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Saúde

Índio reviva saberes antigos sobre plantas medicinais

Hemerson Dantas dos Santos Pataxó Hãhãhãi

Uma pesquisa pioneira realizada pelo etnobotânico Hemerson Dantas dos Santos, indígena Pataxó Hãhãhãi, tem contribuído para recuperar práticas tradicionais de cura que estavam sendo esquecidas entre os Pataxó Hã-Hã-Hãi, povo indígena do sul da Bahia.

O estudo compilou conhecimentos passados por anciãos da comunidade, catalogou o uso de inúmeras plantas medicinais e culminou em um artigo científico publicado internacionalmente.

Atualmente doutorando pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Hemerson cresceu na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu e escolheu transformar a tradição em ciência acadêmica. A pesquisa foi desenvolvida com a orientação da professora Eliana Rodrigues e publicada no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine em 17 de maio.

O principal objetivo era identificar tratamentos comunitários para três problemas comuns de saúde: verminoses, diabetes e hipertensão. O pesquisador catalogou 175 plantas medicinais, sendo que 43 são usadas para essas doenças específicas. Segundo a revisão científica, quase 80% dessas plantas têm eficácia comprovada na literatura especializada.

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Dentre as mais mencionadas, estão o mastruz, indicado para vermes, o capim-cidreira, utilizado para controlar a pressão alta, e a moringa, empregada no manejo da diabetes. Apenas o mastruz é nativo do Brasil; os outros são espécies exóticas introduzidas no país ao longo do tempo.

Hemerson ressalta que isso evidencia o impacto do deslocamento forçado e da destruição ambiental enfrentada pelo povo indígena. “Encontrei poucas espécies nativas. Muitas plantas citadas pelos anciãos desapareceram da floresta”, afirmou em comunicado.

O estudo envolveu entrevistas com 19 especialistas indígenas reconhecidos por seus saberes em práticas curativas. A maioria tinha mais de 60 anos e compartilhou memórias sobre o emprego de plantas, a preparação de remédios e as transformações culturais recentes da comunidade.

Muitos curandeiros atualmente seguem o evangélico, substituindo rezas tradicionais por orações e passagens bíblicas, sem abandonar completamente a medicina ancestral.

Uma inspiração importante foi a anciã Dona Marta Xavier, conhecida por seu dom curativo e pelo conhecimento em ervas. Parteira por muitos anos, auxiliou no nascimento de boa parte das crianças da aldeia. Seu irmão, Aniraldo, também colaborou com o estudo. A região conta com um viveiro de plantas medicinais criado a partir do projeto.

Durante a pesquisa, Hemerson visitou as dez aldeias da Terra Indígena Caramuru-Paraguassu, acumulando mais de 240 dias de trabalho de campo. Morando na comunidade, teve acesso a práticas reservadas, como o uso de cantos e orações na fabricação de remédios.

“Foi uma imersão na minha história. Ouvir os mais velhos e registrar suas memórias me permitiu conhecer aspectos desconhecidos do meu povo”, afirma.

A pesquisa adotou a abordagem etnobotânica participativa, idealizada pela orientadora Eliana Rodrigues. O método incentiva que os próprios povos tradicionais sejam protagonistas em todas as etapas, desde as perguntas até a divulgação dos dados. Isso rompe com a lógica colonial que sempre considerou os indígenas meros objetos de estudo.

No modelo participativo, o pesquisador indígena é capacitado para registrar e interpretar os saberes locais, permitindo preservação na língua original ou adaptações às necessidades da comunidade. Também contribui para o debate global sobre direitos de propriedade intelectual dos saberes tradicionais.

Além do artigo científico, o trabalho gerou um livro, um vídeo documentário e ações nas aldeias, como implantação de canteiros de ervas medicinais e produção de um livreto com receitas seguras, dirigido a jovens e agentes de saúde indígenas. O projeto foi financiado pela Fapesp via bolsa de doutorado concedida ao pesquisador.

Para Hemerson, o estudo demonstra que é possível unir tradição e ciência sem perder a identidade indígena.

“Este trabalho foi feito por nós e para nós. Recupera conhecimentos que estavam desaparecendo e prova que podemos fazer ciência mantendo nossa essência”, conclui.

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