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Brasil

Morador final do Moinho que ganhou casa de Lula e Tarcísio vive só na favela destruída em São Paulo

Favela do Moinho, no centro da capital paulista, antes do processo de demolição — Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Clayton Castelani e Danilo Verpa
FolhaPress

Após trabalhar a noite toda em um prédio no centro de São Paulo, o porteiro Manuel Severino Silva dos Santos, 53 anos, acabou de acordar quando a reportagem chegou na tarde de segunda-feira (17). “Minha vida é aqui”, disse ele, subindo uma escada sem corrimão para mostrar sua casa, que construiu e reformou por cerca de 20 anos na favela do Moinho, no centro da cidade.

Do lado de fora, uma máquina poderosa desmontava os silos gigantes que eram símbolo da comunidade. Os barulhos entravam pela janela do quarto e cozinha que ele usa no segundo andar da casa. No andar de baixo, a reforma não ficou pronta para morar.

Assim como as torres do moinho, várias casas próximas foram destruídas desde abril do ano passado pelo governo do governador Tarcísio de Freitas. A casa do porteiro é uma das duas últimas que ainda estão de pé no local cheio de entulho. “Estou no meio dos escombros, mas e o que posso fazer? Só sobrou isso da minha casa. Não tenho outro lugar para morar”, contou.

Até a visita da reportagem, 850 famílias foram incluídas em um plano de reassentamento feito pelo governo do estado e o presidente Lula. O programa ofereceu casas 100% pagas para quem saísse da área. O terreno pertenceu à União, que cedeu para o estado criar um parque público. O estado cuida das ferrovias que cercam a região.

Manuel ficou fora do programa porque sua renda, somando salário, adicional noturno, horas extras e auxílio alimentação, passou do limite de R$ 4.700 definido pelo governo federal.

O governo conseguiu permissão judicial para demolir as casas vazias para impedir que pessoas voltem a morar lá. Os vizinhos foram saindo até que a rua onde mora Manuel ficou vazia.

“Aqui era o bar”, apontou para os restos de um local sem porta nem telhado. “Era um lugar ótimo. As pessoas se reuniam, conversavam, faziam churrasco, bebiam cerveja. Eu vivi muito aqui, todo mundo era unido e tranquilo. Eu queria ficar”, lamentou.

Manuel nasceu em Bom Jardim (PE), é divorciado e tem um filho adulto. Ele chegou ao Moinho quando tudo era barraco de madeira. “Construí minha casa tijolo por tijolo. Todo mundo fez isso. Depois começaram a derrubar tudo, casa por casa, e as pessoas foram saindo. Agora, não tem ninguém. Só tem terra vazia”, contou.

O fim da favela do Moinho faz parte de um grande plano para melhorar a área central de São Paulo. A cerca de um quilômetro, o governo do estado vai construir sua nova sede, um projeto que custará cerca de R$ 30 bilhões e que manterá escritórios por 30 anos.

Para conseguir isso, o governo disse que era necessário retirar a comunidade que, segundo investigação do Ministério Público, abrigava um grupo criminoso chamado PCC. A retirada começou há pouco mais de um ano, no mesmo período em que desmontaram a cracolândia, uma área na cidade conhecida pelo uso intenso de crack.

Operações da polícia na comunidade causaram conflitos com moradores, que não queriam sair e assumir dívidas pelo financiamento das casas oferecidas pelo governo estadual.

A situação foi resolvida em 2025, quando os governos de Lula e Tarcísio fizeram um acordo para dar casas totalmente pagas para os moradores. O valor foi de R$ 250 mil por família, sendo R$ 180 mil pagos pela União e R$ 70 mil pelo estado. Quem se mudou para apartamentos ainda não prontos recebeu ajuda de R$ 1.200 por mês enquanto esperava.

Depois de um ano e meio, pouca coisa ainda está de pé no terreno. O caminho entre os trilhos termina próximo à casa de Manuel e à cruz da antiga igreja católica chamada Nossa Senhora do Moinho. Mais adiante mora Artur Ribeiro, 19 anos, com sua esposa e dois filhos pequenos.

Artur e família podem receber a casa subsidiada, mas a vistoria do imóvel escolhido ainda não foi aprovada. Ele prefere não aceitar ajuda para aluguel por medo de perder o direito à casa definitiva.

“Se a gente sair para alugar, sabem como é. Depois de um tempo, cortam o aluguel e ficamos sem nada”, disse Artur, que assim como muitos vizinhos, teme mudar antes de garantir a compra da nova casa.

Na última sexta (21), a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) disse que aprovou as cartas de crédito para Manuel e Artur. O governo espera concluir tudo nos próximos dias.

Segundo a CDHU, com essas decisões, 851 famílias já foram atendidas. Dessas, além de Manuel e Artur, 644 já moram em casas definitivas e 205 recebem ajuda para aluguel enquanto aguardam a construção de suas residências.

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