinho, Régis Aguiar.

Preso e liberado

Carro invadiu terreno e matou duas pessoas em Sete Lagoas — Foto: Polícia Militar/Divulgação

Carro invadiu terreno e matou duas pessoas em Sete Lagoas — Foto: Polícia Militar/Divulgação

A Polícia Civil disse que o dono do veículo, Raike Petterson de Freitas Lopes, de 27 anos, foi autuado em flagrante por “homicídio culposo na direção de veículo automotor“. As penas são “detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor”.

Segundo a polícia, após ser ouvido, Lopes foi liberado com pagamento de fiança de R$ 4.400. A investigação segue em andamento.

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Araraquara tem ruas vazias e pouca movimentação no 1ª dia útil de confinamento

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Por 60h, moradores só podem sair de casa para trabalhar ou ir ao médico. Município tem variante brasileira do novo coronavírus, que pode ter relação com alta de casos, internações e mortes.

Rua Napoleão Selmi Dei, em Araraquara, na manhã desta segunda-feira (22) — Foto: Tadeu Toshida

O primeiro dia útil de ‘lockdown’ em Araraquara (SP) tem ruas vazias e pouca movimentação nesta segunda-feira (22). A cidade enfrenta uma crise hospitalar causada pela Covid-19 com 100% de ocupação de leitos. Ao menos seis pacientes aguardam por internação nesta manhã.

A quarentena total de 60 horas com as restrições mais severas para tentar diminuir o número de casos começou no domingo (21). Durante esta segunda, vários pontos serão fiscalizados ao longo do dia. Nesta manhã, a Avenida Maria Antônia Camargo de Oliveira, a Via Expressa, está fechada nos dois sentidos.

Pelo regras, até às 23h59 de terça-feira (23), está proibida a circulação de carros e pessoas no município, exceto para trabalhar ou para atendimento médico e compra de medicamentos. O descumprimento gera multa de R$ 120 (pessoa física) e R$ 6 mil (empresas). (veja as regras abaixo).

As cidades ao redor, Américo Brasiliense, Boa Esperança do Sul e Santa Lúcia, também decretaram restrição de circulação de carros e pessoas. Para um especialista ouvido pelo G1, a medida não fere o direito constitucional de ir vir.

Araraquara soma 13.454 casos de infecção e 171 mortes desde o início da pandemia. O aumento de casos, internações e mortes pode ter relação com a identificação da variante brasileira do novo coronavírus.

O município é o que tem o maior número de confirmações (12 no total) da variante brasileira do novo coronavírus no estado de SP e ela pode ter relação com a alta de casos, internações e mortes, segundo a secretária municipal da Saúde, Eliana Honain.

Em entrevista à EPTV Central, afiliada da TV Globo, o prefeito Edinho Silva (PT), disse na manhã desta segunda-feira que o número de casos da variante identificadas em pacientes contaminados pela Covid-19 pode ter aumentado.

“O Instituto de Medicina Tropical (IMT), da Universidade de São Paulo (USP), já nos notificou. Claro, isso tem que ser validado pelo Instituto Adolfo Lutz, mas nós passamos de 30 cepas identificadas como a mutação do coronavírus de Manaus”, disse.

O prefeito disse ainda que a taxa de ocupação dos leitos na cidade está em 100% nesta segunda-feira. Ao menos seis pacientes aguardam transferência pela Central de Regulação de Oferta de Serviços de Saúde (Cross), quatro deles para enfermaria e dois para Unidade de Terapia Intensiva (UTi).

“Esse final de semana nós ampliamos mais de seis leitos, infelizmente todos de uma hora pra outra. Acreditamos que até o final da semana tenhamos conseguido ampliar mais leitos no Pronto-Socorro do Melhado e no Hospital de Campanha. Estamos comprando os equipamentos e dessa forma teremos mais condições de enfrentar a pandemia salvando vidas”, disse o prefeito.

Via Expressa, uma das principais avenidas de Araraquara, teve pouca movimentação de veículos neste domingo — Foto: Nilson Porcel/EPTV

Via Expressa, uma das principais avenidas de Araraquara, teve pouca movimentação de veículos neste domingo — Foto: Nilson Porcel/EPTV

Ruas desertas e fiscalização no domingo

A prefeitura classifica o novo momento de restrições como um lockdown’, expressão em inglês que, na tradução literal, significa confinamento ou fechamento total.

