CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS
A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou uma nota nesta segunda-feira (23) afirmando que não há estudos científicos que comprovem a segurança e eficácia da polilaminina no tratamento de lesão medular em humanos.
De acordo com a ABN, que representa mais de 5.000 neurologistas no Brasil, todo novo tratamento deve passar por protocolos rigorosos de pesquisa, que vão da fase 1 até a fase 3, antes de ser liberado para uso médico.
“A ABN recomenda que novos tratamentos sejam aplicados apenas em ensaios clínicos científicos aprovados por comitês de ética, conforme a legislação brasileira”, informa a nota.
Também nesta segunda, a Sociedade Brasileira de Neurologia enfatizou que lesões medulares são condições complexas que precisam de um tratamento multidisciplinar baseado em protocolos consolidados e evidências científicas sólidas.
“Embora as pesquisas sejam promissoras, a introdução de novos tratamentos necessita de evidências robustas sobre segurança, eficácia e indicações”, destaca um trecho da nota.
Essas manifestações acompanham um editorial da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), que alertam para o risco de confundir pesquisa experimental com aplicação clínica, defendendo revisões por especialistas e transparência para evitar decisões judiciais ou divulgação precipitada.
A polilaminina está em fase de testes de segurança na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Contudo, recentemente ganhou destaque na mídia e redes sociais, com relatos isolados sendo tratados como prova de eficácia, e várias pessoas buscando autorização judicial para receber a substância.
Vale destacar que essas aplicações não fazem parte de ensaios clínicos formais, pois os pacientes não são acompanhados em protocolos estruturados de pesquisa.
O interesse aumentou após a divulgação, no ano passado, de um estudo inicial da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), liderado pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, envolvendo oito pacientes.
Segundo o estudo, seis dos oito pacientes que receberam a polilaminina apresentaram algum grau de melhora nos movimentos.
No entanto, esses resultados ainda não passaram pela revisão por pares, um processo fundamental onde especialistas independentes avaliam a metodologia e conclusões da pesquisa para validar seus achados.
Especialistas ressaltam que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar algum movimento espontaneamente, sem o uso da polilaminina, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual de cada paciente.
Se for comprovado que a polilaminina é segura (fase 1), haverá a necessidade de ampliar os testes para as fases 2 e 3, que avaliam eficácia, dosagem adequada e efeitos colaterais em um grupo maior de pessoas.
Somente após sucesso em todas as fases será possível solicitar o registro sanitário e, posteriormente, a comercialização do medicamento.

