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A inteligência é hereditária?

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A inteligência é uma característica muito complexa dada pela somatória de componentes genéticos e não genéticos, alvo de diversos estudos genéticos

Inteligência ou Inteligências?

Em termos gerais, “inteligência” poderia ser definida como a habilidade de raciocinar, planejar, resolver problemas, ter pensamentos abstratos, compreender idéias complexas, aprender rapidamente e aprender das experiências. Apesar de que, por décadas, os testes tradicionais de inteligência em geral só levavam em consideração as inteligências verbal e a lógica/matemática, este conceito está mudando.

Em 1983, o psicólogo americano Howard Gardner publicou o livro Frames of Mind: The Theory of Multiple Intelligences ou, em português, “Estruturas da Mente – A Teoria das Múltiplas Inteligências”, onde ele descreve sete dimensões da inteligência (inteligência visual/espacial, inteligência musical, inteligência verbal, inteligência lógica/matemática, inteligência interpessoal, inteligência intrapessoal e inteligência corporal/cinestética).

Após a publicação de Estruturas da Mente Gardner propôs duas novas dimensões de inteligência: a inteligência naturalista e a inteligência existencialista. Mais recentemente, em 1997, a física e filosofa americana Dana Zohar publicou seu livro ReWiring the Corporate Brain ou, em português, Religação do Cérebro Corporativo, sugerindo a existência de mais um tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida, a inteligência espiritual.

Hoje, entende-se que cada pessoa tem uma desses 10 tipos de inteligências mais desenvolvida, e que se sobrepõe sobre as outras.

Francis Galton, o pioneiro nos estudos do componente genético da inteligência

Um dos primeiros a se aprofundar na tentativa de compreender qual o papel da genética na inteligência foi Francis Galton (1822-1911), antropólogo, meteorologista, matemático e estatístico inglês. Dalton era primo mais novo de Charles Darwin (1809-1882), e quando Darwin publicou seu famoso livro On the Origin of Species, em português, A Origem das Espécies, em 1859, Galton passou a ter ideias muito deterministas em relação ao componente genético da inteligência, que foram colocadas em seu livro publicado em 1869, Hereditary Genius, em português, O Gênio Hereditário.

Se, por seu lado, o primo Charles Darwin trouxe as ideias da seleção natural, Galton propôs a seleção artificial para o aprimoramento da população humana segundo os critérios considerados melhores à época. Galton achava que as pessoas já nasciam com uma vasta diferença na capacidade intelectual, tão grande que nenhuma disparidade social, econômica ou educacional conseguiria interferir de modo importante nesta predeterminação genética.

Atribui-se a ele pensamentos como: “um homem notável teria filhos notáveis”; “a raça humana poderia ser melhorada caso fossem evitados “cruzamentos indesejáveis”; “devemos incentivar o nascimento de indivíduos mais notáveis ou mais aptos na sociedade e desencorajar o nascimento dos inaptos”.

Galton, reunindo duas expressões gregas, eu geneía (bom nascimento), criou em 1883 o conceito de eugenia. Nesta linha de raciocínio, Galton propôs o desenvolvimento de testes de inteligência para selecionar homens e mulheres brilhantes, destinados à reprodução seletiva. O impacto de seus estudos formou a base para os famosos testes de QI utilizados até hoje.

Durante grande parte dos séculos XIX e XX, acreditou-se que a inteligência podia ser facilmente medida, determinada e comparada através de testes de QI. No entanto, com o passar do tempo, o teste de QI foi caindo em descrédito, pois pouco a pouco foi se notando que nem sempre as pessoas mais inteligentes e bem sucedidas obtinham os melhores escores de QI.

Como investigar se a inteligência é genética?

Se uma característica é claramente transmitida de geração em geração sem maior influência do meio ambiente, fica evidente seu componente genético. Mas e quando há dúvidas se há componente genético, se há componente ambiental, e qual parcela cada um destes ocupa?

Quando ainda não era possível analisar o genoma humano em detalhes, o modelo mais utilizado para tentar responder esta pergunta era a análise de gêmeos idênticos e compará-los com gêmeos não-idênticos, irmãos não gêmeos e pessoas adotadas. Estes estudos partem de um princípio simples, o fato de que gêmeos idênticos (monozigóticos) têm exatamente a mesma genética, e gêmeos diferentes (dizigóticos, fraternos) não.

Para características totalmente determinadas pela genética, a concordância desta característica é cerca de 100% em gêmeos idênticos, ou seja, se um tem determinada característica, o outro gêmeo também tem ou terá. Para características determinadas só pelo meio ambiente, a concordância entre gêmeos idênticos será muito menor, pois não é a genética que manda. Para características determinadas tanto pela genética quanto pelo meio ambiente, a concordância em gêmeos idênticos será maior (em geral mais que o dobro) da encontrada em gêmeos diferentes.

Nos últimos 90 anos, incontáveis estudos usando este modelo tentaram demonstrar qual o papel da genética e do meio ambiente na inteligência. Em 2015, um amplo estudo publicado na revista científica Nature Genetics revisou a reanalisou a informação contida em 2.748 publicações científicas dos últimos 50 anos, levando em conta 7.804 características de 14.558.903 pares de gêmeos.

Concluiu que o componente genético na variação da inteligência é de 54%. E mais, que o componente genético desta variabilidade aumenta quanto mais velhos ficamos; 20% na infância, 40% na adolescência, chegando a 60% nos adultos. Estes estudos tanto demonstraram que a genética é um fator importante na inteligência, quanto que ela não é o único fator determinante.

Mas foi só quando ocorreram os enormes avanços trazidos pela tecnologia de análise do DNA, ocorrido nos últimos 20 anos, que os pesquisadores passaram a tentar determinar não apenas “quanto” mas “quais” seriam estas variantes genéticas responsáveis pelas diferenças entre os graus de inteligência das pessoas.

O DNA e a inteligência

Com o avanço dos conhecimentos sobre nosso DNA, advindos da publicação do sequenciamento do Genoma Humano em 2001, inúmeros pesquisadores se dedicaram a testar variações ao nível do DNA, comparando grupos de pessoas com inteligência acima da média, com indivíduos com QI médio, a procura do “gene da inteligência”.