No domingo, primeiro dia de restrições mais severas, as principais vias do município ficaram vazias, com pouca movimentação de veículos e nenhum morador caminhando pelas ruas.

Vários pontos de fiscalização estão espalhados pela cidade, como Avenida Bento de Abreu, Avenida Maria Antônia Camargo de Oliveira, Via Expressa, Rua José Barbieri Neto, Avenida Sete de Setembro, entre outras.

Entre 14h e 18h, os fiscais abordaram 71 veículos e 9 pessoas foram notificadas.

Supermercados fechados

No domingo (21), no Jardim Santa Angelina, um supermercado fechou o estacionamento 12h em ponto e somente alguns clientes terminavam o pagamento das compras para deixar o local. Os estabelecimentos só podem funcionar por delivery até terça-feira.

Nos postos de combustíveis, somente a frota de serviços públicos tem atendimento. Uma ambulância foi abastecida no início da tarde.

Moradores fizeram filas na sexta e no sábado (20) em supermercados e postos de combustíveis de diferentes bairros.

Regras da nova quarentena

  • Só ficam abertos ao público farmácias e estabelecimentos de saúde.
  • Os ônibus de transporte público não circulam
  • Os supermercados podem funcionar apenas em sistema de delivery.
  • Restaurantes não podem funcionar, nem em esquema delivery.
  • Os postos de combustível atendem exclusivamente abastecimento dos serviços públicos municipais, estaduais e federais, inclusive polícia militar.
  • É permitida a circulação de pessoas apenas para atendimento médico, comprar medicamentos e ir trabalhar.
  • Quem descumprir leva multa de R$ 120 (pessoa física) e R$ 6 mil (empresas)
  • Ficam proibidas todas as atividades comerciais, de prestação de serviços inclusive bancários e industriais, quer para o atendimento presencial, quer para a prática de atividades internas, externas, produtivas, de manutenção, de limpeza ou outra de qualquer natureza, exceto segurança;

Os moradores que estiverem na rua terão que justificar e deverão apresentar, além dos documentos pessoais de identificação e de comprovação de endereço residencial:

  • nota fiscal da compra ou prescrição médica do medicamento adquirido ou a ser adquirido;
  • atestado de comparecimento na unidade de saúde de prestação do atendimento ou socorro médico ou prescrição de medicamentos resultante do atendimento;
  • carteira de trabalho, contracheque, contrato social de empresa que seja sócio, declaração de terceiro com identificação do indivíduo, do declarante e do endereço da prestação dos serviços;
  • tíquete ou imagem da passagem;
  • comprovação da urgência ou da necessidade inadiável por qualquer meio ou declaração própria ou de terceiro da ocorrência do fato.
  • quem não tiver comprovante tem um prazo de 10 dias para apresentar, caso contrário será multado.
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Brasil

Falta de vacinas: os riscos da interrupção da campanha de vacinação no Brasil

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Brasil teria capacidade de vacinar 2 milhões de pessoas por dia. Mas até o momento o ritmo é de 175 mil aplicações de doses a cada 24 horas

Nos últimos dias, municípios de diversas regiões do país anunciaram que vão paralisar a imunização contra a covid-19. O motivo é a falta de doses para seguir protegendo os grupos prioritários da primeira fase da campanha, que inclui profissionais da saúde e idosos.

De acordo com as últimas informações, Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Suzano (SP), Cuiabá (MT), Curitiba (PR) e diversos outros locais já estão com o estoque encerrado ou possuem uma quantia reduzida que cobre apenas os próximos dias.

A situação já era esperada, visto que o país possui até o momento 9,8 milhões de doses da CoronaVac (Sinovac/Instituto Butantan) e 2 milhões de doses da CoviShield (AstraZeneca/Universidade de Oxford/Fundação Oswaldo Cruz).

Esse montante permite vacinar cerca de 6 milhões de pessoas, uma vez que os produtos requerem duas doses para conferir proteção.

De acordo com as informações compiladas pelo site Our World Data, até o momento 5,6 milhões de vacinas foram aplicadas no Brasil, o que corresponde a 2,6% da população.

