LEONARDO VIECELI, GABRIELA CECCHINE, CRISTIANE GERCINA
RIO DE JANEIRO, RJ E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A presença das mulheres no mercado de trabalho aumentou nos últimos anos, mas ainda há muitas diferenças em relação aos homens: elas continuam mais afetadas pelo desemprego, recebem salários menores e participam menos da força de trabalho.
Embora o desemprego esteja em níveis baixos, as mulheres ainda sentem o impacto. Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a taxa de desemprego feminina foi de 6,2%, o menor índice desde 2012, quando começou a Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua). Mesmo assim, é 2 pontos percentuais maior que a dos homens, que foi de 4,2%.
Além disso, só um pouco mais da metade das mulheres em idade de trabalhar está na força de trabalho, cerca de 52,8%. Entre os homens, esse número é bem maior, chegando a 72%, quase 20 pontos percentuais a mais, de acordo com a professora Janaína Feijó, da FGV (Fundação Getulio Vargas). Em 2012, esses percentuais eram 51,6% para mulheres e 74,5% para homens.
Janaína destaca que, nos últimos dois anos, o país conseguiu melhorar muito a taxa de desemprego, que é essencial para o crescimento, reduzindo desigualdades. No entanto, a participação das mulheres no mercado está parada.
Ela comenta que as mulheres ainda enfrentam muitos obstáculos para entrar e continuar no mercado de trabalho, muitos relacionados a questões de gênero. “Ainda não conseguimos garantir que as mulheres que querem trabalhar possam realmente oferecer sua força de trabalho e encontrar uma vaga”, explica Janaína.
A carga de tarefas de cuidado e maternidade afeta a carreira das mulheres, segundo a professora Tcharla Bragantin, coordenadora de cursos de gestão do centro universitário Módulo. Ela afirma que as desigualdades aparecem desde a avaliação até as promoções, pois os processos são feitos de forma que frequentemente desfavorecem as mulheres, muitas vezes por preconceitos inconscientes.
Muitas trabalhadoras sentem sobrecarga na rotina diária. A auditora interna e criadora de conteúdo Karoline Santos, 32 anos, relata que o peso das responsabilidades aumentou após a maternidade. Ela divide o tempo entre o trabalho e quase todas as tarefas de casa, como cozinhar, limpar e cuidar da filha de dois anos, que ainda está sendo amamentada.
“Tenho que administrar tudo para conseguir cumprir minhas tarefas no trabalho”, conta. Situação semelhante vive a assistente de apoio técnico Bruna Almeida, 30 anos. Após um dia de trabalho presencial, ela chega em casa e ainda prepara o jantar, lava a louça e cuida da rotina da filha.
“Quando se tem filho pequeno, é mais difícil, porque não dá para faltar com jantar nem atenção. Brinco que meu dia precisava ter pelo menos 30 horas”, diz.
Desigualdades regionais e por cor e raça
As diferenças também aparecem nas regiões do país e na renda. Na Bahia, por exemplo, a taxa de desemprego entre mulheres foi de 10,8% no final de 2025, enquanto nenhum estado teve duas casas decimais para os homens.
Levando em conta a taxa de subutilização da força de trabalho — que inclui desempregados, desanimados e pessoas que trabalham menos do que gostariam —, a disparidade entre gêneros permanece. No quarto trimestre de 2025, esse índice foi 16,6% para as mulheres e 10,9% para os homens.
Em relação à renda, o padrão se repete. O salário médio das mulheres chegou a R$ 3.137 por mês, recorde na série histórica, mas ainda fica cerca de 21% abaixo do dos homens, que é R$ 3.977.
Parte dessa diferença está relacionada à concentração das mulheres em setores que pagam menos.
Outros dados indicam que as desigualdades variam também por raça e região. Entre as mulheres pretas ou pardas, a taxa de participação é de 51,3%, menor que entre mulheres brancas, que é 54,2%, segundo o Ministério das Mulheres. Por região, o Nordeste tem o menor índice de participação feminina (43,5%) e o Centro-Oeste o maior (58,8%).
Mesmo empregadas, as mulheres dedicam mais tempo ao trabalho doméstico e ao cuidado de pessoas. Gastam, em média, 17,8 horas semanais nessas tarefas, contra 11 horas dos homens. Conforme a Pnad Contínua, 91,3% das mulheres fazem tarefas domésticas e 34,9% cuidam de crianças, idosos ou doentes.
Essa divisão desigual ajuda a explicar por que muitas mulheres ficam fora do mercado. Dos 9,8 milhões de jovens de 15 a 29 anos que nem estudam nem trabalham no país, 63,9% são mulheres. A falta de creches é um fator importante: 68,1% das mulheres com filhos em creche estão ocupadas, mas entre as que não têm filhos em creche, o número cai para 42,6%.
