Metade das mortes por feminicídio no Brasil em 2024 aconteceu em cidades pequenas, que têm até 100 mil habitantes. Essas cidades abrigam 41% das mulheres do país. A taxa de feminicídios nessas localidades é de 1,7 para cada 100 mil mulheres, maior do que em cidades médias (1,2) e grandes (1,1), conforme relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Essa desigualdade aumenta em cidades menores. Municípios com até 20 mil habitantes respondem por 19,6% dos feminicídios, embora tenham apenas 14,6% da população feminina. Cidades entre 20 mil e 50 mil habitantes representam outros 19,7% das mortes.
O problema se agrava porque poucas cidades pequenas têm serviços especializados para proteger as mulheres. Apenas 5% dos municípios com menos de 100 mil habitantes têm uma delegacia de atendimento à mulher. Só 3% dispõem de casas abrigo, locais seguros e sigilosos para acolher mulheres em risco de violência grave.
No total, só 27,1% dessas cidades contam com pelo menos um serviço especializado para atender mulheres. Em comparação, 81% das cidades médias têm delegacia da mulher e 40% possuem casas abrigo.
Nas grandes cidades, com mais de 500 mil habitantes, a cobertura desses serviços chega a 98% para delegacias e 73% para abrigos.
O relatório mostra que há um descompasso entre onde a violência acontece e onde o estado oferece proteção. Segundo o relatório, o grande desafio é expandir as políticas de proteção para alcançar todas as regiões.
Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum, destaca que em cidades pequenas não há infraestrutura adequada para atender as mulheres vítimas de violência.
Ela enfatiza que, apesar das leis estarem em vigor e existirem unidades especializadas, o desafio é garantir que isso funcione efetivamente nos municípios menores.
Samira Bueno também aponta que, em cidades pequenas, a exposição social torna mais difícil para as mulheres fazerem denúncias, pois todos se conhecem e as notícias se espalham rápido.
Além disso, os vínculos sociais nessas cidades geram uma espécie de proteção entre as pessoas, dificultando ainda mais a denúncia de violência doméstica ou abuso sexual.
Para Bueno, ainda existe uma tolerância social com a violência doméstica. Muitas pessoas acreditam que a família deve ser mantida a qualquer custo, o que impede que as mulheres denunciem a agressão.

