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Proteja-se contra o coronavírus: que cuidados ter com encomendas e prestadores de serviço que chegam à sua casa

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Delivery é melhor opção que a ida às ruas, mas especialistas recomendam atenção com fornecedores e higienização dos produtos que vêm de fora

O dia a dia do isolamento para quem pode ficar em casa, evitando a disseminação do coronavírus, é repleto de dilemas: se acabou a comida e não dá para cozinhar em casa, é seguro pedir que um restaurante entregue? É melhor ir ao mercado, à padaria e à farmácia ou encomendar os itens que faltam? Como minimizar os riscos do delivery? E o que fazer se, mesmo diante da consciência de se suspenderem obras e serviços não essenciais no momento de pandemia, não der para esperar aquele reparo na parte elétrica ou hidráulica e outros ajustes emergenciais?

Para especialistas de plantão, as ordens do dia nesse contato inevitável com o mundo externo são manter a tranquilidade, ajustar o ideal à realidade possível, ter boas práticas de comportamento para garantir a própria segurança e, sobretudo, usar o bom senso:

— É importante trabalhar com o conceito de risco versus benefício. Em geral, em casos como os de obras urgentes, por exemplo, o risco potencial de contato com o coronavírus é bem menor do que o benefício alcançado com o serviço prestado — explica o médico infectologista Paulo Santos, consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).

O médico recomenda que se tenham, nesses casos, alguns cuidados preventivos básicos, como suspender a visita se o colaborador apresentar sintomas gripais e pedir que ele higienize as mãos logo ao chegar à sua casa. E solicitar o uso de máscara cirúrgica e limpar todo os cômodos pelos quais ele circulou, depois? Para Paulo Santos, é exagero.

Na linha do “mais segurança, menos desespero ou exagero”, algumas práticas podem ser incorporadas à rotina. Sim, o delivery é uma boa opção a sair e se expor nas ruas. Cuidando da limpeza frequente das mãos — não levando-as a olhos e boca —, mantendo a distância de mais de um metro dos colaboradores e certificando-se da seriedade do trabalho de fornecedores e prestadores de serviços, dá para seguir os próximos dias em segurança.

— É claro que não tem como visitar os lugares para ver como o alimento está sendo preparado, mas procurar empresas em que você confia e que tenha boas referência no mercado, neste momento, é importante — diz Cristiane Almeida, chefe do serviço de Nutrição do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz).

Há mais de dez anos trabalhando no instituto, Cristiane lida diariamente com a orientação de cuidados severos com os alimentos para se evitar infecções hospitalares. Tais “boas práticas”, dispostas na Resolução 216, de 2004, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), valem para restaurantes e outros provedores de serviços de alimentação, propondo atenção a condições higiênico-sanitárias desses serviços.

— No caso de alimentos, os riscos de contaminação e infecção se dão em todas as etapas, do preparo à entrega, por isso a atenção deve ser redobrada — afirma Cristiane. — Tudo isso que agora estamos reforçando para toda a população é o que sempre recomendamos a esses prestadores de serviços. Todo nutricionista é um pouco educador.

Dicas para se proteger ao receber encomendas ou serviços de colaboradores:

Busque empresas legalmente registradas, que você já conhece e com boas referências no mercado. Se o restaurante ou prestador de serviços está divulgando boas práticas neste momento, bom sinal.

Organize as compras e reduza ao essencial o número de saídas, entregas e visitas de pessoas de fora. Programe-se para ter comida, remédios e artigos de primeira necessidade em casa, mas evite o exagero e o desperdício.

Precisa que alguém monte o berço do seu filho que vai nascer? Estourou um cano e não pode aguardar para que o reparo seja feito? Não se desespere. Evitar obras e visitas no momento é o recomendado, mas algumas são emergenciais e necessárias. Use o bom senso e cuide para que elas se deem de forma segura.

Se você morar em prédio e precisar fazer uma obra em sua unidade privativa, informe-se com o síndico do condomínio as regras a serem adotadas para uso do espaço em comum neste momento de pandemia. Cuide para que o prestador de serviço circule o mínimo possível por espaços coletivos e adote as medidas de higiene e outros cuidados para manter todos em segurança.

Se o prestador de serviço visitante estiver com sintomas gripais, não prossiga com a visita. Para pessoas sem sintomas, ofereça a higienização das mãos com água e sabão ou álcool em gel e permita o acesso.

Evite proximidade menor que um metro do colaborador.