O dado bate com o número de imunizantes disponíveis por aqui: esses quase 6 milhões de indivíduos começaram a tomar a segunda dose nos últimos dias e isso já será suficiente para esgotar o estoque disponível até agora.

Interrupção aguardada e desastrosa

“Essa situação era totalmente esperada, uma vez que o quantitativo distribuído inicialmente era insuficiente para atender toda a população que integra a fase 1 da campanha. Temos 7 milhões de profissionais da saúde, então só pra eles necessitaríamos de 14 milhões de doses”, calcula o epidemiologista José Cassio de Moraes, professor titular da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.

O médico lembra que o país tem uma experiência de décadas em campanhas de vacinação que resultaram na eliminação da poliomielite e no controle de diversas outras doenças infecciosas.

“Mas parece que toda essa expertise foi desprezada por uma visão deturpada e uma aposta em medicamentos que não tem base científica alguma. Dá a sensação que nosso governo continua com uma mentalidade de 1918, a época da gripe espanhola”, completa.

A epidemiologista Denise Garrett, vice-presidente do Instituto Sabin de Vacinas, nos Estados Unidos, concorda. “A interrupção é desastrosa e demonstra uma clara falta de liderança e de planejamento por parte de nossas autoridades de saúde. Isso tem impactos não só no controle da pandemia, mas coloca em xeque a própria credibilidade da campanha, uma vez que a falta gera frustração e insegurança na população”.

Como visto, essa “pausa forçada” nas campanhas vem gerando ruídos e protestos de vários setores da sociedade. Mas quais são os riscos de interromper uma campanha de vacinação justo agora?

Pandemia prolongada

O principal problema da paralisação é bastante óbvio: quanto mais tempo demorarmos para vacinar, maior o risco de o coronavírus continuar a circular, infectar e matar as pessoas.

Por mais que os imunizantes tragam um benefício individual a quem os toma, sua grande vantagem está na proteção coletiva.

A aplicação de milhões de doses permite interromper as cadeias de transmissão do vírus ou evitar que a doença evolua para quadros mais graves, que necessitam de internação e intubação.

“O atraso vai retardar a proteção de grupos prioritários. Isso vai levar a um aumento da necessidade de assistência hospitalar e de UTIs, o que, por sua vez, gera um gasto enorme ao sistema de saúde”, pontua Moraes.

O melhor exemplo prático desse “ganho coletivo” acontece atualmente em Israel, que já imunizou 6,7 milhões de pessoas (ou 74% de sua população).

 

Primeiro-ministro de Israel, Benjamín Netanyahu, recebe a vacina contra a covid-19

Getty Images Primeiro-ministro de Israel, Benjamín Netanyahu, recebe a vacina contra a covid-19 – governo firmou acordo com a Pfizer que garante grande quantidade de vacinas.

Com praticamente dois meses de campanha, o país já percebeu uma queda de 38% nos pacientes em estado grave e de 40% nas mortes por covid-19 entre aqueles com mais de 60 anos.

Os números de novos casos por lá são os menores das últimas cinco semanas, após um pico registrado no início de janeiro de 2021.

“E não é só em países desenvolvidos que vemos isso acontecer. Muitos locais da América Latina, como Argentina e Chile, estão mais adiantados no processo de vacinação em relação a nós”, complementa Moraes.

Passos de tartaruga

Com mais de 40 mil postos de vacinação, o Brasil teria capacidade de vacinar tranquilamente até 2 milhões de pessoas por dia, ou 14 milhões por semana.

A realidade, porém, está bem longe disso: com 32 dias corridos desde a aprovação de CoronaVac e CoviShield, o Brasil tem uma média de 175 mil indivíduos imunizados a cada 24 horas.

Se continuarmos nesse ritmo, levaremos mais de 3 anos para resguardar todos os habitantes do país — e isso sem considerar as interrupções noticiadas recentemente, que podem ampliar bastante esse prazo.

“Da maneira que a vacinação está sendo feita no Brasil, não teremos impacto na transmissão viral e será impossível alcançar a imunidade coletiva”, antevê Garrett.