Um amplo estudo publicado em Julho de 2017 na revista científica Nature Genetics levou em conta praticamente todos estes trabalhos realizados nos últimos 20 anos. Compararam os achados previamente relatados de variantes genéticas em 78.308 indivíduos e detectaram variáveis genéticas em 52 genes relacionando-as a capacidade cognitiva. Porém o impacto destes 52 genes explica apenas 4.8% da variabilidade da inteligencia. Além disso, nenhuma das 52 variantes genéticas encontradas, sozinha ou em conjunto, tem poder de predição importante.

Inteligência é uma característica extremamente complexa!

É claro que não há um “gene da inteligência”, pois inteligência é uma característica muito complexa. Quando dizemos “complexa”, entendemos que o componente genético não é determinado por um único gene, mas sim pela interação entre as proteínas produzidas por muitos genes, e é multifatorial. Ou seja, inteligência é dada pela somatória de componentes genéticos e não genéticos.

E quando se investiga características complexas, a regra tem sido justamente não conseguir explicar através de análises do DNA, os números robustos trazidos pelos estudos de gêmeos. Por exemplo, estudos de gêmeos sugerem que a genética responde por cerca de 80% da variabilidade da altura entre as pessoas, mas as análises de DNA só encontraram até hoje variantes que explicam menos de 10% desta variabilidade.

Aonde está o resto da variabilidade genética da inteligência?

A ciência não sabe responder a esta pergunta, mas existem hipóteses:

  1. As variantes responsáveis pelo componente genético da inteligencia seriam tão raras que os estudos atuais não estão conseguindo captar. Precisaríamos comparar milhões de pessoas (e não milhares como vem sendo feito atualmente), para detectar estas variante raríssimas;
  2. As variantes genéticas não estariam agindo de forma isolada, mas sim interagindo entre elas e com inúmeras outras variantes no genoma, assim como interagindo com os meio-ambientes celulares, corporais, e sociais, de modo absolutamente complexo;
  3. Os estudos de gêmeos estavam superestimados;
  4. Estamos procurando o componente genético no lugar errado! A variação genética não estaria na sequência do nosso DNA, mas em mecanismos que alteram sua principal função que é produzir proteínas. São os chamados efeitos epigenéticos: Esta é uma hipótese cada vez mais aceita, pois respeita e coloca em sintonia tanto a influência genética quanto a do meio ambiente, agindo ao mesmo tempo. Seria o fim do embate secular entre Nature (genética) X Nurture (meio ambiente). Um estaria influenciando o outro ao mesmo tempo!

Deficiência intelectual severa é hereditária?

Em um trabalho publicado na revista científica PNAS em 2016, um grupo de pesquisadores de Israel e da Suécia estudaram o QI em mais de 1 milhão de irmãos e 9.000. Observaram que irmãos de indivíduos com deficiência intelectual severa têm um QI médio de 100, já irmãos de indivíduos com deficiência intelectual leve têm um QI médio de 85. Ou seja, QI intermediário entre indivíduos com deficiência intelectual severa e controles.

Concluíram que, com a exceção de raras síndromes genéticas hereditárias, a maioria dos casos de deficiência intelectual severa não é hereditária, o que vai de encontro aos achados de que alterações genéticas encontradas em pessoas com deficiência intelectual severa são mutações raras causadas por “acidentes” genéticos, não-hereditários.

Extrema habilidade intelectual é hereditária?

Em tese, um grupo grande de indivíduos com alta inteligência seria enriquecido de “variantes genéticas que conferem inteligência”, e, portanto, seria um grupo ideal para estudos de genética da inteligência. O mais importante estudo genético de gêmeos que focou na genética da extrema habilidade intelectual, foi publicado na revista científica Intelligence em 2015.

Liderados pelo mais importante geneticista comportamental da atualidade, Robert Plomin, do Kings College of London, analisaram 3 milhões de recrutas dos exércitos sueco e israelense, e selecionaram os 5% com maior inteligência (QI >125). Destes, avaliaram 9.000 pares de gêmeos (3.039 idênticos, 3.196 não-idênticos e 2.780 gêmeos que não sabiam se eram idênticos ou não), assim como 354.80 irmãos não gêmeos, todos com 18 anos.

Concluíram que, justamente ao contrário da deficiência intelectual severa, a inteligência extremamente alta é tão hereditária quanto é no resto dos indivíduos com inteligência normal. Este resultado entusiasmou os pesquisadores, que acreditaram então, que fazendo estudos de DNA neste subgrupo de indivíduos com altas habilidades intelectuais, teriam mais sucesso do que no grupo de inteligência média ou deficiência intelectual severa.

Porém, um estudo de casos e controles com 1.409 indivíduos selecionados por terem QI >170 e 3.253 controles não selecionados, publicado há um ano na revista científica Molecular Psychiatry novamente não encontrou nenhuma variante genética que pudesse ser reproduzida em outra coorte de indivíduos com extrema inteligência. Os pesquisadores concluíram que raras variantes genéticas são mais prejudiciais do que benéficas à inteligência, e que as variantes associadas com extrema inteligência podem ser raríssimas.

Dilemas éticos no estudo da genética da inteligência

Apesar de que até a presente data as pesquisas só conseguirem desvendar um componente ínfimo da parcela que se credita à genética na inteligência, alguns pesquisadores de genética comportamental, em especial o grupo liderado pelo mais importante Geneticista comportamental da atualidade, Robert Plomin, do Kings College of London, já está elaborando análises genéticas, baseadas nos 52 genes já identificados, para predizer se pessoas ou grupos têm maior ou menor propensão à inteligência.

Só no segundo semestre de 2017, estes grupo de pesquisa já publicou cinco artigos científicos tentando demonstrar a utilização de testes genéticos para predizerem vários aspectos relacionados a inteligência (veja as referências* no fim deste artigo), questões relacionadas à genética estão envoltas em dilemas éticos, mas quando assunto é pesquisar a genética da inteligência humana, estes dilemas afloram a pele.