Tanto para compras como para contratação de serviços, dê preferência ao pagamento prévio, pelo aplicativo ou site. Se não houver esta possibilidade, pagar com cartão é melhor que em dinheiro.

Ao receber produtos em casa, evite contato com o entregador. Se houver um local em que ele possa deixar as compras para que depois você pegue, melhor. Alguns aplicativos de entrega têm oferecido esta opção de distanciamento do cliente.

Estudos apontam para risco mínimo de contaminação de superfícies como de correspondências e de jornais impressos, por seu papel poroso. Especialistas recomendam os mesmos cuidados do cotidiano, como lavar as mãos com água e sabão após a leitura do jornal.

Lave frutas, legumes e verduras, pois você não sabe como eles foram manipulados. Lave-os, um a um, em água corrente e depois deixe-os de molho em uma solução de hipoclorito.

Se você não tem certeza dos cuidados de seu preparo e manipulação por parte do fornecedor, evite pedir refeições com alimentos crus e mal cozidos. Não é para tirar saladas cruas do cardápio, mas se você não pode prepará-las em casa, é bom certificar-se de que houve atenção em sua elaboração.

Em caso de delivery de refeições, higienize a embalagem externamente e a coloque sobre uma superfície limpa. Lave as mãos com água e sabão, tire o alimento de sua embalagem original e o coloque em outra, de casa. Descarte a embalagem original em um lixo bem lacrado e lave as mãos novamente, antes de se alimentar.

Fontes: Cristiane Almeida, chefe do Serviço de Nutrição do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz), e Paulo Santos, médico infectologista

 
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Após redução de óbitos, Ceará e Amazonas têm planos de reabertura

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Amazonas tem 33 mil casos confirmados da doença e 1.891 mortes; comércio reabrirá gradualmente a partir do dia 1º de junho

Enterro em Manaus: no auge da crise, Manaus enfrentou dificuldades para atender pacientes (Bruno Kelly/Reuters)

Após redução no número de óbitos por covid-19 em Manaus, o governador do Amazonas, Wilson Lima (PSC), afirmou que o comércio reabrirá gradualmente a partir do dia 1º de junho. No interior, que concentra 54% dos casos de coronavírus do Amazonas a decisão ficará sob critério das prefeituras.

Lima já havia antecipado, no domingo, a retomada do comércio porque, segundo ele, “a vida precisa voltar à normalidade”. Mas em coletiva à imprensa na terça-feira esclareceu que a suspensão das medidas restritivas dependeria da curva de casos do novo coronavírus – caso contrário, o Estado retrocederia com a decisão. O decreto que permite apenas serviços essenciais vai até o dia 31 de maio.

“Tem havido número menor de óbitos e isso tem diminuído ao longo dos últimos 15 dias. Temos um aumento de casos, mas um número alto também de recuperados. Temos mais de 23 mil recuperados. A gente consegue enxergar uma luz no fim do túnel. Todas as decisões de reabertura do comércio estão condicionadas à essa curva.”

Para o infectologista Marcus Lacerda, o momento pede equilíbrio. “É uma decisão complicada. Acho que deve haver meio-termo. Voltar aos poucos com cuidado e acompanhar de perto. Não podemos juntar dados do Amazonas com Manaus; as mortes na capital caíram. Abertura total não pode, nem fechamento total. O comércio de Manaus nunca fechou de fato, apenas uma mínima parcela.”

O Amazonas tem 33 mil casos confirmados da doença e 1.891 mortes. No auge da crise, Manaus enfrentou dificuldades para atender pacientes no sistema público de saúde – profissionais também se queixaram da falta de equipamentos básicos e muitos acabaram contaminados pelo coronavírus.

Ceará

O governador do Ceará, Camilo Santana (PT), também afirmou que pretende iniciar a abertura da economia no Estado a partir da próxima segunda-feira. A retomada será feita considerando indicadores de saúde, com orientações aos municípios de acordo com a incidência do coronavírus em cada região.

O plano de reabertura deve ser divulgado oficialmente nesta semana e foi elaborado em conjunto com as equipes econômica e de saúde. Como uma das justificativas, o governador citou a tendência de estabilização no número de casos da capital, Fortaleza, a terceira cidade do País a implementar o “lockdown”.