O quadro pode se agravar ainda mais com as novas variantes originárias de Manaus e do Reino Unido, que já estão em circulação em vários pontos do país.

Ainda não se sabe ao certo se as vacinas usadas atualmente por aqui garantem uma boa proteção contra as novas cepas — e quanto mais gente protegida logo, menor o risco de essas novas versões do coronavírus ganharem mais espaço e causarem estragos.

“O ideal seria vacinar o mais rápido possível pra gente tentar conter a disseminação dessas variantes”, sugere a epidemiologista.

“Diante de tudo isso, a campanha tinha que ser acelerada, não interrompida por falta de doses”, critica.

O que poderia ser feito?

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil indicam que o Brasil poderia ter se planejado melhor e garantido mais doses ao longo do segundo semestre de 2020.

“Só em dezembro que o governo começou a pensar na vacina. Ainda hoje vemos discussão sobre cloroquina, que já se mostrou ineficaz. Precisávamos definir melhor nossas prioridades”, pensa Moraes.

O caso mais marcante desta demora é o imbróglio que envolveu Pfizer e Ministério da Saúde.

Em agosto e setembro do ano passado, a farmacêutica tentou contato diversas vezes com o Governo Federal para negociar uma venda de 70 milhões de doses de seu produto, que naquele momento passava pela fase final de testes.

Executivos da empresa disseram que não receberam resposta alguma e acabaram negociando os lotes com outros países que se mostraram interessados.

Em dezembro e janeiro, representantes do Ministério da Saúde reclamaram das condições de negócio oferecidas pela Pfizer.

O ministro da saúde, general Eduardo Pazuello, chegou a afirmar que as quantidades de doses oferecidas ao Brasil eram “pífias”.

“Eles conseguem entregar 500 mil em janeiro, 500 mil em fevereiro e 1 milhão em março. Então ficou difícil para as vacinas importadas. Senhores, esta é a verdade. As vacinas que não são produzidas no Brasil têm quantidades pífias para o nosso país”, declarou o ministro.

A explicação de Pazuello, porém, parece não fazer sentido para quem tem experiência nas campanhas de vacinação.

“O curioso é que vários outros países estão adquirindo a vacina da Pfizer. Por que será que só o Brasil não consegue comprar? Será que a dificuldade é do laboratório ou do nosso governo?”, questiona a epidemiologista Carla Domingues, que foi coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde entre 2011 e 2019.

Atualmente, o imunizante da Pfizer é aplicado em larga escala em países da União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Israel, Reino Unido, Cingapura e Chile.

Além dele, outro que poderia ter recebido uma atenção especial é o candidato desenvolvido pela Johnson & Johnson, que inclusive fez parte dos testes de fase 3 (o último antes da aprovação) no Brasil.

“Esse imunizante apresenta as vantagens ao necessitar de uma única dose e ter facilidade no armazenamento. Mesmo assim, não avançamos nas negociações de compra”, diz Domingues.

O que fazer agora?

A interrupção da campanha em algumas cidades não significa que o Brasil ficará sem novas entregas no médio prazo.

O Instituto Butantan, em São Paulo, está produzindo 17,3 milhões de vacinas CoronaVac e deve liberar novos lotes a partir do dia 23 de fevereiro.

Já a Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), no Rio de Janeiro, estima entregar 1 milhão de doses da CoviShield no dia 19 de março.

O problema é que o país depende do IFA (insumo farmacêutico ativo) vindo da China ou da Índia para finalizar a fabricação das vacinas em território nacional.

E, diante de uma demanda mundial gigantesca, a chegada desses materiais tem sofrido atrasos e os prazos futuros estão cheios de incertezas.

“Como não temos capacidade de produção interna, ficamos reféns do mercado internacional. Se não tivermos um volume de insumos e vacinas, corremos o risco de ter outras faltas de doses em breve”, pontua Domingues.

Para diminuir o impacto dessa demora, os especialistas apontam a necessidade de variar o portfólio de fornecedores com urgência.

Na última segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que até tem um “cheque de 20 bilhões de reais para comprar a vacina”, mas lamentou uma falta global desses produtos.

Essa, porém, não é a realidade: a farmacêutica Moderna acaba de vender 150 milhões de doses que serão enviadas entre julho e setembro para a União Europeia.

