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Saúde

Restrição calórica, longevidade e câncer: o que é verdade?

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A correlação entre dietas restritivas com maior longevidade e menor risco de doenças como o câncer é uma questão relativamente recente

Há alguns dias conheci a historia de Herschel Walker, campeão americano de MMA, que, aos 55 anos, declara (aparentemente apoiado por testemunhas confiáveis) que diariamente faz 1 500 apoios (push-ups), 1 500 abdominais, uma corrida de velocidade seguida de uma mini-maratona, movido a apenas uma saladinha, sopa e pão no jantar. Sem café da manhã, sem almoço, sem barras de cerais ou chocolates. Esta história me soaria como absurda, pois ela afronta a matemática mais básica em termos de calorias ingeridas menos calorias consumidas.

Na minha família, não comer fartamente em uma refeição era sinal de doença. Gordinhos ou fortinhos eram consideráveis o ideal de saúde, algo como um padrão de beleza proveniente dos quadros de Rubens. Foi uma geração que ainda ouvia ecos de escassez. Pragas, secas, pestes, guerras, problemas graves na distribuição e armazenamento de alimentos, explicavam porquê o indivíduo com sobrepeso estava alçado a uma condição de superioridade material nos grupos sociais.

É muito provável que estas pessoas suportassem até melhor os períodos de escassez, que eram a regra, e por isso, tivessem alguma vantagem evolutiva. A correlação entre dietas com restrição calórica e menor índice de massa corpórea, com maior longevidade e menor risco de câncer, diabetes e doenças cardiovasculares, é uma questão relativamente recente.

A relação entre câncer e massa corpórea

No caso especifico do câncer, os estudos associando índice de massa corpóreoe risco para câncer datam dos anos 70 e 80, mas com metodologias muito questionáveis. Eu aprecio, especialmente, os estudos realizados em pessoas portadoras de mutações genéticas que predispõe a câncer. Estas pessoas, como têm um risco elevado de câncer em um futuro mais próximo que a população geral, são candidatos excelentes a experimentos que avaliam o efeito de certos hábitos no desenvolvimento da doença.

Um estudo holandês e um britânico recentes em portadoras de mutação em BRCA1 e 2 (mesma mutação da atriz Angelina Jolie), mostram uma redução de um terço no risco de câncer em indivíduos com peso levemente abaixo ou igual ao IMC esperado. Infelizmente, estes estudos não separam o impacto do aspecto dietético daquele que poderia ser conferido pela atividade física. O que nos parece muito claro hoje é que adicionar fatores de risco genéticos ou ambientais com sobrepeso não parece uma boa combinação no que se refere a câncer.

Os estudos que avaliaram puramente a restrição calórica com risco para câncer são abundantes em animais. E, apesar de dados muito confusos, há uma certa concordância entre pesquisadores (e eu mencionaria uma meta-análise de 2014 que reúne centenas de estudos publicada no periódico on-line PLOS One) , que o risco de câncer reduz-se bastante em animais subalimentados do que naqueles superalimentados.

Restrição calórica e longevidade

No que diz respeito à longevidade, a questão ainda é mais curiosa e um artigo publicado em um periódico obscuro há alguns dias levanta uma hipótese muito interessante, que poderia explicar esta misteriosa associação com dietas restritivas crônicas e inesperados índices da saúde. Agradeço ao geneticista Ricardo di Lazzaro, que me passou a reportagem onde consta a referência deste artigo, bastante lúcida cientificamente e bem escrita no site MedicalXpress.

A hipótese dos pesquisadores de Oklahoma é que indivíduos que se alimentam menos guardariam uma “memória” menor de fome. Esta memória de fome e de uso de diversos componentes calóricos passaria por uma modificação genética promovida pelo próprio ambiente. Algo que chamamos de epigenética. Certos genes responsáveis por ativação de queima calórica fornecida por carboidratos, por exemplo, aliados a outros genes que ativam memória de fome ou saciedade, são completamente reprogramados por meio de mudança de comportamento dietético.

O experimento, para variar, foi feito apenas em camundongos, mas pode nos dar uma pista bem plausível do porquê Mr Herschel Walker, ou minha irmã, ou ainda os gurus hindis conseguiriam manter-se tão saudáveis com dietas tão tristes e cinzentas para um aficionado por comida como eu.