A capital cearense ainda encontra dificuldades em se fazer cumprir a determinação. Mais de 2.600 ocorrências por descumprir isolamento social rígido foram registradas até segunda-feira, 25. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

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Como fica a reabertura na capital paulista, epicentro do coronavírus

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Prefeito Bruno Covas anuncia hoje os prazos de protocolos sanitários para liberação das atividades em meio à pandemia da covid-19

São Paulo: plano de flexibilização anunciado ontem (27) trouxe definições divergentes para a capital (Eduardo Frazão/Exame)

Um dia depois de participar do anúncio da “retomada consciente” das atividades de São Paulo, o prefeito Bruno Covas (PSDB) detalha nesta quinta-feira, 27, os planos para reabertura da economia da capital, hoje restrita por conta da pandemia do novo coronavírus.

Após uma semana de incertezas se haveria endurecimento ou flexibilização da quarentena na cidade de São Paulo, o plano trouxe definições divergentes para a capital, que precisam de esclarecimento por parte da equipe do prefeito.

O governo estadual definiu fases para a reabertura das atividades dos municípios. O sudoeste do estado, que compreende as regiões de Registro, Grande São Paulo e Baixada Santista, foi o único que não terá nenhum tipo de flexibilização. As três regiões estão com a curva de infecção em ascensão e, por isso, permanecerão com medidas de isolamento pelo menos até 15 de junho.

A capital fica localizada no meio dessas áreas, e diariamente recebe trabalhadores de todos os municípios adjacentes. As autoridades de saúde, contudo, estabeleceram que a cidade de São Paulo está na fase dois do plano de retomada, que permite, com restrições, a reabertura de shoppings center, comércio, escritórios, imobiliárias e concessionárias.

A cidade de São Paulo é considerada o epicentro nacional da covid-19. No início do mês, havia uma pressão de Covas para decretar lockdown e evitar o colapso nos hospitais, que estão com capacidade de lotação de leitos de UTI em 90%.

Ontem, a capital bateu a marca de 50 mil infectados, que corresponde a 58% de todos os casos confirmados no estado, e 3,4 mil óbitos, 50% do total. Segundo a equipe de saúde, a taxa de contágio está em 1,1, ou seja, cada indivíduo infectado transmite o coronavírus para mais 1,1 pessoa, mas médicos já questionaram essa conta, alegando falta de transparência nos dados.

Questionado se haveria efetividade em relaxar o isolamento na capital apesar dos índices da doença, Covas disse que os serviços não serão liberados na segunda-feira, 01, mas sim só depois de autorização dos protocolos pela vigilância sanitária, o que deve demorar algumas semanas.

“Nós vamos explicar de que forma, a partir de quando, os setores vão poder apresentar à prefeitura os seus protocolos, que serão validados pela vigilância sanitária do município, assinados com o prefeito da cidade, para que eles possam retomar a sua atividade econômica”, disse Covas na coletiva sobre a coletiva de hoje, que está marcada para 12h

De forma prática, é provável que nada mude para a capital nas próximas semanas. Para Covas, que pleiteia a reeleição, já começar a mobilizar a retomada econômica, mesmo com índices preocupantes da covid-19, é uma estratégia arriscada.

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Médicos deixam hospital de campanha no Rio alegando “falta de condições”

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Funcionários dizem que gestão não funciona e reclamam de atraso em procedimentos como resultados de exames e encaminhamento de declaração de óbito

Coronavírus: Hospital de Campanha do Maracanã oferecerá 400 leitos para pacientes com covid-19 (Alessandro Dahan/Getty Images)

Mesmo considerando toda anormalidade numa situação de pandemia de coronavírus, as condições de trabalho no Hospital de Campanha do Maracanã, estão longe das ideais, relatam profissionais da unidade. Por causa das dificuldades com insumos e falhas na gestão dos trabalhos, de administração da Organização Social (OS) Iabas, um dos alvos da Operação Placebo, muitos médicos estão pedindo demissão. Nesta terça, funcionários citaram seis demissionários ao GLOBO e uma médica afirmou ter desistido após dois plantões e a constatação de problemas com equipamentos, resultados de exames, e coordenação de equipe.

A unidade, que quando tiver 100% de sua capacidade, oferecerá 400 leitos para pacientes de Covid-19, foi inaugurada no último dia 9, após nove dias de atraso. Ela é administrada pelo Instituto de Atenção Básica e Avançada à Saúde (Iabas), um dos alvos, assim como o próprio governador Wilson Witzel, da investigação sobre fraudes na compra emergencial de equipamentos para o enfrentamento da pandemia. A impressão, segundo os profissionais, é de que um “avião está sendo montado em pleno voo”, em relação aos ajustes que são feitos no hospital de campanha durante o seu funcionamento. O cenário ruim já havia sido denunciado pela anestesista Priscila Eisembert, no último sábado, o que foi confirmado por outras pessoas.

