O Brasil tem a mesma meta de inflação que outros países emergentes da América Latina, como México, Colômbia e Chile, mas apresenta as maiores taxas de juros, mesmo estando próximo de flexibilizar a política monetária. Fatores históricos e estruturais da economia brasileira explicam os juros elevados, e especialistas ainda discutem se a meta de 3% é sustentável para o país.
Em um evento recente do BTG Pactual, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a meta brasileira é compatível com a de seus vizinhos, mas questionou a necessidade de juros tão altos, que chegam a 15% ao ano, comparados aos 7% do México, 10,25% da Colômbia e 4,5% do Chile.
A elevada dívida pública, uma taxa de juro neutra historicamente alta e expectativas de inflação não totalmente alinhadas ajudam a justificar a taxa de juros nominal de 15% no Brasil. Os especialistas sugerem maior controle das finanças públicas para melhorar essa situação.
Mesmo com os juros mais altos, o economista para América Latina do Citi, Ernesto Revilla, destaca que o Banco Central brasileiro tem sido eficaz em alcançar a meta de inflação de 3%. Para o terceiro trimestre de 2027, projeta-se inflação de 3,2%.
“México e Colômbia têm a mesma meta, mas seus bancos centrais hesitam em reduzir a inflação até esse patamar. O Banco Central brasileiro é mais respeitado por sua comunicação clara e análise técnica”, avalia Revilla.
O Partido dos Trabalhadores (PT) aprovou uma resolução defendendo a revisão da meta para equilibrar crescimento econômico e geração de empregos de qualidade. No entanto, economistas acreditam que mudar a meta agora, enquanto a inflação está acima do objetivo, não é recomendável.
“Nunca é uma boa ideia discutir mudança na meta quando se está acima dela, pois parece que as regras do jogo estão mudando”, afirma Revilla, que reconhece a possibilidade de revisitar o tema após a credibilidade ser reforçada.
O professor do Insper, Marcelo Kfoury Moinhos, concorda que a meta de 3% é ambiciosa e que modificá-la seria contraproducente, mas observa que mesmo uma meta maior, como 4%, não alteraria muito a dinâmica dos juros, já que a desaceleração econômica foi pequena apesar dos juros altos.
Aspectos fiscais
Sérgio Werlang, ex-diretor de Política Econômica do Banco Central e professor da Fundação Getulio Vargas, defende uma meta de inflação maior para o Brasil, porém só com ajuste fiscal adequado. Ele ressalta que os países vizinhos não enfrentam a mesma rigidez nos gastos públicos que o Brasil, o que justifica uma meta um pouco mais alta para o país.
Para o economista-chefe do Banco BV, Roberto Padovani, a principal dificuldade para alterar a meta é uma reforma na estrutura dos gastos públicos. Ele destaca que o Banco Central está em processo de fortalecer sua credibilidade e que, ao atingir a meta de 3% e alinhar as expectativas, será válido discutir mudanças estruturais.
Kfoury acrescenta que a política monetária sozinha não tem sido suficiente para fixar as expectativas de inflação, sugerindo que a falta de coordenação com a política fiscal é um problema: é como acelerar e frear ao mesmo tempo, fazendo o carro derrapar.
Este cenário reforça o debate sobre a meta de inflação como um desafio que envolve tanto a política econômica quanto a fiscal para garantir a sustentabilidade da economia brasileira.