A inteligência está intimamente ligada com o senso de quem nós somos e quem podemos nos tornar, e inúmeras preocupações surgem, entre elas:

  • Potencial uso deste conhecimento para “produzir bebês melhores”;
  • Perigo de que se espalhem idéias de que pelas limitações determinadas por nossos genes, nós não somos responsáveis pelo que atingimos ou deixamos de atingir;
  • Graves erros do passado aonde pesquisas genéticas foram utilizadas para impulsionar agendas racistas e classistas, incluindo idéias de que intervenções em grupos desavantajados seriam limitadas pelas suas limitações genéticas, aumentando mais ainda a desigualdade social;
  • Preocupações com a privacidade dos sujeitos destas pesquisas;
  • Preocupações de que achados entre indivíduos serão erroneamente extrapolados para conclusões sobre diferentes populações;

Cautela com testes genéticos

Em uma era em que testes genéticos são oferecidos por algumas empresas diretamente aos consumidores sem a orientação de profissionais de saúde habilitados para orientá-los, e na qual se aperfeiçoam a cada dia técnicas de correção do DNA que poderão ser aplicadas a embriões humanos, a possível identificação de variantes genéticas relacionadas à inteligência faz com que o que era pura ficção científica há muito pouco tempo atrás, passe a ser realidade em curto espaço de tempo.

Um bom exemplo da diminuição entre o que era ficção e o que em breve será realidade, ocorre quando lembramos que o famoso filme GATTACA, lançado como ficção científica há exatos 20 anos atrás, e que faz uma narrativa sobre um “futuro possível” onde o destino de todo o ser humano depende de seu código genético.

As sociedades precisam se preparar para o dia em que, tecnicamente, poderemos predizer se um embrião, um feto ou um recém-nascido terá o potencial genético de ser mais inteligente que o outro. No que se refere ao conhecimento e ao uso da informação genética sobre a inteligência humana, a ficção científica está, a cada dia que passa, menos parecida com ficção, e mais com drama.

Referências*:

  • Multi-polygenic score approach to trait prediction. Krapohl E, Patel H, Newhouse S, Curtis CJ, von Stumm S, Dale PS, Zabaneh D, Breen G, O’Reilly PF, Plomin R. Mol Psychiatry. 2017 Aug 8.
  • Do MZ twins have discordant experiences of friendship? A qualitative hypothesis-generating MZ twin differences study. Asbury K, Moran N, Plomin R. PLoS One. 2017 Jul 20;12(7):e0180521. Genetic Influence on Intergenerational Educational Attainment. Ayorech Z, Krapohl E, Plomin R, von Stumm S. Psychol Sci. 2017 Jul 1
  • Genome-Wide Polygenic Scores Predict Reading Performance Throughout the School Years. Selzam S, Dale PS, Wagner RK, DeFries JC, Cederlöf M, O’Reilly PF, Krapohl E, Plomin R. Sci Stud Read. 2017 Jul 4;21(4):334-349.
  • The genetic architecture of oral language, reading fluency, and reading comprehension: A twin study from 7 to 16 years. Tosto MG, Hayiou-Thomas ME, Harlaar N, Prom-Wormley E, Dale PS, Plomin R. Dev Psychol. 2017 Jun;53(6):1115-1129.
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Saúde

Quando a vacina chinesa contra covid-19 ficará disponível no Brasil?

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Vacina do laboratório Sinovac desenvolvida em parceria com o governo João Doria (PSDB-SP) foi aprovada para uso emergencial na China. Por que não aqui?

Coronavac: vacina está sendo testada em 9 mil pessoas no Brasil (Governo do Estado de São Paulo/Divulgação)

 

Um estudo divulgado pelo governo de São Paulo em relação à vacina desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac com o Instituto Butantan contra o novo coronavírus apontou que, dos 50 mil voluntários testados na China, 94,7% não apresentaram efeitos colaterais graves — aqueles que apresentaram algum sintoma (5,36%) tiveram dor no local da aplicação, fadiga e febre.

No Brasil, 9.000 voluntários participam da última fase de testes clínicos em seis estados brasileiros. Se o cronograma do governo São Paulo for mantido, a expectativa é que o processo vá até outubro.

A Coronavac é baseada em um vírus inativado criado em laboratório pelos pesquisadores. Com esse tipo de vacina, a produção de anticorpos é estimulada pelo organismo humano, o que faz com que o indivíduo vacinado não sofra com quadros graves da doença. Segundo o Sinovac, cerca de 100 milhões de doses poderão ser fabricadas por ano.

Na China, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou o uso emergencial da vacina, apesar de os testes clínicos ainda não terem sido finalizados e a eficácia real da proteção não ser totalmente conhecida. A conclusão dos estudos sobre a Coronavac devem ser divulgados somente em novembro deste ano.

Por que não no Brasil?

Para que uma vacina seja aprovada por aqui, é preciso que os resultados dos testes clínicos tenham bons resultados e mostrem que a vacina é eficaz contra a doença e não causa maiores transtornos, como efeitos colaterais graves.

Depois disso, ela precisa passar por uma aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) — para que o processo corra mais rápido, o estado de São Paulo pode pedir, assim como na China, uma aprovação emergencial. Já foi divulgado que o governo deve pedir uma aprovação quando a vacina se mostrar ao menos 50% eficaz em uma análise preliminar.

Segundo o governador de São Paulo, João Doria (PSDB-SP), a imunização poderia começar em dezembro com a aprovação do órgão regulatório.

Na China, por exemplo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou o uso emergencial da vacina.

A previsão é de que os 46 milhões de habitantes de São Paulo serão vacinados contra a covid-19 até fevereiro de 2021. Cerca de 60 milhões de doses poderão ser recebidas no estado.

Doria também afirmou recentemente que a Coronavac estará disponível no Sistema Único de Saúde (SUS) já em janeiro de 2021. “Se os testes forem concluídos com bons resultados, ela já poderá ser produzida, mediante autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, na segunda quinzena do mês de novembro, ou nos primeiros dias de dezembro. Aí teríamos uma quantidade necessária para iniciar a imunização de brasileiros de todo o país no início de janeiro de 2021 pelo Sistema Único de Saúde“, disse ele em entrevista à Rádio Itatiaia.

A vacina chinesa não será somente importada pelo governo paulista. Uma fábrica será construída em São Paulo, com previsão para que as obras sejam iniciadas em novembro deste ano, com capacidade de produzir até 120 milhões de doses da Coronavac.