“Já informei a minha saída, porque não tenho a condição adequada de dar o meu melhor”, afirmou uma médica, que aceitou conversar com O GLOBO sob a condição de anonimato.

“Tudo tem um limite”

Ela deu apenas dois plantões. O primeiro, há duas semanas, deixou-a chocada. A dificuldade em conseguir coisas básicas como resultado de exame de sangue para um paciente com insuficiência renal, ou a ausência de protocolo para preenchimento de declaração de óbito. São obstáculos, que segundo ela, se resumem a problemas graves na gestão. Naquele momento, já havia praticamente decidido desistir do emprego, mas retornou na semana seguinte para mais um plantão, e assim ver se o cenário melhoraria. No período, percebeu esforços em ajustar muitos dos problemas, mas ainda longe do ideal.

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Desmatamento cresce quase 30% na Mata Atlântica

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Segundo levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, entre 2018 e 2019, mais de 14.000 hectares foram eliminados; Situação é mais intensa em Minas Gerais

Mata Atlântica: área volta a ter alta no desmatamento após período de queda (Fundação SOS Mata Atlântica/Divulgação)

Bioma que mais perdeu floresta no Brasil, a Mata Atlântica teve aumento de 27,2% no desmatamento entre 2018 e 2019: foram 14.502 hectares desflorestados no período, contra 11.399 hectares eliminados entre 2017 e 2018.

O levantamento é do Atlas Mata Atlântica — iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). A evolução do desmatamento volta a ocorrer após dois períodos de queda.

Realizada com base em estados, a análise destaca que a situação é mais intensa em Minas Gerais, que perdeu quase 5.000 hectares de floresta nativa. Na sequência estão Bahia (3.532 hectares) e Paraná (2.767 hectares).

Segundo Mario Mantovani, diretor de políticas públicas da SOS Mata Atlântica, a evolução do desmatamento nestas regiões mostra uma expansão das ações de destruição do meio ambiente, recentemente focadas com mais ênfase na região amazônica.

O quadro é alarmante, já que, hoje, restam pouco mais de 12% da Mata Atlântica.

Alguns estados, no entanto, apresentaram desmatamento zero — entre eles, os estreantes Alagoas e Rio Grande do Norte. A diretora executiva da fundação, Marcia Hirota, alerta, no entanto, para a possibilidade do “efeito formiga”, quando há pequenos desmatamentos que seguem ocorrendo, mas não são detectáveis por satélite.

Flexibilização de normas

O estudo é publicado dias depois da divulgação, por decisão do Supremo Tribunal Federal, do vídeo da reunião ministerial. Na ocasião, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, falou em aproveitar o foco da imprensa na pandemia da covid-19 para “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas”.

A fala sugere uma possível intenção de flexibilização das normas ambientais, o que foi posteriormente negado pelo ministro. O vídeo teve repercussão internacional: a ativista sueca Greta Thunberg chegou a postar notícia sobre o assunto no Twitter, com o comentário “Imagine as coisas que foram ditas longe da câmera… Nosso futuro comum é apenas um jogo para eles”.

No início de maio, Salles fez um despacho para recomendar aos órgãos ambientais a seguir as normas do Código Florestal, e não da Lei da Mata Atlântica — esta mais rigorosa.

Em agosto de 2019, o Brasil se viu no centro de uma crise ambiental que teve como estopim uma série de alertas de desmatamento gerados pelo INPE. Em um movimento polêmico, o instituto chegou a ter seu comando trocado. A má gestão das ações para evitar o desmatamento teve impacto internacional, e fez com que a Alemanha bloqueasse doações ao Fundo Amazônia.

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Desigualdade e alfabetização desafiam educação na pandemia da covid-19

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Professores, alunos, pais e autoridades avaliam que covid-19 escancarou desigualdades e trará impactos, ainda desconhecidos, para as crianças do país

Educação: 55% das redes estaduais e 60% das redes municipais não desenharam estratégias para garantir o acesso à conteúdos durante a quarentena (Leonardo Fernandez Viloria/Getty Images)

“Estou exausto e trabalhando facilmente cerca de 15 horas diárias. No ensino à distância não é só dar a aula. Você trabalha muito fora do seu horário; são muitas demandas novas o tempo todo”.

