Um estudo recente publicado na revista científica The Lancet Child & Adolescent Health revela que, nos últimos 20 anos, a quantidade de crianças e adolescentes com pressão alta quase dobrou em todo o mundo. A porcentagem de jovens menores de 19 anos com hipertensão arterial aumentou de 3,2% em 2000 para 6,2% em 2020, com base em uma análise de 96 pesquisas que envolveram mais de 443 mil jovens em 21 países.
Estima-se que cerca de 114 milhões de crianças e adolescentes sofram com a pressão alta globalmente.
A obesidade é um dos principais motivos ligados ao crescimento da hipertensão infantil. Aproximadamente 19% das crianças e adolescentes obesos apresentaram pressão alta, comparado a apenas 2,4% daqueles com peso saudável.
De acordo com Andressa Mussi Soares, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o sobrepeso e a obesidade são fatores chave que contribuem para o aumento dos casos de hipertensão entre os jovens. “Apesar de ser uma pesquisa internacional, essa realidade também é evidente no Brasil. Estudos nacionais indicam que, conforme aumenta a obesidade infantil, também cresce o número de casos de pressão alta”, afirma.
O estudo também aponta que cerca de 9% das crianças e adolescentes têm hipertensão mascarada, condição na qual a pressão alta só é detectada em exames fora do consultório. Já a síndrome do jaleco branco, onde a pressão sobe apenas em ambiente médico, foi observada em 5,2% dos casos.
Peige Song, pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de Zhejiang, na China, destaca que “a hipertensão na infância é mais comum do que se imaginava, e medir a pressão apenas no consultório pode subestimar ou levar a diagnósticos errados”.
Ela ressalta a importância da detecção precoce e do acesso fácil a métodos de prevenção e tratamento para evitar complicações de saúde na vida adulta.
A pressão alta é um dos principais riscos para AVC, infarto e insuficiência dos rins e coração.
Hipertensão em crianças
Isabela de Carlos Back, médica do Departamento Científico de Cardiologia da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), recomenda medir a pressão arterial pelo menos uma vez por ano a partir dos três anos de idade.
Ela lembra que a hipertensão costuma ser silenciosa na infância, mas sinais como dores de cabeça frequentes, tontura, enjoo, ganho de peso e problemas para dormir podem indicar o problema.
Algumas condições médicas, como problemas nos rins, cardiopatias congênitas, doenças endócrinas e o uso de certos medicamentos, como corticoides, podem causar hipertensão na infância e adolescência.
Outros fatores que podem favorecer a pressão alta incluem complicações durante a gestação, uso de cigarro pela mãe na gravidez, exposição ao tabagismo passivo, falta de sono e histórico familiar de hipertensão precoce.
Pré-hipertensão
O estudo aponta que 8,2% das crianças e adolescentes apresentam pré-hipertensão, um alerta para risco futuro. A condição é mais comum na adolescência, afetando até 11,8% dos jovens.
Para evitar o agravamento, especialistas recomendam reduzir o consumo de sal e alimentos industrializados, aumentar a ingestão de frutas e verduras, praticar atividades físicas regularmente, controlar o peso, garantir um sono adequado e limitar o tempo em frente às telas.
Andressa explica que mudanças simples feitas cedo ajudam a diminuir a pressão arterial e o risco de aterosclerose, que pode começar entre 9 e 10 anos.