Garrett entende que não há doses para pronta entrega, mas é necessário negociar com rapidez para garantir alguns lotes ainda para 2021.

“Se não comprarmos agora, ficaremos só para o ano que vem”, completa.

Repercussões institucionais

A falta de doses de vacinas contra a covid-19 em alguns locais levou a reações contundentes de entidades que representam as cidades brasileiras ou os prefeitos.

A Confederação Nacional de Municípios (CMM) chegou a pedir a troca do ministro da saúde.

“Foram várias as tentativas de diálogo com a atual gestão do Ministério, entre pedidos de agenda e de informação. A pasta tem reiteradamente ignorado os prefeitos do Brasil, com uma total inexistência de diálogo. Seu comando não acreditou na vacinação como saída para a crise e não realizou o planejamento necessário para a aquisição de vacinas. Todas as iniciativas adotadas até aqui foram realizadas apenas como reação à pressão política e social, sem qualquer cronograma de distribuição para Estados e Municípios. Com uma postura passiva, a atual gestão não atende à expectativa da Federação brasileira, a qual deveria ter liderado, frustrando assim a população do País”, afirmou Glademir Aroldi, presidente da entidade, por meio de nota.

Presidente Jair Bolsonaro, ministro da Saúde Eduardo Pazuello e Zé Gotinha em evento oficial do lançamento do plano de vacinação contra a covid-19 em dezembro de 2020

Isac Nóbrega/PR Bolsonaro (ao centro) recebe do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello (à esquerda), e do personagem Zé Gotinha (à direita) o Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a covid-19 em evento no dia 16 de dezembro de 2020

Já a Frente Nacional de Prefeitos (FNP) vinculou a interrupção da campanha aos “sucessivos equívocos do governo federal na coordenação do enfrentamento à covid-19”.

“Por isso, a FNP reitera que não é momento para discutir e avançar com a pauta de costumes ou regramento sobre aquisição de armas e munições. Isso é um desrespeito com a história dos mais de 239 mil mortos e uma grave desconsideração com a população. Prefeitas e prefeitos reafirmam que a prioridade do país precisa ser, de forma inequívoca, a vacinação em massa”, apontou a entidade, por meio de nota.

A posição do governo

Procurado pela reportagem da BBC News Brasil, o Ministério da Saúde enviou um texto informando que “está trabalhando na conclusão do cronograma de entregas das próximas doses da vacina contra a covid-19 com o intuito de dar celeridade à imunização do país”.

De acordo com o ministério, o Brasil já tem garantidas 354 milhões de doses para 2021 por meio dos acordos com FioCruz (212,4 milhões de doses), Instituto Butantan (100 milhões) e Covax Facility (42,5 milhões).

Há também a expectativa que o governo anuncie mais compras nos próximos dias. “A pasta deverá assinar contratos com a União Química, que entregará 10 milhões de doses da vacina Sputnik V, entre março e maio, e com a Precisa Medicamentos, que poderá trazer no mesmo período ao país mais 30 milhões de doses da Covaxin”.

Vale mencionar, no entanto, que os imunizantes Sputnik V e Covaxin ainda não foram aprovados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nem mesmo em caráter emergencial.

Além disso, as empresas que pretendem fabricar esses produtos (União Química e Precisa Medicamentos) também não receberam até o momento o aval do órgão regulador brasileiro para iniciar esse tipo de produção.

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Cobra é encontrada em fardo de garrafas de água, em Santa Catarina

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Serpente foi localizada entre as garrafas plásticas de grupo de manifestantes que pediam retomada de visita a detentos de penitenciária local

serpente encontrada em fardo de água em Itajaí – (crédito: Corpo de Bombeiros Itajaí)

Uma serpente foi encontrada dentro de um fardo de água mineral, nesta quinta-feira (18/2), em Itajaí, Santa Catarina. Segundo o Corpo de Bombeiros, a cobra media cerca de 60 centímetros de comprimento.

A serpente foi capturada e solta em local seguro pelo Corpo de Bombeiros. A espécie do animal não foi identificada.

A água pertencia a um grupo de manifestantes que protestavam pela retomada de visitas a presos no bairro Canhanduba na noite desta quinta.

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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

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