Um estudo recente realizado pela organização ACT Promoção da Saúde, em parceria com a Agência Bori, revela que a alta nos preços dos alimentos no Brasil não é apenas passageira, mas sim um problema estrutural. Isso significa que os alimentos frescos estão ficando mais caros em relação aos produtos ultraprocessados e que essa situação reflete mudanças profundas na economia do país.
Segundo o economista Valter Palmieri Junior, doutor em desenvolvimento econômico pela Unicamp, a inflação dos alimentos não se deve apenas a variações sazonais, como as oscilações de preço em determinadas épocas, nem a fatores temporários, como a desvalorização da moeda. Em vez disso, ela envolve pressões constantes que não se resolvem sozinhas e indicam uma necessidade de mudanças na organização econômica.
Alta maior que a inflação geral
Nos últimos 20 anos, o custo dos alimentos no Brasil aumentou mais do que a inflação total do país. Entre 2006 e 2025, o preço dos alimentos subiu mais de 300%, enquanto a inflação geral foi cerca de 186%. Isso mostra que os alimentos ficaram mais caros muito mais rapidamente do que outros produtos.
Os itens que sofreram as maiores altas foram tubérculos, raízes e legumes, carnes e frutas. Além disso, quando ocorrem crises que fazem os preços dos alimentos subirem, eles têm dificuldade para voltar a baixar.
Alimentos frescos ficam mais caros que ultraprocessados
O estudo destaca que os alimentos frescos essenciais, como frutas, verduras e hortaliças, perderam poder de compra, ficando menos acessíveis. Em contraste, os produtos ultraprocessados, como refrigerantes e embutidos, ficaram relativamente mais baratos, influenciando o que as pessoas escolhem consumir.
Isso acontece porque os ultraprocessados usam ingredientes industriais que têm preços mais estáveis e cultivados em grande escala, o que reduz as oscilações.
Modelo exportador influencia preços internos
Um dos motivos do aumento contínuo dos preços é o modelo agroexportador do Brasil. O país é um dos maiores exportadores mundiais de alimentos, e os produtores priorizam vender seus produtos para o exterior, rececendo em dólares, em vez de atender ao mercado nacional.
Esse modelo faz com que a área para cultivo de commodities como soja, milho e cana-de-açúcar cresça, enquanto a produção de alimentos básicos para consumo interno diminui.
Insumos agrícolas mais caros elevam preços
Além disso, o custo de insumos agrícolas, como fertilizantes, defensivos, máquinas e peças, aumentou muito nos últimos anos, o que encarece a produção de alimentos no Brasil.
Por exemplo, os preços dos fertilizantes subiram mais de 2.400%, e os herbicidas e remédios para plantas também tiveram aumentos expressivos.
Concentração de mercado reduz competição
Outra questão importante é a concentração da produção. Poucas empresas estrangeiras controlam grande parte do mercado de sementes, pesticidas, máquinas agrícolas e produtos alimentícios, o que reduz a concorrência e pode influenciar os preços para cima.
Inflação invisível afeta qualidade dos alimentos
O estudo também ressalta a existência da chamada “inflação invisível”, quando os produtos mantêm os mesmos preços, mas diminuem a qualidade, substituindo ingredientes caros por outros mais baratos. Isso é comum em produtos como sorvete e chocolate.
Soluções para frear a inflação dos alimentos
Para enfrentar a inflação dos alimentos, o estudo sugere algumas medidas:
- reduzir a concentração na produção e fortalecer as economias locais;
- equilibrar melhor a exportação e o abastecimento interno;
- fortalecer órgãos como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e as Centrais de Abastecimento dos estados (Ceasas);
- ampliar o acesso à terra para a produção local;
- condicionar crédito agrícola à produção destinada ao mercado interno.
Valter Palmieri Junior destaca que reformas agrárias em países desenvolvidos ajudaram a garantir o acesso à terra e a soberania alimentar, apontando o caminho para o Brasil buscar soluções semelhantes.
Segundo ele, quando os alimentos são mais baratos, a população tem mais dinheiro para consumir outros produtos, o que beneficia a economia como um todo.
Com informações da Agência Brasil.