O Brasil é o terceiro país mais afetado pela doença no mundo, atrás somente dos Estados Unidos e da Índia, com 4.732.309 casos e 141.741 mortes, segundo o monitoramento em tempo real da universidade americana Johns Hopkins.

Quem terá prioridade para tomar a vacina?

Nenhuma vacina contra a covid-19 foi aprovada ainda, mas os países estão correndo para entender melhor qual será a ordem de prioridade para a população uma vez que a proteção chegar ao mercado. Um grupo de especialistas nos Estados Unidos, por exemplo, divulgou em setembro uma lista de recomendações que podem dar uma luz a como deve acontecer a campanha de vacinação.

Segundo o relatório dos especialistas americanos (ainda em rascunho), na primeira fase deverão ser vacinados profissionais de alto risco na área da saúde, socorristas, depois pessoas de todas as idades com problemas prévios de saúde e condições que as coloquem em alto risco e idosos que morem em locais lotados.

A terceira fase deve ter como foco jovens, crianças e trabalhadores essenciais que não foram incluídos nas duas primeiras. É somente na quarta e última fase que toda a população será vacinada.

Quão eficaz uma vacina precisa ser?

Segundo uma pesquisa publicada no jornal científico American Journal of Preventive Medicine uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia. Para evitar que outras aconteçam, a prevenção precisa ser 70% eficaz.

Uma vacina com uma taxa de eficácia menor, de 60% a 80% pode, inclusive, reduzir a necessidade por outras medidas para evitar a transmissão do vírus, como o distanciamento social. Mas não é tão simples assim.

Isso porque a eficácia de uma vacina é diretamente proporcional a quantidade de pessoas que a tomam, ou seja, se 75% da população for vacinada, a proteção precisa ser 70% capaz de prevenir uma infecção para evitar futuras pandemias e 80% eficaz para acabar com o surto de uma doença.

As perspectivas mudam se apenas 60% das pessoas receberem a vacinação, e a eficácia precisa ser de 100% para conseguir acabar com uma pandemia que já estiver acontecendo — como a da covid-19.

Isso indica que a vida pode não voltar ao “normal” assim que, finalmente, uma vacina passar por todas as fases de testes clínicos e for aprovada e pode demorar até que 75% da população mundial esteja vacinada.

Os tipos de vacina disponíveis

Alguns tipos de vacinas têm sido testados para a luta contra o vírus. Uma delas é a de vírus inativado, que consiste em uma fabricação menos forte em termos de resposta imunológica, uma vez que nosso sistema imune responde melhor ao vírus ativo. Por isso, vacinas do tipo tem um tempo de duração um pouco menor do que o restante e, geralmente, uma pessoa que recebe essa proteção precisa de outras doses para se tornar realmente imune às doenças. É o caso da Vacina Tríplice (DPT), contra difteria, coqueluche e tétano. A vacina da Sinovac, por exemplo, segue esse padrão.

Outro tipo de vacina é a de Oxford, feita com base em adenovírus de chimpanzés (grupo de vírus que causam problemas respiratórios), e contendo espículas do novo coronavírus.

As outras vacinas em fases clínicas já avançadas também são baseadas em espículas, mas apresentadas em forma de RNA mensageiro, como as da Pfizer e da Moderna.

Como estão as 9 potenciais?

Sinovac Biotech: a vacina chinesa que começou os testes em fase 3 no Brasil na última segunda-feira, 20, pretende fabricar até 100 milhões de doses anuais. Por aqui, 9 mil profissionais da área da saúde receberão a vacina.

Sinopharm (Wuhan e Pequim): a vacina com base em vírus inativado, que se mostrou capaz de produzir resposta imune ao vírus, começou as fases 3 de testes neste mês nos Emirados Árabes Unidos. Cerca de 15 mil voluntários participaram do período de testes e a empresa chinesa acredita que a opção estará disponível para o público já no final do ano.

Oxford e AstraZeneca: os resultados preliminares das fases 1 e 2 da vacina com mais de mil pessoas mostraram que ela foi capaz de induzir uma resposta imune à doença. As fases dois (que ainda está ocorrendo no Reino Unido) e três de testes (acontecendo no Reino Unido, Brasil e África do Sul) devem garantir a eficácia completa dela. A opção é tida como a mais promissora pela OMS.

Moderna: a empresa americana iniciou última fase de testes de sua vacina baseada no RNA mensageiro no dia 27 de julho. O teste vai incluir 30 mil pessoas nos Estados Unidos e o governo investiu pesado: cerca de 1 bilhão de dólares para apoiar a pesquisa. A expectativa da empresa é produzir 500 milhões de doses por ano.

Instituto Gamaleya: em 11 de agosto a Rússia registrou a primeira vacina do mundo contra a covid-19. A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus e é por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima. Na última segunda-feira, 31, o país anunciou que o primeiro lote de sua vacina, a “Sputnik V”, estará disponível já neste mês.

 

Pesquisa aponta que uma vacina precisa ter 80% de eficácia para colocar um ponto final à pandemia

CanSino: a vacina chinesa usa um vírus inofensivo do resfriado conhecido como adenovírus de tipo 5 (Ad5) para transportar material genético do coronavírus para o corpo e, segundo a companhia, conseguiu induzir uma resposta imune nos indivíduos que foram testados. No começo de agosto, a China concedeu a primeira patente da vacina.

Janssen Pharmaceutical Companies: a vacina, em parceria com a gigante Johnson & Johnson conseguiu induzir imunidade robusta em testes pré-clínicos. A tecnologia usada para a produção dela é a mesma utilizada no desenvolvimento da vacina do Ebola, que inclui o uso do vírus inativado da gripe comum, incapaz de ser replicado.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

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Saúde

É possível que vacinas para dengue tenham protegido população contra covid

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Pesquisa brasileira aponta correlação inversa entre casos de dengue e covid-19; movimento não é o mesmo em regiões com alta densidade demográfica

Mosquito da dengue (dimarik/Getty Images)

Lugares em que grande parte da população contraiu dengue no ano passado e no começo deste ano demoraram mais tempo para ter transmissão comunitária exponencial da Covid-19 e registraram números menores de casos e de mortes causadas pelo novo coronavírus, indicando uma possível interação imunológica entre os dois vírus, segundo estudo liderado pelo cientista brasileiro Miguel Nicolelis.

