O presidente Luiz Inácio Lula da Silva começa seu próximo mandato com um recorde de votos, mas enfrentará um Congresso Nacional mais forte da oposição. Para governar bem, será preciso negociar constantemente e formar alianças amplas, indo além dos cargos principais do governo.
Especialistas do Seminário Brasil 2027 – Desafios do Novo Ciclo, realizado pela Fundação Casa de Rui Barbosa, destacaram que a direita terá a maioria das cadeiras no Legislativo. Esse grupo inclui apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro e partidos como o PP e os Republicanos.
Por isso, os partidos do centrão terão papel essencial na construção de uma maioria no Congresso, principalmente na Câmara dos Deputados. Negociar com esses partidos será fundamental para avançar a agenda do governo.
Um dos primeiros desafios será a escolha dos presidentes da Câmara e do Senado, prevista para fevereiro. Segundo o professor da Universidade de Brasília, Lúcio Rennó, “Quem tem poder hoje são o presidente da Câmara e o do Senado; eles decidem a agenda legislativa, controlam o impeachment e várias nomeações”.
O cientista político Cláudio Couto, da FGV, acredita que a oposição atuará tentando dificultar os avanços. “É uma direita que não aceita o adversário e vai tentar sabotar”, afirmou, citando a resistência à reforma tributária do governo.
Além de dialogar com o centrão, especialistas ressaltam a importância de melhorar a coordenação política dentro do governo. A Casa Civil será fundamental para mediar a relação entre os partidos que fazem parte do governo e o Congresso.
Espera-se que os projetos enviados pelo Palácio do Planalto já considerem, desde a sua elaboração, os interesses dos diversos grupos aliados. As negociações serão detalhadas, até mesmo nas palavras de cada texto apresentado.
A participação da sociedade é vista como uma ferramenta importante para apoiar a agenda do governo e defender pautas democráticas. A professora da PUC-Rio, Talita Tanscheit, destaca que o PT deve manter “ligações constantes” com movimentos progressistas e apostar em “inovações democráticas”.
Ela aponta que a mobilização observada no segundo turno foi inédita. “Foi a primeira vez que um protesto teve como objetivo claro colocar o voto na urna”, explicou, diferenciando esse movimento de manifestações recentes no Chile e na Colômbia.
Temas defendidos pela extrema-direita, como reduzir a maioridade penal e reformar o Judiciário, podem entrar nas negociações políticas. Couto acredita que a redução para 16 anos aparecerá como uma “proposta intermediária”, diferente da defesa radical da redução para 14 anos.
A insatisfação popular com o Supremo Tribunal Federal pode fortalecer o debate sobre reformas profundas na Corte. “Com sua legitimidade abalada, não só volta a discussão do impeachment, mas também de reformas importantes”, concluiu Rennó.