Efeito genético

Os camundongos mantidos em dietas restritivas tiveram seu perfil genético analisado de forma periódica e alguns genes, especialmente o gene do receptor da neurotensina 1, foram detectados em níveis progressivamente elevados. Genes como a neurotensina 1 têm efeitos diferentes em muitas células, mas no cérebro, estes genes são importantes reguladores no hipotálamo, um local-chave para o controle das sensações de fome e saciedade e de processos metabólicos do organismo.

A neurotensina, por exemplo, baixa os níveis de pressão arterial, aumenta os níveis de glicose no sangue e reduz a temperatura corporal. Os autores do trabalho documentaram que nos camundongos em dieta, a regulação genética da neurotensina estava modificada e um excesso desta proteína estava sendo produzida. Os níveis da produção de neurotensina são normalmente mantidos baixos por meio de um processo químico chamado de metilação. Os camundongos jejuadores desmetilam o gene da neurotensina, liberando a sua atividade.

O resultado disso é que estes camundongos adequam-se a dietas cada vez menos calóricas e perdem a memória da fome, o que talvez tenha sido o maior motor de nossa sobrevivência como sapiens sapiens. Em uma era nunca vista de prolongada abundância de calorias de fácil utilização como a nossa, a manutenção dos níveis de neurotensina, entre outros programas genéticos que estimulam a busca constante de nutrientes, talvez seja uma das explicações do aumento dos casos de obesidade e secundariamente, de câncer.

O que nos resta dessa história? Pesquisadores de Vale do Silício, dentro de um projeto chamado Encode, já estão buscando entender melhor sobre como modificar a nossa programação genética, ou epigenética, para poder explicar sobre o efeito de padrões de vida sobre nosso DNA e no futuro desenvolver drogas capazes de tratar doenças produzidas pelo ambiente por meio da manipulação desta programação genética.

Eu espero ardentemente que este dia chegue logo, pois não consigo imaginar minha vida com menos de 2 000 calorias por dia. Para os que conseguem, pode ser uma experiência no mínimo interessante, até de auto-controle, em tempos de abundância.

Ainda que difícil de acreditar, há muitas pessoas que conseguem manter atividades físicas particularmente intensas sem grandes ingestas calóricas, e não precisamos procurar um mosteiro hinduísta para vermos estes casos. Minha irmã, por muitos anos, se alimentou de caldo de feijão duas vezes ao dia, e apenas caldo de feijão, sem perder nenhuma balada noturna. Décadas depois, ela segue com uma dieta frugal e apresenta no seu fichário médico apenas problemas de saúde relacionados ao excesso de atividade física mal supervisionada e acidentes domésticos.

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Saúde

Remédio de anticorpos reduz hospitalização de pacientes com covid-19

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A farmacêutica Eli Lilly and Co. anunciou que o remédio melhorou o quadro dos pacientes com covid-19 moderada

O estudo de estágio intermediário da farmacêutica testou três doses diferentes do LY-CoV555 (dowell/Getty Images

A Eli Lilly and Co. disse nesta quarta-feira que dados provisórios de testes mostraram que seu tratamento experimental de anticorpos diminuiu a necessidade de hospitalização e de visitas ao pronto-socorro de pacientes com covid-19 moderada

O estudo de estágio intermediário da farmacêutica testou três doses diferentes do LY-CoV555, um tratamento de anticorpos concebido para reconhecer e se atrelar ao novo coronavírus, com isso impedindo que a infecção se espalhe.

Analistas acreditam que os tratamentos de anticorpos podem ajudar alguns pacientes, já que a distribuição ampla de candidatas a vacina contra o coronavírus deve ser demorada.

Muitas empresas, como Regeneron Pharmaceuticals Inc. e Vir Biotechnology, também estão testando tratamentos de anticorpos contra a covid-19. Tais remédios são os primeiros a ser criados especificamente para combater a doença causada pelo coronavírus.

Do total de 302 pacientes tratados com três doses diferentes do LY-CoV555, cinco deles, ou 1,7%, tiveram de ser internados ou visitar um pronto-socorro — com o placebo, foram nove de 150, ou 6%, disse a Lilly.