De acordo com Nicolelis, professor catedrático da Universidade Duke, na Carolina do Norte, que desde o início da pandemia se dedica a estudar o comportamento do coronavírus no Brasil, há, inclusive, a possibilidade de que vacinas aprovadas ou em desenvolvimento para a dengue possam provocar alguma forma de proteção contra o novo coronavírus.

“Essa descoberta surpreendente levanta a intrigante possibilidade de uma reação cruzada entre o vírus da dengue e o SARS-CoV-2. Se comprovada correta em futuros estudos, esta hipótese pode significar que a infecção pela dengue ou uma eventual imunização com uma vacina eficaz e segura para dengue poderia produzir algum tipo de proteção imunológica para SARS-CoV-2, antes de uma vacina para SARS-CoV-2 se tornar disponível”, diz o estudo, visto com exclusividade pela Reuters, que foi enviado a um repositório de pesquisas a serem publicadas em revistas científicas.

O pesquisador ressaltou, em entrevista exclusiva à Reuters, que já existem trabalhos mostrando que pessoas que têm sorologia positiva para dengue testam positivo para coronavírus sem ter coronavírus, sugerindo que essas pessoas produzem um anticorpo que age nas duas doenças.

“Isso indica que existe uma interação imunológica entre os dois vírus que ninguém poderia esperar, porque os dois vírus são de famílias completamente diferentes”, afirmou.

Comparação entre distribuição geográfica de casos de Covid-19 e sua incidência até 30 de junho de 2020 e de casos de dengue e incidência no Brasil até 31 de maio de 2020; e soma de todos os casos de dengue e incidência de 2019 até 31 de maio de 2020

Comparação entre distribuição geográfica de casos de Covid-19 e sua incidência até 30 de junho de 2020 e de casos de dengue e incidência no Brasil até 31 de maio de 2020; e soma de todos os casos de dengue e incidência de 2019 até 31 de maio de 2020. UFPB/via REUTERS (Reuters/Reuters)

O estudo aponta uma significativa correlação negativa entre incidência, mortalidade e taxa de crescimento da Covid-19 e o percentual da população com níveis de anticorpos IgM para dengue nos Estados do Brasil, país que tem o terceiro maior surto de Covid-19 no mundo, com mais de 4,5 milhões, e o segundo maior número de mortes causadas pela doença, com quase 137 mil.

A observação foi feita por Nicolelis e sua equipe ao elaborarem um estudo sobre a disseminação geográfica da Covid-19 no Brasil e o papel das rodovias como fator de distribuição de casos. O cientista percebeu vazios de casos no mapa em determinadas regiões do país sem explicação aparente, e partiu em busca de possíveis explicações.

A resposta, segundo Nicolelis, apareceu ao analisar a distribuição geográfica dos casos de dengue no Brasil em 2019 e 2020, que ocupavam exatamente os buracos no mapa de casos da Covid-19. As curvas de casos das duas doenças reforçaram a descoberta, uma vez que o surto de dengue entrou em declive acentuado no país no mesmo momento da disparada do novo coronavírus.

“Foi um choque, foi um acidente total. Em ciência isso acontece, você está atirando para um lado e acerta no alvo que você nunca imaginou que iria atirar”, disse o pesquisador sobre a descoberta.

“Fui olhar no Ministério da Saúde se tinha alguma explicação para essas coisas estranhas, se tinham outros indicadores de doenças que eu não estava percebendo, e de repente encontro o mapa de dengue de 2020 do Brasil. Eu peguei o mapa de casos de coronavírus e coloquei lado a lado com o mapa de dengue, e encontrei o que a gente chama de distribuição complementar: regiões com pouco coronavírus estão cheias de dengue.”

Estados como Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, que tiveram alta incidência de dengue no ano passado e no começo deste ano, levaram muito mais tempo para atingir um patamar de elevada transmissão comunitária de Covid-19 do que Estados como Amapá, Maranhão e Pará, por exemplo, que tiveram poucos registros de dengue no mesmo período, de acordo com o estudo.

Enquanto o Amapá levou cerca de 60 dias para chegar a 500 casos de Covid-19 por 100 mil habitantes, o Paraná levou mais de 120 dias. Em comparação, o Amapá tem incidência de 5,4 casos de dengue por 100 mil habitantes este ano, enquanto o Paraná tem a maior incidência do país, com 2.295,8 casos por 100 mil.

O estudo pondera, no entanto, que em regiões com alta densidade demográfica há uma prevalência da Covid-19 mesmo quando há uma alta incidência de dengue.

“Os nossos resultados epidemiológicos sugerem a hipótese, que ainda precisa ser testada amplamente, que o SARS-CoV-2 compete com o vírus da dengue pelas mesmas pessoas, pelo mesmo pool de suscetíveis. Como o SARS-CoV-2 é transmitido homem-homem, ele teria uma grande vantagem para ganhar esta competição, em relação à dengue, que depende de um mosquito”, disse Nicolelis, lembrando que a pesquisa se trata de um estudo epidemiológico, sem ter sido realizado qualquer estudo sorológico.

A pesquisa aponta dados do Ministério da Saúde que mostram que os casos de dengue no Brasil, que começaram o ano em um ritmo muito mais acelerado do que em 2019, tiveram uma queda brusca a partir da semana epidemiológica de número 11 (encerrada em 13 de março), no mesmo momento em que houve uma aceleração dos casos de Covid-19. Mais do que isso, o surto de dengue se encerrou no país semanas antes do que no ano anterior, enquanto a Covid-19 avançava.

“Ainda de acordo com a nossa hipótese, à medida que o coronavírus se espalhou mais rapidamente e infectou mais gente, sobrariam menos pessoas para serem contaminadas pelo vírus da dengue, e isso poderia explicar a queda repentina da curva de dengue este ano que ocorreu em todo o mundo”, disse, minimizando a posição oficial das autoridades de saúde que apontam para possível subnotificação de dengue devido à pandemia.

Para validar a observação feita no Brasil, Nicolelis expandiu a análise da correlação entre dengue e coronavírus para outros 15 países da América Latina, África e Ásia, e o comportamento se repetiu, segundo ele.

