VINICIUS SASSINE E THAÍSA OLIVEIRA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
O Banco Master trocou carteiras de crédito com o Banco de Brasília (BRB) depois de o BRB encontrar fraudes nas carteiras que tinha comprado inicialmente do Master. Entre os créditos oferecidos, estavam ativos de pessoas que receberam auxílio emergencial, empresas com pouco capital e uma empresa que administra cemitérios em São Paulo.
O próprio BRB comunicou ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre esses ativos em 18 de novembro do ano passado, mesmo dia em que o Banco Central anunciou o fechamento do Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Um relatório de 33 páginas elaborado pelo Coaf mostrou que as carteiras oferecidas ao BRB pelo Master têm problemas e podem ser irregulares, envolvendo transações de R$ 6,6 bilhões.
Segundo a Polícia Federal, o Master criou carteiras falsas de crédito consignado e vendeu ao BRB por R$ 12,2 bilhões. Após questionamentos do Banco Central, o BRB pediu para o Master substituir as carteiras fraudulentas.
Mesmo com a substituição, o Banco Central exigiu que o BRB guardasse ao menos R$ 5 bilhões para cobrir possíveis prejuízos, alertando que o valor pode ser maior devido à baixa qualidade dos ativos.
A defesa de Vorcaro não respondeu às perguntas da reportagem, e o BRB também não se posicionou sobre a aceitação desses ativos.
Na segunda-feira (20), o BRB anunciou um acordo para transferir a um fundo de investimentos administrado pela Quadra Capital ativos que vêm do Banco Master, totalizando R$ 15 bilhões. A maior parte é de créditos consignados do Credcesta, programa para servidores públicos.
Auxílio emergencial
O Coaf identificou quatro carteiras de crédito vendidas ao BRB que foram criadas por empresas cujos donos ou administradores receberam auxílio emergencial durante a pandemia. Essas carteiras somam R$ 768,3 milhões.
Esses créditos vieram de empréstimos feitos por essas empresas e depois repassados ao Master. Na troca com o BRB, o Master ofereceu essas carteiras.
Em três casos, o beneficiário do auxílio é a mesma pessoa: Everton Mendonça Pereira. Ele é sócio ou administrador da Gran Viver Urbanismo, que produziu direitos de crédito de R$ 213 milhões para o Master, vendidos ao BRB. Everton também aparece na RMEX Construtora, que gerou outros R$ 211 milhões, e na SEJ Consultoria e Incorporação, com R$ 164 milhões em créditos.
Dados do governo federal mostram que Everton recebeu R$ 7,2 mil em auxílio emergencial entre abril de 2020 e janeiro de 2022.
Outro beneficiário citado é Natan Aparecido Barros, que recebeu R$ 2,4 mil em 2020. Ele é presidente da Gran Viver Urbanismo, onde Everton é diretor. Everton está associado a 51 CNPJs e Natan a 45.
A reportagem tentou contato com ambos, sem sucesso. A Gran Viver afirmou que associações entre terceiros e operações da empresa são imprecisas, destacando seus 45 anos desenvolvendo empreendimentos imobiliários.
Também fazem parte da negociação créditos de R$ 180,3 milhões ligados à Bloko CP e ao fundo Terravista, cujo único cotista é Leonardo Lacerda Nolasco, que recebeu R$ 3 mil em auxílio emergencial em 2020.
A empresa Bloko não respondeu às perguntas da reportagem, que não conseguiu localizar Nolasco.
Reportagens anteriores mostraram que entre os ativos do Master para o BRB estavam bares, restaurantes, ações da Ambipar, dívidas em atraso, ações desvalorizadas e imóveis, que são difíceis de vender.
O relatório do Coaf lista também ativos de empresas com capital social muito baixo, como R$ 1.000 e R$ 150.
Outro ativo importante de R$ 118,2 milhões envolve o grupo Cemitérios e Crematórios SP, que administra cemitérios em São Paulo desde que esses serviços foram privatizados durante a gestão de Ricardo Nunes (MDB).
O grupo Maya, nome fantasia da concessionária, é responsável por vários cemitérios na capital paulista. Direitos de crédito relacionados a essa operação foram incluídos no pacote oferecido ao BRB.
Recentemente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino pediu explicações à prefeitura de São Paulo sobre possíveis ligações entre essas concessionárias e o Banco Master.
A Prefeitura respondeu que as investigações são de responsabilidade do STF e que os serviços funerários e cemitérios continuam funcionando normalmente.
O grupo Maya não respondeu aos contatos da reportagem.
Também está na lista uma operação com Bruno Lemos Ferrari, sócio da Oncoclínicas do Brasil Serviços Médicos, cujo crédito de R$ 657 milhões foi ofertado ao BRB.
O relatório aponta que a renda declarada pelo empresário não condiz com o valor das parcelas da operação, que somam R$ 14,3 milhões mais encargos. A Oncoclínicas não quis comentar.