Só a segunda dose de 2.800 miligramas atingiu o principal objetivo do teste, que era reduzir a carga viral detectada em pacientes na comparação com um placebo 11 dias após o tratamento, informou a Lilly.

Não se relatou nenhum efeito colateral grave nem mortes no teste.

A Lilly disse que espera publicar os resultados da análise preliminar em um periódico submetido ao crivo da comunidade científica e debater os próximos passos apropriados com agências reguladoras globais.

A farmacêutica disse que o teste em andamento já recrutou 800 pacientes com casos de covid-19 entre branda e moderada. O estudo também está testando o LY-CoV555 combinada com outro tratamento de anticorpos, o LY-CoV016.

Os anticorpos, administrados por infusão intravenosa, também estão sendo testados para evitar a covid-19 em moradores e funcionários de instalações de cuidados de saúde de longo prazo e para tratar pacientes já hospitalizados por causa da covid-19.

As ações da Lilly subiram 1,3% e chegaram a 152 dólares antes mesmo da abertura do pregão.

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Saúde

Cientistas questionam vacina da Rússia contra covid-19: “dados estranhos”

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Carta aberta escrita por 27 cientistas aponta inconsistências nos dados apresentados sobre a vacina “Sputnik V”

Cientistas questionam vacina da Rússia contra covid-19: “dados estranhos” (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)

Há um mês, o maior problema da vacina da Rússia contra o novo coronavírus era a falta de estudos sobre ela, o que aumentava a desconfiança da comunidade científica. Os resultados preliminares divulgados na última sexta-feira, entretanto, continuam a causar estranheza e desconforto em diversos cientistas.

Em uma carta aberta ao editor da prestigiada revista científica The Lancet, onde os resultados foram publicados, 27 cientistas afirmaram que os dados são incompletos e que a pesquisa tinha alguns “padrões improváveis”. “Enquanto a pesquisa descrita no estudo é potencialmente significativa, a apresentação dos dados levanta várias preocupações que necessitam que consigamos todos os dados para investigar”, explicam os autores da carta.

Os cientistas também afirmam que faltam dados númericos originais na publicação e que “não se pode tirar conclusões em relação à confiabilidade dos dados apresentados, especificamente sobre as aparentes duplicidades detectadas”.

Um dos exemplos das duplicidades encontradas pelos cientistas é que 9 de 9 voluntários parecem ter anticorpos idênticos nos dias 21 e 28 da primeira vacina do Instituto Gamaleya administrada nos voluntários. Na segunda versão testada, os anticorpos de 7 de 9 voluntários também é igual.

A vacina teve duas fases pequenas de 42 dias — uma delas estudou uma formulação congelada e a outra uma versão desidratada da vacina. O que foi descoberto, segundo o estudo, é que a vacina congelada é melhor para ser produzida em larga escala e preencher os estoques globais, enquanto a segunda opção é melhor para regiões de difícil alcance.

A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus.

É por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima.

Segundo a agência de notícias Reuters, um diretor do instituto que está desenvolvendo a “Sputnik V” afirmou que “os resultados publicados são autênticos e precisos e foram examinados por cinco revisores na The Lancet“.

O grupo de cientistas também escreveram na carta que os autores do estudo “não especificaram características suficientes sobre os pacientes convalescentes usados como um controle para a avaliação da resposta humoral” (resposta do sistema imune mediada por anticorpos). “Como eles foram iguais em diferentes grupos de voluntários? Desde que existem vários pacientes convalescentes no grupo de controle que aparentemente também não possuem anticorpos neutralizantes, é crucial saber quando o plasma foi coletado — para cada paciente, quanto tempo passou para que os sintomas e a negativação do teste acontecesse?”, questionam os autores da carta.

Em entrevista à emissora americana CNBC, o professor e um dos cientistas que assinaram a carta, Enrico Bucci, da Universidade Temple, nos Estados Unidos, afirmou que a falta de dados completos no estudo se deu pela “pressa de publicar coisas importantes” e que “no mundo todo existe uma pressão para que cientistas falem o que estão fazendo antes de estarem prontos”.