Essa rotina foi relatada  por um professor de gramática de uma escola particular na cidade de São Paulo, mas a sensação é compartilhada entre diferentes atores educacionais. Diante da pandemia do novo coronavírus, eles se viram obrigados a adaptar, em questão de dias, o modelo secular das escolas tradicionais.

No Brasil, o avanço da covid-19 forçou o fechamento das unidades de ensino já no início de março. A atividade foi uma das primeiras a serem suspensas, por conta da orientação das autoridades de saúde indicando a urgência do distanciamento social.

Segundo monitoramento da Unesco, agência da ONU para educação, 52 milhões de estudantes brasileiros ainda estão fora das salas de aulas. Com exceção das turmas mais infantis, a maioria, contudo, enfrenta os desafios do ensino remoto. Na avaliação de especialistas, a pandemia vai mudar para sempre o modelo educacional em todo o mundo.

Mas há motivos importantes que explicam por quê até hoje, mesmo com os avanços tecnológicos, a educação básica não migrou para o ambiente virtual. Para além da discussão sobre a qualidade das aulas presenciais, o ensino à distância tem limitações para garantir o aprendizado de crianças e jovens.

A falta de acesso universal à internet e a inexperiência de professores, alunos e pais com a educação virtual, principalmente para a fase de alfabetização, são dois dos principais desafios enfrentados.

“A escolha prioritária por plataformas digitais já tende a excluir camadas da sociedade. O que a rede privada pode fazer, o setor público não pode se dar ao luxo, mesmo com o intenso e dedicado esforço dos educadores. Essa crise escancara as desigualdades que já existem no sistema de ensino”, diz Ricardo Henriques, superintendente do Instituto Unibanco.

Um levantamento do Centro de Inovação para Educação Brasileira, feito com 21 estados e 3.000 municípios, revelou que 55% das redes estaduais e 60% das redes municipais não desenharam estratégias para garantir o acesso à conteúdos durante a quarentena.

Dos que adotaram medidas, há uma diversidade na distribuição de conteúdos, que vão desde plataformas online, vídeo-aulas e redes sociais até o uso da TV aberta e emissoras de rádio, entre outras.

“Dou aula para crianças na rede municipal e adultos na Escola de Adultos e Jovens. Todos têm dificuldades, seja pelas próprias famílias que são analfabetas ou pela falta de acesso à internet. Muitos não têm celular, e outros são idosos que não sabem mexer em nada”, relata a professora Catarina Lopes, que trabalha em Jundiaí, no estado de São Paulo.

Segundo ela, o WhatsApp foi a forma mais acessível que as escolas encontraram para passar pelo menos exercícios aos estudantes. Algumas, no entanto, precisaram comprar chips até para professores. “Esse mínimo de contato não vai ser perdido, mas não será possível exigir na volta à escola um avanço como se estivessem ficado nas salas de aula”, diz.

Cauê Vitorasso, de 17 anos, estuda em uma escola estadual de tempo integral em Guarulhos. Ele se prepara para prestar medicina por meio do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, e se esforça para tentar ter o mesmo desempenho nas aulas à distância que teria nas presenciais. “É cansativo e mais complicado de entender alguns conteúdos, mesmo com o suporte do professor, pois ele não está ali do seu lado”, conta.

Em sua casa, Cauê mora com mais seis pessoas, algo que desafia diariamente a sua concentração. “Preciso de fone e tentar ficar na mesa sem me distrair”. A pandemia, relata, trouxe um desequilíbrio tanto emocional quando acadêmico, mas ele tenta não ver o ensino à distância como um inimigo. “Muita gente não tem nem isso”.

Processo de alfabetização

Apesar da desigualdade educacional, há desafios em comum que escolas públicas e particulares estão enfrentando com a suspensão forçada das aulas. Crianças em idade de alfabetização é um deles.

“É importante lembrar que pai não é professor. Professor é uma profissão complexa, que demanda uma formação especializada. Hoje, vários pais estão se desdobrando e estão angustiados, porque todo o despreparo social para lidarmos com uma pandemia está dentro de casa”, diz Cláudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Mãe solo de uma criança de sete anos e responsável por uma importante área no seu trabalho, que consome grande parte de seu dia, Aline vive essa angústia desde o início da quarentena. Seu filho, estudante de uma escola particular da cidade de São Paulo, tem tido aulas por vídeo de uma hora duas vezes por semana. Diariamente, no entanto, há tarefas que ele precisa cumprir.

