ANDRÉ FLEURY MORAES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Tudo começou com uma denúncia anônima. Um homem chamado Ângelo sairia de São Paulo com destino a Macapá para mergulhar no rio Amazonas e prender cocaína no casco de um navio que partiria do porto de Santana rumo à Europa.
Era 28 de março de 2024, e o delegado Bruno Belo, da Polícia Federal (PF) no Amapá, tinha pouco tempo para agir, pois a droga poderia sair do porto a qualquer instante.
Iniciou-se então uma busca por todos os ângelos que se encaixassem na descrição. Um deles era Ângelo Lourenço Bonfogo, paulista que havia chegado em Macapá dois dias antes, segundo investigação.
A polícia descobriu que ele estava numa chácara com Ricardo de Souza Silva, também de São Paulo, que já havia sido preso em flagrante em 2012 por tráfico de drogas.
A PF passou a fazer campana para vigiar o local, monitorandoo em diferentes horários, até que outro homem, Harrison Magalhães da Silva, passou a frequentar o local.
Em 5 de abril, agentes viram o grupo comprar equipamentos de mergulho em Macapá e depois, à noite, saírem numa voadeira com cilindros de ar comprimido. Retornaram após a meia-noite vestidos para mergulho.
O agente federal Davi Cavalcanti relatou que o primeiro mergulho serviu para localizar onde a droga seria colocada no navio e também para iniciar a fixação da cocaína.
No dia seguinte, a Justiça autorizou a quebra de sigilo dos suspeitos e buscas no local, pedido feito no sábado, 6 de abril. A PF decidiu não cumprir os mandatos imediatamente.
Descobriu-se que o navio chamado Dyna Floresta, um cargueiro da Libéria com 210 metros de comprimento e 32 metros de largura construído em 2022, era o alvo dos suspeitos.
Câmeras do porto de Santana registraram a chegada do navio no dia 9, quando a droga foi acoplada. Menos de 24 horas depois, a polícia encontrou 155 kg de cocaína na parte submersa do navio e prendeu todos os envolvidos.
A defesa contesta a investigação, alegando que a PF fez uma vigilância ilegal e que os acusados foram torturados. O advogado Jorge Zanette afirmou ter sido ameaçado e agredido no Amapá.
Segundo a defesa, os acusados planejavam roubar a droga, não exportá-la, e afirmam não haver provas da participação deles no tráfico internacional. Eles recorrem da sentença de 12 anos de prisão por tráfico internacional e associação ao tráfico.
A PF acredita que o caso está ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC), mas o uso de mergulhadores ocorre em outras facções e regiões.
O endurecimento do controle em Santos, por onde passava muita cocaína para o exterior, fez com que o tráfico se espalhasse para outros portos, que hoje usam até drones submarinos para fiscalização.
No Rio de Janeiro, o uso de mergulhadores está ligado ao Comando Vermelho.
O Ministério Público Federal aponta que facções utilizam mergulhadores para traficar drogas internacionalmente, como em Itaguaí, onde foram apreendidos 362,5 kg de cocaína.
Em Santa Catarina, a prática é atribuída ao Primeiro Grupo Catarinense (PGC) e ocorre em vários portos da região Sul.
O esquema era liderado pelo empresário Ângelo Scotti Júnior, que coordenava a logística para o tráfico. A defesa dele declarou que irá se manifestar após ter acesso ao processo completo.
A PF diz que o grupo operava com empresas legítimas de transporte de cargas, uma rede para lavagem de dinheiro e diversos grupos para enviar a droga para o exterior.
O grupo de mergulhadores realizava a fixação de drogas nos cascos dos navios. Por exemplo, Breno Mafra Rodrigues foi acusado de fazer isso sete vezes entre 2023 e 2025, sendo três com sucesso. A defesa dele não respondeu aos pedidos de posicionamento.
A equipe subaquática contava com apoio na superfície, por exemplo, de José Carlos Martins, acusado de participar de ações em 2023 e 2024 e preso pela PF em abril de 2026. Seu advogado, Paulo Marcos da Silva, afirma que ele nega as acusações e confia que a investigação comprovará sua inocência, ressaltando que José é pescador artesanal com vida simples e patrimônio condizente.
