BÁRBARA SÁ
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Acidentes em pistas simples, especialmente em trechos retos e durante o dia, são os que apresentam maior gravidade nas rodovias federais do Brasil. Esta conclusão vem de um estudo da Fundação Dom Cabral, que analisou dados de 2018 a 2024, mostrando uma combinação perigosa entre infraestrutura inadequada, alta velocidade e colisões frontais, que são as mais fatais no trânsito.
A pesquisa usou informações da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e do DNIT para avaliar ocorrências em rodovias com tráfego médio diário acima de mil veículos. O estudo fez 72 análises detalhadas sobre os tipos de acidente, horários, traçados e veículos envolvidos.
Os dados mostram que após um período de queda em 2020, os acidentes voltaram a aumentar em 2024, com o país registrando 56.116 acidentes, a maior quantidade no período analisado.
O aumento na quantidade de acidentes vem acompanhado de mais gravidade, com 4.995 mortos e 15.916 feridos graves em 2024. Segundo o professor Paulo Resende, diretor do Núcleo de Logística e Infraestrutura da Fundação Dom Cabral, a predominância de pistas simples ajuda a explicar essa gravidade.
No Brasil, o sistema de rodovias federais tem 65,8 mil quilômetros, dos quais 83,5% são pistas simples e apenas 16,5% são pistas duplicadas. O sistema viário nacional totaliza cerca de 1,7 milhão de quilômetros, incluindo estradas estaduais e municipais.
Paulo Resende explica que ultrapassagens mal feitas podem causar colisões frontais, que são as mais graves. Nas rodovias duplicadas, a separação física dos fluxos reduz muito esse risco. Nas pistas simples, a situação é mais perigosa porque a única separação é uma faixa pintada que muitas vezes está desgastada.
O estudo também revelou que acidentes graves ocorrem mais em trechos retos e durante o dia, contrariando a impressão de que lugares retos e bem iluminados são mais seguros. Isso acontece porque os motoristas se sentem mais confiantes e dirigem em alta velocidade, aumentando o risco.
Paulo Resende comenta que o excesso de confiança faz os motoristas subestimarem os riscos, o que pode resultar em acidentes graves.
Motos aumentam riscos perto de áreas urbanas
O estudo também aponta que motocicletas estão mais envolvidas em acidentes graves, especialmente nas áreas próximas às cidades, como anéis rodoviários e acessos urbanos. Nesses locais, motos se misturam com veículos pesados, aumentando o perigo.
Paulo Resende destaca que colisões envolvendo motos, seja de lado ou por trás, resultam em ferimentos mais graves devido à vulnerabilidade dos motociclistas.
Motos muitas vezes entram na rodovia por acessos laterais sem controle adequado, competindo com caminhões e outros veículos grandes, o que eleva a gravidade dos acidentes.
Para reduzir a gravidade dos acidentes, o pesquisador sugere três ações principais: duplicar as rodovias, controlar melhor os acessos laterais e aumentar a fiscalização de velocidade. Ele também recomenda mudanças específicas para proteger os motociclistas e diminuir o contato direto com veículos pesados.
Paulo Resende resume: a separação física dos fluxos diminui bastante o risco de colisão frontal, e controlar a velocidade é essencial, porque maior velocidade aumenta o impacto dos acidentes.
O Brasil depende muito do transporte rodoviário e, segundo o especialista, a responsabilidade pela segurança deve ser compartilhada entre o Estado e a polícia rodoviária para serem eficazes nessa missão.

