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segunda-feira, 09/03/2026




Meninas de 10 a 14 anos fazem mais tarefas domésticas que homens, mostra estudo

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DANIELE MADUREIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Jordana Cristina de Jesus, 34, é filha do meio de uma família com cinco irmãos, três homens. Filha de mãe solteira, desde os 9 anos ela cuidava da irmã mais nova enquanto sua mãe trabalhava como empregada doméstica.

“Eu me perguntava por que eu, ainda criança, precisava assumir essas responsabilidades, mesmo tendo irmãos mais velhos”, lembra Jordana. Além de cuidar da irmã, aprendeu a cozinhar, muitas vezes estudando só de madrugada. Hoje, é professora adjunta no Departamento de Demografia e Ciências Atuariais da UFRN e doutora em Demografia pela UFMG.

A experiência de infância de Jordana virou tema de pesquisa, em um estudo que também conta com os professores Simone Wajnman e Cássio M. Turra, do Departamento de Demografia da UFMG. O trabalho, chamado “Trabalho invisível do cuidado no Brasil: desigualdades de gênero, raça e escolaridade ao longo da vida”, foi recentemente publicado.

O estudo revela que meninas entre 10 e 14 anos realizam tanto ou mais trabalho doméstico e cuidado com familiares — chamado de “trabalho invisível” — do que homens de qualquer idade. Elas são responsáveis por 2,4% desse tipo de trabalho, percentual igual ao máximo indicado entre homens de 30 a 34 anos. Nesta mesma faixa etária, as mulheres mais se dedicam a essas tarefas, com 9,1% do trabalho não remunerado, quase quatro vezes mais que homens da mesma idade.

Essa divisão desigual reforça as desigualdades sociais e limita as oportunidades das mulheres, que têm menos tempo para estudar ou trabalhar, conforme indica o estudo.

“Desde pequenas, as meninas aprendem a priorizar as necessidades dos outros”, observa Jordana, destacando que essa ideia é reforçada pela família, escola, igreja e mídia. A expectativa é que a mulher cuide do lar e da família, enquanto o homem atua como provedor, sem tempo para tarefas domésticas.

A pesquisa usou a metodologia Contas Nacionais de Transferência de Tempo associada à PNAD 2015, do IBGE. Os dados mostram que as mulheres são responsáveis por 79,7% do cuidado não remunerado no Brasil. Os homens, que respondem por 20,3%, consomem mais cuidados do que produzem ao longo da vida.

As mulheres negras são ainda mais impactadas, respondendo por 44,2% do trabalho doméstico apesar de representarem 24,1% da população. Entre elas, 34,5% dedicam mais de 20 horas semanais às tarefas do domicílio, em comparação a 29% das mulheres brancas.

A tarefa de transferir tempo significa ceder horas do próprio dia para atividades que beneficiam outras pessoas.

O estudo ainda mostra que a diferença nas horas de trabalho entre homens e mulheres é maior aos 27 anos, chegando a 47,2 horas a mais para mulheres com baixa escolaridade. Já entre mulheres com ensino superior, essa diferença diminui para 14,7 horas.

“A educação diminui a desigualdade, mas não elimina – mesmo mulheres formadas cuidam mais que homens”, explica Jordana. Ela ressalta que quanto mais escolarizada, maior a chance da mulher ganhar melhor e poder contratar ajuda para as tarefas domésticas. No entanto, o pico da sobrecarga feminina ocorre no início dos 30 anos, quando muitas formam família, ficando em desvantagem em relação aos homens que podem focar no trabalho.

Metodologia

Os pesquisadores escolheram a PNAD 2015 por ser a melhor para medir o tempo dedicado às tarefas domésticas. “Nossa pesquisa adicionou dados sobre cuidados com crianças e dependentes não incluídos na PNAD”, afirma Jordana, que também coordena a Secretaria Nacional da Política de Cuidado.

Ela comenta que até hoje as PNADs indicam imprecisamente o tempo de trabalho invisível, pois apenas uma pessoa responde pela casa. Um projeto piloto da POF 2025 realizou entrevistas individuais sobre uso do tempo, apontando para futuras pesquisas mais detalhadas.

Se considerado o valor econômico, o trabalho invisível equivaleria a pelo menos 8,5% do PIB, segundo pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Essas tarefas incluem cozinhar, limpar, lavar roupas, fazer compras, cuidar de animais, ajudar com as tarefas escolares, e cuidar da saúde de crianças e idosos.




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