Bucci também fez uma comparação entre os resultados preliminares divulgados pela universidade de Oxford e a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca em relação a sua vacina. “Nesse caso os autores disponibilizaram 128 páginas de materiais sumplementares para os pares revisarem. Se você compara os dois estudos, você vê que algo está faltando no russo”, explicou.

No mês passado a Rússia foi o primeiro país a registrar uma vacina contra o coronavírus no mundo, apesar da desconfiança global causada pela falta de estudos que comprovassem a eficácia da proteção.  Também em agosto, o país informou que promoverá uma vacinação em massa já em outubro deste ano. No ínicio desta semana, a vacina russa começou a ser distribuída mesmo sem passar por todos os testes clínicos necessários para a sua aprovação.

Mais de 20 países já fizeram pedidos de mais de 1 bilhão de doses da vacina russa, mesmo com a preocupação da comunidade científica. Segundo o presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Jorge Callado, a “Sputnik V” deve chegar ao Brasil em 2021.

Um movimento parecido está sendo ensaiado pelo presidente americano Donald Trump, que afirmou recentemente que uma vacina contra o vírus pode estar disponível já em outubro. “Teremos em breve essa incrível vacina, com velocidade nunca vista antes”, disse ele. “A vacina será muito segura, muito efetiva, e as pessoas do mundo estarão felizes e voltaremos à prosperidade sem precedentes”, continuou.

Uma possível vacinação já em outubro ou no começo de novembro também foi ventilada em documentos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano. Segundo reportou a imprensa americana, o órgão enviou aos estados uma ordem para que “preparem locais e equipamentos para uma vacinação em massa já no mês que vem”. Se confirmada, a data pode ser antes das eleições presidenciais americanas, em 3 de novembro.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina. Até o momento, nenhuma situação do tipo aconteceu.

 

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Saúde

Até a vacina ficar pronta, os anticorpos da covid-19 serão o suficiente?

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Diferença entre uma vacina e um eventual tratamento com base em anticorpos é grande — e ambos têm papel essencial para estancar pandemia

Coronavírus: anticorpos podem proteger contra a doença? (KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Uma vacina pode demorar cerca de 10,7 anos para passar por todos os testes clínicos necessários até a sua aprovação e distribuição a uma determinada população. Há nove meses o mundo enfrenta a pandemia do novo coronavírus, que já deixou quase 900 mil mortos segundo o monitoramento em tempo real da universidade americana Johns Hopkins — e a perspectiva de esperar mais tempo do que isso parece ser pedir demais para a saúde pública e as economias no mundo todo, mas, ainda mais prejudicial do que a espera, pode ser a pressa para uma vacina que não tenha sua eficácia e segurança comprovadas. Até lá, tratamentos com base em anticorpos e plasma serão capazes de frear a situação?

São vários os estudos que procuram entender melhor como funciona a criação de anticorpos da covid-19, por quanto tempo eles duram e se é possível (realmente) criar uma imunidade à doença sem uma vacina.

Nos Estados Unidos, o Food and Drug Administration (FDA), espécie de Anvisa americana, aprovou o uso emergencial de plasma no tratamento do coronavírus. Até o dia 24 de agosto, cerca de 70 mil pessoas foram tratadas com os anticorpos encontrados em amostras sanguíneas de pessoas que se recuperaram da doença — tanto em testes quanto em indivíduos com quadros graves. Segundo o órgão, o tratamento demonstrou bons resultados em testes iniciais — apesar disso, novos testes precisam ser feitos para confirmar a eficácia dele.

Para o doutor Celso Granato, infectologista e diretor clínico do grupo Fleury, os dados em relação ao tratamento por plasma são controversos. “Isso está relacionado que você só utilizar anticorpos de uma forma muito aleatória ainda é muito pouco. Não existe uma unidade internacional para avaliar a concentração desses anticorpos e nem contra quais pedaços do vírus eles são produzidos”, conta.