Como exemplo, o pesquisador cita cidades a mais de 2.000 metros de altitude –onde não há dengue, uma vez que o mosquito transmissor não atinge esta altitude– como locais com grande incidência de casos de Covid-19.

“Quando a incidência de Covid-19 versus a incidência de dengue em 2019-2020 foi plotada para esses países, nós novamente obtivemos uma significativa correlação inversa exponencial. Em outras palavras, quanto mais casos de dengue um país teve durante a epidemia mundial de dengue em 2019 e nos primeiros meses de 2020, menos casos de Covid-19 o país registrou até julho de 2020. Basicamente, isso foi muito similar aos resultado obtidos usando dados para os Estados brasileiros”, afirma o estudo.

Como outra forma de controle do estudo, a equipe de Nicolelis também comparou as estatísticas de Covid-19 com os dados de chikungunya –doença também transmitida pelo mosquito Aedes aegypty– no Brasil, e não houve qualquer correlação, segundo ele.

Uma vez que ainda não há tratamento ou vacina disponíveis para Covid-19, Nicolelis defende que seu estudo pode abrir as portas para uma possível forma de combater a pandemia.

“Evidentemente que este é um estudo preliminar do ponto de vista do que fazer, mas ele abre uma porta que pode ser rapidamente explorada, e se ela for verdadeira, você pode ter um grau de proteção para coronavírus se você teve dengue ou se você é imunizado para dengue. Eu não sei dizer qual é a porcentagem, mas ela é suficiente para aparecer nesses gráficos. Alguma coisa existe”, afirmou.

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Saúde

Número de mortes por covid para de cair no estado de SP após 5 semanas

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Membros do Centro de Contingência afirmam que ainda é cedo para relacionar o aumento de mortes com as aglomerações vistas no último feriado

Covid-19: mesmo diante desses números, o governo destacou que o estado tem nesta segunda-feira, 21, a taxa mais baixa de ocupação de leitos de UTI (Getty/Getty Images)

Após cinco semanas de queda consecutiva na média diária de mortes por covid-19, o Estado de São Paulo viu esse cenário ser interrompido. De acordo com dados apurados pelo Estadão, a média diária de mortes na última semana epidemiológica no Estado de São Paulo, encerrada no dia 19, foi de 194, alta de 8% em relação à semana anterior. No entanto, na comparação com os últimos 14 dias, ainda há ligeira queda, de 1%.

Nas últimas semanas, o governo do Estado vinha divulgando os dados e o cenário mostrava uma redução ao longo do tempo na média diária de mortes nas semanas epidemiológicas: 252 óbitos na semana 33, depois 230 (semana 34), 222 (semana 35), 196 (semana 36) e 179 (semana 37). O dado da semana 38 não foi divulgado na entrevista coletiva que aconteceu no Palácio dos Bandeirantes.

Membros do Centro de Contingência Contra a Covid-19 demonstraram preocupação com a interrupção dessa queda, mas afirmaram que ainda estão avaliando se ela teria relação com aglomerações vistas no último feriado, de 7 de setembro, em que praias do litoral paulista ficaram cheias.

“É claro que preocupa. Mas ainda não há possibilidade de fazer relação direta dessa aglomeração com a piora que ocorreu. Temos que olhar com mais tempo. Nessa próxima semana ficaremos atentos ao monitoramento dos dados pra ver se há causa e efeito”, afirmou João Gabbardo dos Reis, que é membro do Centro de Contingência.

No total, o Estado de São Paulo contabiliza nesta segunda-feira, 21, 937.332 casos confirmados da doença e 33.984 óbitos.

Taxa de ocupação de leitos de UTI

Mesmo diante desses números, o governo destacou que o Estado tem nesta segunda-feira, 21, a taxa mais baixa de ocupação de leitos de UTI. O índice é de 47,7% no Estado e de 47% na Grande São Paulo. De acordo com a Secretaria Estadual da Saúde, estão internados nesses leitos 3.945 pacientes, entre casos confirmados e suspeitos. Em enfermaria, são 5.127 pessoas. Já se recuperaram da covid-19, segundo o balanço, 803.994 e foram 103.141 altas hospitalares.

“Essa é a nona semana consecutiva de queda em internações, com índices similares a maio. Mas ainda não podemos esquecer que estamos em quarentena. A vigilância nas regras deve ser mantida e devemos evitar aglomerações e respeitar o distanciamento social”, afirmou o secretário estadual da Saúde, Jean Gorinchteyn.

Todo o Estado de São Paulo está na fase amarela da quarentena desde o dia 11 de setembro. Na ocasião, foram alteradas as regras de classificação pelo Plano São Paulo. Com isso, as regiões só devem ser reclassificadas mensalmente. A próxima reclassificação se dará no dia 9 de outubro mas, caso algum lugar apresente piora, pode ser rebaixado excepcionalmente para a fase vermelha, a mais restritiva da quarentena.

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Saúde

Remédio de anticorpos reduz hospitalização de pacientes com covid-19

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A farmacêutica Eli Lilly and Co. anunciou que o remédio melhorou o quadro dos pacientes com covid-19 moderada

O estudo de estágio intermediário da farmacêutica testou três doses diferentes do LY-CoV555 (dowell/Getty Images

A Eli Lilly and Co. disse nesta quarta-feira que dados provisórios de testes mostraram que seu tratamento experimental de anticorpos diminuiu a necessidade de hospitalização e de visitas ao pronto-socorro de pacientes com covid-19 moderada

O estudo de estágio intermediário da farmacêutica testou três doses diferentes do LY-CoV555, um tratamento de anticorpos concebido para reconhecer e se atrelar ao novo coronavírus, com isso impedindo que a infecção se espalhe.

Analistas acreditam que os tratamentos de anticorpos podem ajudar alguns pacientes, já que a distribuição ampla de candidatas a vacina contra o coronavírus deve ser demorada.

Muitas empresas, como Regeneron Pharmaceuticals Inc. e Vir Biotechnology, também estão testando tratamentos de anticorpos contra a covid-19. Tais remédios são os primeiros a ser criados especificamente para combater a doença causada pelo coronavírus.

