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domingo, 29/03/2026

Parar de tratar doenças crônicas pode aumentar risco de infarto e AVC

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LAIZ MENEZES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Especialistas de mais de 40 instituições médicas na América Latina, inclusive no Brasil, afirmam que deixar de seguir o tratamento para doenças crônicas como diabetes e pressão alta deve ser considerado um risco que pode causar infarto e AVC (acidente vascular cerebral). Essas são as principais causas de morte em todo o mundo.

Um documento chamado “Recomendaciones de Expertos Latinoamericanos en Adherencia e Inercia Terapéutica Cardiovascular, y su Impacto en Salud Pública” reúne o consenso de 43 especialistas da região e baseia-se em centenas de estudos científicos. Ele destaca doenças muito comuns, como pressão alta, diabetes tipo 2, colesterol alto, problemas no coração e rins, que precisam de tratamento contínuo para evitar complicações.

Os autores explicam que, quando o paciente não segue o tratamento corretamente, os remédios perdem eficácia e a doença piora, causando problemas que poderiam ser evitados. Como o sedentarismo, obesidade e tabagismo, a falta de adesão ao tratamento deve ser vista como um fator de risco que pode ser mudado.

Publicado em setembro do ano passado com apoio de diversas sociedades médicas, o livro quer ajudar médicos, especialmente os que atendem na atenção básica, a melhorar o cuidado com esses pacientes e reduzir os impactos na saúde pública na América Latina.

O descumprimento dos tratamentos gera custos extras de mais de 2 bilhões de dólares anualmente na região, devido a internações, emergências e problemas que poderiam ser evitados.

Além da má adesão dos pacientes, os especialistas apontam a chamada inércia clínica – que é quando o médico não altera o tratamento mesmo quando os objetivos não são alcançados. Eduardo Barbosa, médico e chefe do Departamento de Hipertensão e Dinâmica Vascular da Santa Casa de Porto Alegre, afirma que essa combinação dificulta muito o controle das doenças crônicas ligadas ao risco cardiovascular.

A pressão alta é o exemplo mais comum de doença com risco maior devido à falta de tratamento correto, pois exige acompanhamento e ajustes regulares do tratamento.

Barbosa explica que adesão é o quanto o paciente segue as instruções do médico ao longo do tempo, enquanto inércia é quando o médico não ajusta os remédios mesmo sem alcançar as metas.

“Às vezes o paciente está quase no objetivo, e o médico prefere reforçar orientações de dieta e exercícios, mas não altera a medicação”, esclarece.

Ele acredita que reconhecer oficialmente a má adesão e a inércia como fatores de risco pode ajudar a incluir o tema nas próximas diretrizes de importantes sociedades médicas brasileiras.

As principais causas do abandono do tratamento incluem falta de conhecimento da doença, desconfiança do paciente, uso de muitos remédios por dia e esquemas complicados. Quanto mais remédios e doses diárias, pior a adesão.

O livro propõe soluções como simplificar os tratamentos com remédios combinados em dose única diária, definir metas claras com o paciente, evitar linguagem difícil e melhorar o diálogo com empatia. Envolver a família e usar tecnologia também são recomendados.

“Quanto mais o paciente entende a doença e confia no médico, maior a chance de seguir o tratamento. Melhorar a adesão é fundamental para evitar infartos, AVCs, diminuir custos e melhorar a qualidade de vida”, afirma.

Eduardo Lima, cardiologista do Hospital Nove de Julho e líder da cardiologia da Rede Américas, diz que o objetivo do documento é destacar um problema antigo e esclarecer responsabilidades entre médico e paciente.

“Parar o tratamento não é só culpa do paciente, o médico também tem papel importante”, disse. Ele lembra que o profissional deve explicar a gravidade da doença, riscos da interrupção e efeitos colaterais.

Lima conta que alguns pacientes suspendem os remédios em dias quentes ou quando a pressão abaixa temporariamente.

“O paciente precisa entender que o remédio que toma pela manhã age durante todo o dia”, explica.

No ano passado, a Federação Mundial do Coração iniciou uma campanha global para alertar sobre o problema da má adesão a tratamentos e mudanças no estilo de vida. O estudo apontou que isso afeta mais da metade dos pacientes com doenças crônicas e prejudica os resultados de saúde.

Na época, a reportagem mostrou que no Brasil cerca de 50% dos pacientes não seguem corretamente o tratamento, índice parecido com o global. Na Europa, a má adesão está ligada a 200 mil mortes por ano e poderia economizar milhões se fosse melhorada. Nos Estados Unidos, o custo anual por paciente chega a 52 mil dólares devido a mais internações e emergências.

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