Para cada dólar investido globalmente na proteção da natureza, cerca de trinta dólares são usados para degradá-la. Esse desequilíbrio agrava a crise do clima e afeta a economia mundial, impactando diretamente setores estratégicos do Brasil, como o agronegócio, e prejudicando a competitividade do país.
Rogério Studart, conselheiro do HUB de Economia e Clima do Instituto Clima e Sociedade (iCS), analisou um relatório recente do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, chamado State of Finance for Nature 2026.
Segundo o estudo da ONU, em 2023, foram investidos globalmente cerca de 220 bilhões de dólares em soluções que protegem e restauram a natureza, como conservação de ecossistemas e infraestrutura verde. No entanto, aproximadamente 7,3 trilhões de dólares foram destinados a atividades que prejudicam o meio ambiente, como a expansão dos combustíveis fósseis, desmatamento, poluição e uso inadequado do solo. Esse valor é mais de 30 vezes maior que o investimento em proteção ambiental.
Destes recursos prejudiciais, 4,9 trilhões vieram do setor privado, principalmente dos setores de energia, mineração, infraestrutura e indústria pesada, e 2,4 trilhões foram subsídios públicos que causam danos ao meio ambiente, principalmente nos setores de combustíveis fósseis, agricultura e construção.
Rogério Studart destaca que o principal obstáculo para o financiamento da proteção climática não é a falta de soluções, mas sim o fato de a economia global ainda funcionar baseada nos combustíveis fósseis e no desmatamento, que são muito lucrativos e politicamente protegidos. Isso reduz os investimentos na transição para uma economia mais sustentável e na proteção contra eventos climáticos extremos que estão aumentando em frequência e intensidade. Essa situação é grave para o Brasil, que está tentando fazer essa transição mas necessita de investimentos para adaptação e resiliência.
Studart enfatiza que, sem ações firmes do Estado para incentivar o setor privado por meio de impostos, subsídios, crédito e políticas públicas, a transição para uma economia verde não acontecerá sozinha. Também não haverá recursos suficientes para investir em preservação, recuperação e adaptação, essenciais para proteger um dos maiores patrimônios do Brasil: sua natureza rica e abundante. Manter o modelo atual aumenta os riscos ambientais, econômicos e sociais, prejudicando o crescimento sustentável, a competitividade internacional e o futuro do país.
Informações do Estadão Conteúdo.