Granato explica que os anticorpos por si só não o suficiente para impedir uma infecção. Isso porque, além deles, é preciso que o corpo tenha uma resposta imune ao vírus. “Sabemos que os anticorpos têm uma curva, alguns são produzidos logo no ínicio da doença, enquanto outros são produzidos mais posteriormente, mas teve gente que teve a doença em fevereiro e março que ainda os tem. Mas eles são apenas uma parte da proteção. Nossa resposta imune é muito mais complexa. Quando você tem uma infecção, você os produz, mas também tem uma resposta imunológica que costuma ser muito mais eficiente na defesa do que a resposta dos anticorpos — e é um trabalho conjunto, um ajuda o outro. Mas sempre fazemos as duas respostas”, afirma.

E a diferença entre uma vacina e um eventual tratamento com base em anticorpos é grande. “A vacina será usada para induzir a formação de anticorpos e uma resposta imune celular no indivíduo. Já os anticorpos serão dados para quem já está infectado a fim de tentar minimizar os efeitos da doença”, diz. Granato também acredita que as chances de as duas coisas (um tratamento para os doentes e uma vacina) serem aprovadas para o uso ao mesmo tempo são altas.

Uma pesquisa sobre a resposta do sistema imune em relação à covid-19 aponta que, mesmo sem a produção de anticorpos contra o vírus, um indivíduo pode produzir células capazes de destruir a doença em casos de reinfecção — os chamados linfócitos T, células reativas que ajudam o organismo na defesa de infecções.

O estudo encontrou linfócitos T “robustos” em casos de pessoas que tiveram quadros leves, graves ou assintomáticos da covid-19. Segundo os pesquisadores suecos, a memória das células do corpo humano são prováveis de “desenvolver uma proteção imune duradoura ao vírus”, mesmo quando as pessoas não produzem anticorpos contra a doença. Para chegar a essa conclusão, foram analisados os casos e amostras sanguíneas de 206 moradores da Suécia.

Outra pesquisa, feita com base em um vírus semelhante por pesquisadores de Singapura, informa que a proteção contra o vírus podem ser “lembrada” por anos pelo organismo humano. As células T, por exemplo, ainda estão ativas contra o vírus Sars (também da família coronavírus) 17 anos depois da infecção.

Do outro lado, cientistas também tentam encontrar formas de transformar nanocorpos em tratamentos viáveis contra o SARS-CoV-2.

Recentemente, pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, encontraram um nanocorpo em alpacas que pode prevenir infecções do vírus em humanos. Segundo os pesquisadores, o nanocorpo tem o “potencial de ser desenvolvido como um tratamento antiviral” para a doença e apresenta vantagens sobre os anticorpos considerados convencionais, como o fato de ser 10 vezes menor e mais fácil de produzir em larga escala.

O que se pode concluir é que até termos uma vacina não existe uma proteção capaz de evitar o contágio pelo vírus — mas usar máscaras podem ajudar a evitar o espalhamento da doença. O caminho, ainda, é longo.

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Saúde

Vacina da tuberculose será testada contra covid-19 no Brasil

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Teste será comandado pela Fiocruz e recrutará 3 mil pessoas. Estudo pretende entender se a BCG é eficaz na prevenção do novo coronavírus

Vacina: BCG será testada no Brasil contra o novo coronavírus (SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Em mais uma tentativa para frear a pandemia, a vacina da tuberculose (BCG) será testada no Brasil contra o novo coronavírus. Os testes de fase 3 (a última parte dos testes clínicos) serão realizados em 3 mil voluntários brasileiros da área da saúde, comandados pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o instituto australiano Murdoch Children’s Research Institute.

A hipótese que os cientistas pretendem provar tem como base estudos científicos prévios que mostraram que a BCG foi capaz de induzir uma resposta imune viral nos participantes (crianças e idosos) que a utilizaram. Nas crianças, por exemplo, a vacina contra a turbeculose foi capaz de prevenir infecções virais de um ano a um ano e seis meses. Vale lembrar que as pesquisas citadas não foram testadas na covid-19.

Os testes no Brasil estão previstos para começar em outubro e devem durar por até um ano. O acompanhamento dos voluntários será feito semanalmente pelo período de duração dos testes. Todos os voluntários envolvidos também serão testados com frequência para saber se contraíram ou não o SARS-CoV-2. Os dados iniciais do estudo devem ser divulgados no primeiro trimestre de 2021.