“É muito pouco tempo de aula para o tanto que ele precisa fazer. Diversos assuntos eu não sei explicar e precisei pedir para que a professora me ajudasse. Me preocupo com o processo de alfabetização dele. Sou separada, dispensei a babá, tenho que cuidar da casa, acompanhar aula online, fazer a lição, cuidar do meu filho e trabalhar diariamente”, conta.

João Marcelo Borges, diretor de estratégia política do Todos pela Educação, explica que o processo de alfabetização não encontra uma resposta única, já que cada criança precisa de um tipo de atividade e estímulo direcionado para avançar nesse processo. “Requer um nível de especialização que mesmo pais com boa escolaridade não têm”, diz.

O tamanho do impacto na alfabetização das crianças no Brasil, no entanto, só poderá ser medido nos próximos anos, explica o secretário de Educação do Maranhão, Felipe Camarões. Ele, que também é professor, relata estar focado no período pós-pandemia. “Nosso maior receio hoje não é a falta de avanço na educação, mas o retrocesso da aprendizagem”.

A rede estadual está disponibilizando aulas em diversos canais, como YouTube, TV aberta, rádio, podcast, Instagram, Facebook e WhatsApp, mas segundo dados coletados pela secretaria, durante a quarentena, 35% dos alunos não estão conseguindo acompanhar os conteúdos.

Os próximos anos pós pandemia da covid-19 serão de transformações sociais importantes, e a área de educação deve ser uma das mais impactadas pelas mudanças. Há oportunidades importantes que podem ser aproveitadas para diminuir o abismo das desigualdades educacionais, e um bom ensino à distância pode ser uma delas.

 

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Iniciar flexibilização em SP agora pode ser prematuro, dizem especialistas

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Especialistas defendem a flexibilização da quarentena quando a curva de mortes por coronavírus está descendente e a taxa de contágio em torno de 1

São Paulo: Doria deve anunciar nesta quarta (27) o plano de saída da quarentena de coronavírus (Eduardo Frazão/Exame)

Especialistas dizem que pode ser cedo para iniciar a flexibilização em São Paulo. Isso porque a curva do número de casos e mortes por coronavírus ainda é ascendente e uma pessoa infectada pode transmitir a covid-19 para outras três. O ideal, segundo os especialistas, seria flexibilizar a quarentena com a curva descendente e com a taxa de contágio em torno de 1.

“Não acredito que já estejamos prontos. Não só São Paulo, mas o Brasil todo. Não está na hora de flexibilizar o isolamento. Não temos nenhum indicativo de que estejamos no pico de infecção. Temos a vantagem de olhar para trás e ver o que funcionou e o que não funcionou em outros países. O principal critério que vem dando certo é flexibilizar no declínio da curva. Os países europeus começaram a flexibilizar agora e estão mais ou menos um mês na nossa frente”, afirmou o presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia, João Viola.

O epidemiologista Airton Stein, professor titular de saúde coletiva da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), lembra que é preciso definir estratégias para flexibilizar a quarentena. “Não tem solução mágica, as medidas de isolamento social são necessárias. Hoje a taxa de transmissão é muito alta, e as restrições só deveriam ser afrouxadas com a taxa em torno de 1. É preciso testar para detectar os casos precocemente. O problema é fazer a flexibilização sem essas estratégias.”

A nova quarentena em São Paulo será “heterogênea”, com regras diferentes para as distintas regiões. Interior e litoral devem ter as medidas afrouxadas mais brevemente – na capital e região metropolitana as restrições devem permanecer por mais tempo. Para Elize Massard da Fonseca, coordenadora de projeto que analisa as medidas de enfrentamento ao coronavírus, a estratégia de dividir o Estado pode não funcionar.

“Não adianta se não houver controle na circulação das pessoas. Acho importante entender quais evidências o governo teve para adotar as novas medidas, não acredito que tomariam uma decisão sem informação. Mas pelo histórico temos visto que essas decisões não têm sido bem planejadas, como as medidas do rodízio e do bloqueio de vias que duraram uma semana. Esperamos que desta vez tenha alguma evidência que embase as novas medidas”, disse.

O professor Sérgio Roberto de Lucca, da área de saúde do trabalhador do departamento de saúde Coletiva da Unicamp, alerta para o baixo número de testes de coronavírus. “Estamos trabalhando no escuro, faltam dados do que realmente está acontecendo.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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