Do total de 302 pacientes tratados com três doses diferentes do LY-CoV555, cinco deles, ou 1,7%, tiveram de ser internados ou visitar um pronto-socorro — com o placebo, foram nove de 150, ou 6%, disse a Lilly.

Só a segunda dose de 2.800 miligramas atingiu o principal objetivo do teste, que era reduzir a carga viral detectada em pacientes na comparação com um placebo 11 dias após o tratamento, informou a Lilly.

Não se relatou nenhum efeito colateral grave nem mortes no teste.

A Lilly disse que espera publicar os resultados da análise preliminar em um periódico submetido ao crivo da comunidade científica e debater os próximos passos apropriados com agências reguladoras globais.

A farmacêutica disse que o teste em andamento já recrutou 800 pacientes com casos de covid-19 entre branda e moderada. O estudo também está testando o LY-CoV555 combinada com outro tratamento de anticorpos, o LY-CoV016.

Os anticorpos, administrados por infusão intravenosa, também estão sendo testados para evitar a covid-19 em moradores e funcionários de instalações de cuidados de saúde de longo prazo e para tratar pacientes já hospitalizados por causa da covid-19.

As ações da Lilly subiram 1,3% e chegaram a 152 dólares antes mesmo da abertura do pregão.

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Saúde

Cientistas questionam vacina da Rússia contra covid-19: “dados estranhos”

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Carta aberta escrita por 27 cientistas aponta inconsistências nos dados apresentados sobre a vacina “Sputnik V”

Cientistas questionam vacina da Rússia contra covid-19: “dados estranhos” (Bloomberg / Colaborador/Getty Images)

Há um mês, o maior problema da vacina da Rússia contra o novo coronavírus era a falta de estudos sobre ela, o que aumentava a desconfiança da comunidade científica. Os resultados preliminares divulgados na última sexta-feira, entretanto, continuam a causar estranheza e desconforto em diversos cientistas.

Em uma carta aberta ao editor da prestigiada revista científica The Lancet, onde os resultados foram publicados, 27 cientistas afirmaram que os dados são incompletos e que a pesquisa tinha alguns “padrões improváveis”. “Enquanto a pesquisa descrita no estudo é potencialmente significativa, a apresentação dos dados levanta várias preocupações que necessitam que consigamos todos os dados para investigar”, explicam os autores da carta.

Os cientistas também afirmam que faltam dados númericos originais na publicação e que “não se pode tirar conclusões em relação à confiabilidade dos dados apresentados, especificamente sobre as aparentes duplicidades detectadas”.

Um dos exemplos das duplicidades encontradas pelos cientistas é que 9 de 9 voluntários parecem ter anticorpos idênticos nos dias 21 e 28 da primeira vacina do Instituto Gamaleya administrada nos voluntários. Na segunda versão testada, os anticorpos de 7 de 9 voluntários também é igual.

A vacina teve duas fases pequenas de 42 dias — uma delas estudou uma formulação congelada e a outra uma versão desidratada da vacina. O que foi descoberto, segundo o estudo, é que a vacina congelada é melhor para ser produzida em larga escala e preencher os estoques globais, enquanto a segunda opção é melhor para regiões de difícil alcance.

A vacina russa é baseada no adenovírus humano fundido com a espícula de proteína em formato de coroa que dá nome ao coronavírus.

É por meio dessa espícula de proteína que o vírus se prende às células humanas e injeta seu material genético para se replicar até causar a apoptose, a morte celular, e, então, partir para a próxima vítima.

Segundo a agência de notícias Reuters, um diretor do instituto que está desenvolvendo a “Sputnik V” afirmou que “os resultados publicados são autênticos e precisos e foram examinados por cinco revisores na The Lancet“.

O grupo de cientistas também escreveram na carta que os autores do estudo “não especificaram características suficientes sobre os pacientes convalescentes usados como um controle para a avaliação da resposta humoral” (resposta do sistema imune mediada por anticorpos). “Como eles foram iguais em diferentes grupos de voluntários? Desde que existem vários pacientes convalescentes no grupo de controle que aparentemente também não possuem anticorpos neutralizantes, é crucial saber quando o plasma foi coletado — para cada paciente, quanto tempo passou para que os sintomas e a negativação do teste acontecesse?”, questionam os autores da carta.

Em entrevista à emissora americana CNBC, o professor e um dos cientistas que assinaram a carta, Enrico Bucci, da Universidade Temple, nos Estados Unidos, afirmou que a falta de dados completos no estudo se deu pela “pressa de publicar coisas importantes” e que “no mundo todo existe uma pressão para que cientistas falem o que estão fazendo antes de estarem prontos”.

Bucci também fez uma comparação entre os resultados preliminares divulgados pela universidade de Oxford e a farmacêutica anglo-sueca AstraZeneca em relação a sua vacina. “Nesse caso os autores disponibilizaram 128 páginas de materiais sumplementares para os pares revisarem. Se você compara os dois estudos, você vê que algo está faltando no russo”, explicou.

No mês passado a Rússia foi o primeiro país a registrar uma vacina contra o coronavírus no mundo, apesar da desconfiança global causada pela falta de estudos que comprovassem a eficácia da proteção.  Também em agosto, o país informou que promoverá uma vacinação em massa já em outubro deste ano. No ínicio desta semana, a vacina russa começou a ser distribuída mesmo sem passar por todos os testes clínicos necessários para a sua aprovação.

Mais de 20 países já fizeram pedidos de mais de 1 bilhão de doses da vacina russa, mesmo com a preocupação da comunidade científica. Segundo o presidente do Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar), Jorge Callado, a “Sputnik V” deve chegar ao Brasil em 2021.

Um movimento parecido está sendo ensaiado pelo presidente americano Donald Trump, que afirmou recentemente que uma vacina contra o vírus pode estar disponível já em outubro. “Teremos em breve essa incrível vacina, com velocidade nunca vista antes”, disse ele. “A vacina será muito segura, muito efetiva, e as pessoas do mundo estarão felizes e voltaremos à prosperidade sem precedentes”, continuou.

Uma possível vacinação já em outubro ou no começo de novembro também foi ventilada em documentos do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) americano. Segundo reportou a imprensa americana, o órgão enviou aos estados uma ordem para que “preparem locais e equipamentos para uma vacinação em massa já no mês que vem”. Se confirmada, a data pode ser antes das eleições presidenciais americanas, em 3 de novembro.

