Um site de criptomoedas criou uma forma de distribuir tokens para as pessoas que compartilharem mensagens e vídeos que apoiam o voto em Flávio Bolsonaro.
Esse site é divulgado em um perfil do Instagram com milhões de seguidores, que ajuda a construir casas para crianças em Uganda, na África.
Um vídeo das crianças africanas vestindo camisetas com a mensagem B22 token, cantando para votar em Bolsonaro, já foi visto por mais de um milhão de pessoas. O site afirma que parte das vendas da moeda B22 vai ajudar a financiar esses projetos para as crianças.
No vídeo, as crianças pedem às pessoas que confiem em Nikolas Ferreira, Flávio Bolsonaro e Pablo Marçal, e que o token tem o objetivo de ajudar o Brasil, incentivando a votar diferente.
O site explica que as pessoas podem ganhar tokens, que podem valer dinheiro no futuro, se compartilharem posts mostrando que participam da comunidade B22.
Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, que trabalhou em campanhas anteriores, o esquema é parecido com outro realizado pelo candidato Pablo Marçal, que oferecia prêmios para quem divulgasse sua campanha com vídeos.
Ele explica que essa prática pode ser considerada uma doação irregular feita pela empresa de criptomoedas para a campanha de Flávio Bolsonaro, usando incentivos financeiros para promover o voto no número 22, do senador na eleição presidencial.
Pablo Marçal já foi condenado pela Justiça Eleitoral por abuso do poder econômico em uma iniciativa parecida, em que os participantes competiam por prêmios em dinheiro ao divulgar vídeos.
A Justiça considerou que esses campeonatos quebravam a lei, que proíbe dar vantagens econômicas para propaganda eleitoral na internet.
Em 2025, o Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo manteve a inelegibilidade por oito anos de Marçal por conta dessa ação.
A campanha de Flávio Bolsonaro informou que responderia às perguntas da reportagem em breve.
O site B22 se apresenta como um movimento que une apoio ao voto 22 e ajuda às crianças da HypersKids para terminar suas casas em Kampala. Também diz acreditar que votar no número 22 é uma boa escolha para o Brasil.
O site ressalta que a distribuição dos tokens acontece independentemente do voto ou da divulgação de propaganda eleitoral, e afirma que não tem ligação oficial com políticos, partidos ou campanhas, e que não é uma forma de doação eleitoral.
Nos perfis do X e Instagram, um usuário chamado Kevim Flores tem divulgado novidades sobre o site e o apoio a Flávio Bolsonaro e às crianças africanas. Ele não deixa claro se é o dono do site.
Em publicações no X, Flores usa imagens com o número 22 e a marca da criptomoeda B22, e fala da valorização da moeda até uma possível vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno, indicando grandes ganhos financeiros.
Uma pesquisadora do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital, Nina Santos, avaliou que se trata de uma operação complexa envolvendo criptomoedas, trabalho humanitário, propaganda em redes sociais e campanha eleitoral, considerada ilegal.
Ela afirma que uma pessoa jurídica não pode fazer campanha eleitoral, e que, apesar do possível benefício para crianças africanas, a operação está ligada à divulgação de materiais que pedem voto para um candidato, com aumento de visibilidade e venda da moeda gerando supostos ganhos para as crianças.