“Em relação às novas vacinas de covid que estão em desenvolvimento, temos mais segurança por usarmos uma vacina que já é amplamente conhecida e difundida no mundo”, explica Julio Croda, um dos coordenadores dos testes no Brasil. Croda também afirma que os testes serão realizados em idosos acima de 70 anos, visando a segurança da BCG.

A BCG será testada como forma de proteção contra o vírus em 10 mil pessoas no total. Outos três mil voluntários foram recrutadas na Austrália e o restante será dividido entre o Reino Unido, a Espanha e a Holanda. “O que buscamos é ter uma alternativa e avaliar uma vacina que é conhecida. Sabemos que existem vacinas específicas para a covid-19, mas não sabemos em quanto tempo elas serão fornecidas para a população”, diz. “É uma alternativa que será testada e que se, no momento da finalização do estudo, não tivermos outra opção, ela pode ser uma proposta de proteção por algum tempo.”

Visto que a vacina tem uma duração de pouco mais de um ano contra alguns tipos de vírus, não significa que porque um indivíduo já foi vacinado com a BCG que ele não será infectado nunca mais por doenças virais — uma vez que a proteção é normalmente dada durante a infância. A vacina da BCG é inespecífica no caso da covid-19, mas ainda assim eficaz contra a tuberculose.

Croda faz um alerta e lembra que não existe recomendação para que a população se vacine com a BCG imediatamente. “É importante ressaltar que é um estudo que, ainda, não tem nenhuma evidência científica de que realmente funciona contra o vírus que estamos enfrentando atualmente”, diz.

O estudo tem apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS) e é financiado pela a Fundação Bill & Melinda Gates.

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Saúde

Síndrome associada à covid-19 já atingiu 197 crianças no Brasil

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Maioria das vítimas da a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica tem menos de 10 anos

Óbitos notificados foram registrados em oito estados (KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Pelo menos 197 crianças e adolescentes brasileiros apresentaram, até o fim de agosto, uma série de problemas de saúde que, juntos, podem caracterizar uma nova doença potencialmente associada a covid-19, a Síndrome Inflamatória Multissistêmica Pediátrica.

De acordo com o Ministério da Saúde, do total de crianças, 140 tinham menos de 10 anos no momento em que adoeceram. Ainda segundo a pasta, a síndrome pode ter causado a morte de pelo menos 14 pacientes com idades entre 0 e 19 anos no período de maio a agosto deste ano.

Os óbitos notificados foram registrados em oito estados: Pará (3); Rio de Janeiro (3); Ceará (2); Paraíba (2); Bahia (1); Pernambuco (1); Piauí (1); e São Paulo (1). A coordenadora de Saúde da Criança e Aleitamento Materno, Janini Ginani, lembrou que as mortes em questão estão “sob investigação”, já que várias outras síndromes podem se sobrepor, dificultando o diagnóstico.

Segundo o último balanço, até o dia 26 de agosto, o maior número (41) de notificações da nova síndrome vinha do Ceará. Em seguida estão Pará (24); Rio de Janeiro (22); Distrito Federal (19); São Paulo (19); e Bahia (11). Também foram registrados casos em Alagoas (9); Espírito Santo (8); Minas Gerais (5); Paraíba (6); Pernambuco (9); Piauí (6); Rio Grande do Norte (9); e Rio Grande do Sul (9).Ontem (8), entretanto, o governo de Pernambuco anunciou que os casos da síndrome no estado já somam 16, incluindo uma morte.

Ontem (8), entretanto, o governo de Pernambuco anunciou que os casos da síndrome no estado já somam 16, incluindo uma morte.

Monitoramento

Embora se caracterize por sintomas diversos, a síndrome está frequentemente associada à febre persistente, acompanhada de pressão baixa, conjuntivite, manchas no corpo, diarreia, dor abdominal, náuseas e vômitos, entre outros. Em alguns casos, o paciente pode desenvolver também sintomas respiratórios e disfunção cardíaca. Além disso, há sempre uma marcante atividade anti-inflamatória do organismo.

Os primeiros casos da nova síndrome começaram a ser registrados na Europa em abril deste ano. Os relatos logo se multiplicaram, motivando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a emitir um alerta para chamar a atenção de pediatras de todo o mundo.