Quais são as fases de uma vacina?

Para uma vacina ou medicação ser aprovada e distribuída, ela precisa passar por três fases de testes. A fase 1 é a inicial, quando as empresas tentam comprovar a segurança de seus medicamentos em seres humanos; a segunda é a fase que tenta estabelecer que a vacina ou o remédio produz, sim, imunidade contra um vírus, já a fase 3 é a última fase do estudo e tenta demonstrar a eficácia da droga.

Uma vacina é finalmente disponibilizada para a população quando essa fase é finalizada e a proteção recebe um registro sanitário. Por fim, na fase 4, a vacina ou o remédio é disponibilizado para a população.

Com isso, as medidas de proteção, como o uso de máscaras, e o distanciamento social ainda precisam ser mantidas. A verdadeira comemoração sobre a criação de uma vacina deve ficar para o futuro, quando soubermos que a imunidade protetora realmente é desenvolvida após a aplicação de uma vacina. Até o momento, nenhuma situação do tipo aconteceu.

 

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Saúde

Até a vacina ficar pronta, os anticorpos da covid-19 serão o suficiente?

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Diferença entre uma vacina e um eventual tratamento com base em anticorpos é grande — e ambos têm papel essencial para estancar pandemia

Coronavírus: anticorpos podem proteger contra a doença? (KATERYNA KON/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Uma vacina pode demorar cerca de 10,7 anos para passar por todos os testes clínicos necessários até a sua aprovação e distribuição a uma determinada população. Há nove meses o mundo enfrenta a pandemia do novo coronavírus, que já deixou quase 900 mil mortos segundo o monitoramento em tempo real da universidade americana Johns Hopkins — e a perspectiva de esperar mais tempo do que isso parece ser pedir demais para a saúde pública e as economias no mundo todo, mas, ainda mais prejudicial do que a espera, pode ser a pressa para uma vacina que não tenha sua eficácia e segurança comprovadas. Até lá, tratamentos com base em anticorpos e plasma serão capazes de frear a situação?

São vários os estudos que procuram entender melhor como funciona a criação de anticorpos da covid-19, por quanto tempo eles duram e se é possível (realmente) criar uma imunidade à doença sem uma vacina.

Nos Estados Unidos, o Food and Drug Administration (FDA), espécie de Anvisa americana, aprovou o uso emergencial de plasma no tratamento do coronavírus. Até o dia 24 de agosto, cerca de 70 mil pessoas foram tratadas com os anticorpos encontrados em amostras sanguíneas de pessoas que se recuperaram da doença — tanto em testes quanto em indivíduos com quadros graves. Segundo o órgão, o tratamento demonstrou bons resultados em testes iniciais — apesar disso, novos testes precisam ser feitos para confirmar a eficácia dele.

Para o doutor Celso Granato, infectologista e diretor clínico do grupo Fleury, os dados em relação ao tratamento por plasma são controversos. “Isso está relacionado que você só utilizar anticorpos de uma forma muito aleatória ainda é muito pouco. Não existe uma unidade internacional para avaliar a concentração desses anticorpos e nem contra quais pedaços do vírus eles são produzidos”, conta.

Granato explica que os anticorpos por si só não o suficiente para impedir uma infecção. Isso porque, além deles, é preciso que o corpo tenha uma resposta imune ao vírus. “Sabemos que os anticorpos têm uma curva, alguns são produzidos logo no ínicio da doença, enquanto outros são produzidos mais posteriormente, mas teve gente que teve a doença em fevereiro e março que ainda os tem. Mas eles são apenas uma parte da proteção. Nossa resposta imune é muito mais complexa. Quando você tem uma infecção, você os produz, mas também tem uma resposta imunológica que costuma ser muito mais eficiente na defesa do que a resposta dos anticorpos — e é um trabalho conjunto, um ajuda o outro. Mas sempre fazemos as duas respostas”, afirma.

E a diferença entre uma vacina e um eventual tratamento com base em anticorpos é grande. “A vacina será usada para induzir a formação de anticorpos e uma resposta imune celular no indivíduo. Já os anticorpos serão dados para quem já está infectado a fim de tentar minimizar os efeitos da doença”, diz. Granato também acredita que as chances de as duas coisas (um tratamento para os doentes e uma vacina) serem aprovadas para o uso ao mesmo tempo são altas.

Uma pesquisa sobre a resposta do sistema imune em relação à covid-19 aponta que, mesmo sem a produção de anticorpos contra o vírus, um indivíduo pode produzir células capazes de destruir a doença em casos de reinfecção — os chamados linfócitos T, células reativas que ajudam o organismo na defesa de infecções.

O estudo encontrou linfócitos T “robustos” em casos de pessoas que tiveram quadros leves, graves ou assintomáticos da covid-19. Segundo os pesquisadores suecos, a memória das células do corpo humano são prováveis de “desenvolver uma proteção imune duradoura ao vírus”, mesmo quando as pessoas não produzem anticorpos contra a doença. Para chegar a essa conclusão, foram analisados os casos e amostras sanguíneas de 206 moradores da Suécia.

Outra pesquisa, feita com base em um vírus semelhante por pesquisadores de Singapura, informa que a proteção contra o vírus podem ser “lembrada” por anos pelo organismo humano. As células T, por exemplo, ainda estão ativas contra o vírus Sars (também da família coronavírus) 17 anos depois da infecção.

Do outro lado, cientistas também tentam encontrar formas de transformar nanocorpos em tratamentos viáveis contra o SARS-CoV-2.

Recentemente, pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, encontraram um nanocorpo em alpacas que pode prevenir infecções do vírus em humanos. Segundo os pesquisadores, o nanocorpo tem o “potencial de ser desenvolvido como um tratamento antiviral” para a doença e apresenta vantagens sobre os anticorpos considerados convencionais, como o fato de ser 10 vezes menor e mais fácil de produzir em larga escala.

O que se pode concluir é que até termos uma vacina não existe uma proteção capaz de evitar o contágio pelo vírus — mas usar máscaras podem ajudar a evitar o espalhamento da doença. O caminho, ainda, é longo.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2020

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