Em 20 de maio, o ministério divulgou, em parceria com as sociedades brasileiras de Pediatria e de Reumatologia, um primeiro comunicado sobre o assunto. A pasta pedia atenção dos profissionais de saúde para que a síndrome fosse identificada rapidamente. Os sintomas, entretanto, podem ser confundidos com os de outras síndromes, como a de Kawasaki.

No dia 24 de julho, quando o país registrava 71 casos confirmados de covid-19 e três mortes, o ministério implantou um sistema de monitoramento nacional da síndrome por meio de formulário disponível no sistema oficial de comunicação da pasta.

Na semana passada, ao participar de uma reunião da Comissão Externa de Enfrentamento a Covid-19, do Senado, o diretor do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, do Ministério da Saúde, Antonio Rodrigues Braga Neto, destacou a necessidade de se “qualificar o atendimento às crianças”, esclarecendo que a notificação, apesar de importante, não é obrigatória.

“Ainda não temos a notificação compulsória. O que temos é uma recomendação”, disse Neto. “Entendemos que a notificação compulsória é uma ferramenta de interesse epidemiológico que facilitará a análise destes casos”, acrescentou o diretor, enfatizando que, mundialmente, ainda há muitas dúvidas sobre a síndrome.

“É uma doença nova, muito recente. O que temos que garantir é a capilaridade das informações. [Garantir] que uma criança que chegue à atenção primária com febre há três dias e algum dos outros sintomas, como náusea, cefaleia ou conjuntivite, e que apresente alterações laboratoriais tendo a sepse sido excluída seja encaminhada para uma atenção especializada.”

Durante a reunião, a coordenadora de Saúde da Criança e Aleitamento Materno, do Ministério da Saúde, Janini Ginani, ressaltou que a maioria das crianças e adolescentes acometidos pela síndrome é do sexo masculino, possui entre 0 e 9 anos e não tinha doenças crônicas pré-existentes.

“Os casos têm sido mais prevalentes na faixa etária até 10 anos de idade. Entre as crianças de 0 a 4 anos, 41 eram do sexo masculino e 34, do feminino. Já entre as de 5 a 9 anos, foram 39 e 26, respectivamente”, detalhou Janini.

“Temos visto uma dificuldade com relação à discriminação desses casos. O que, possivelmente, é uma sepse sendo notificada como uma Síndrome Inflamatória Multissistêmica. Estamos tentando separar essas causalidades; aprimorar a vigilância para entender como essa síndrome tem se desenvolvido no país, qualificando também a vigilância e [o registro] de óbitos.”

UTIs

Pesquisador do Instituto D’OR de Pesquisa e Ensino e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o pediatra Arnaldo Prata apresentou, durante a reunião, dados de um estudo feito com 79 crianças e adolescentes internados em 19 unidades de terapia intensiva (UTIs), públicas e privadas, de cinco estados (BA; CE; PA; RJ e SP).

Para ele, embora o número de casos da síndrome seja pequeno, é preciso estar alerta, já que 87% das crianças internadas em UTIs testaram positivo para covid-19. Destas, 13% apresentaram um quadro clínico associado à síndrome.

“Ou seja, entre crianças de 0 a 19 anos, a doença inflamatória multissistêmica pode acometer de 10% e 15% das que adoecem e que precisam ser internadas devido a covid-19”, enfatizou Prata.

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Saúde

Contrato para produção da vacina de Oxford no Brasil não sofrerá alteração, diz Ministério da Saúde

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Documento foi assinado digitalmente e prevê a transferência da tecnologia para a Fundação Oswaldo Cruz.

Foto ilustrativa de seringa com vacina contra o coronavírus — Foto: Andre Melo Andrade/Estadão Conteúdo

O Ministério da Saúde informou nesta quarta-feira (9) que o contrato para produção da vacina de Oxford no Brasil não sofrerá alteração. Os testes da vacina foram suspensos temporariamente em todos os centros de pesquisa após um paciente no Reino Unido apresentar reação que pode ou não estar vinculada à vacina.

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sábado, 19 de setembro de 2020

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