O Ibovespa terminou o dia em queda nesta quinta-feira (23), refletindo o medo global que afetou os mercados, enquanto o preço do petróleo Brent voltou a subir acima de US$ 100 o barril. A queda predominou nas ações dos bancos e setores sensíveis a juros, apesar da alta das ações da Petrobras e da Vale.
As declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçando punições aos houthis do Iêmen e possíveis ataques contra o Irã, aumentaram o receio de interrupções no comércio de petróleo pelo Golfo Pérsico, impulsionando o preço do Brent.
Segundo Jonas Goltermann, economista-chefe da Capital Economics, o crescimento constante nos preços da energia começa a afetar o mercado financeiro de forma mais ampla. Ele alerta que, se o conflito entre os EUA e Irã continuar, a instabilidade pode aumentar.
Apesar do cenário, as empresas ligadas a commodities deram alguma proteção ao Ibovespa, que teve queda menor do que outras bolsas no exterior, onde o Dow Jones caiu 0,97%, Nasdaq 2,15% e S&P 500 1,21%.
O avanço dos preços do petróleo intensificou preocupações inflacionárias e apostam em políticas monetárias mais rígidas, aumentando a probabilidade de novos aumentos nos juros pelo Federal Reserve para mais de 80%, segundo dados do CME Group.
Localmente, a curva de juros também subiu, impactando ações de setores que dependem diretamente da evolução da economia, como varejo e construção civil.
Empresas como Hapvida, Totvs, Assaí e MRV foram as que mais perderam valor, enquanto exportadoras e companhias ligadas ao petróleo, como Vibra, Petrobras e Braskem, tiveram valorização.
A Vale também ajudou a reduzir as perdas, influenciada pela alta do minério de ferro e dados positivos recentes.
Marcel Lima, da Valor Investimentos, acredita que a volatilidade do mercado provavelmente é temporária e pode diminuir conforme soluções para o fornecimento de petróleo sejam encontradas, como a abertura de rotas alternativas pela Arábia Saudita.
O Ibovespa fechou com baixa de 0,46%, em 176.723,62 pontos, acumulando alta de 2,73% em julho e valorização de 9,68% no ano.
dólar
A escalada do conflito no Oriente Médio elevou o preço do petróleo Brent para o patamar de US$ 100 por barril, aumentando preocupações sobre a inflação e reduzindo o apetite por risco. Após três dias em queda, o dólar subiu 0,64%, fechando cotado a R$ 5,0839 no mercado à vista.
Embora o Brasil seja beneficiado pelo aumento do preço do petróleo como exportador líquido, a expectativa de juros mais altos, especialmente nos EUA, diminui o interesse por moedas de mercados emergentes.
O dólar americano foi impulsionado pelo fortalecimento frente a outras moedas fortes e pelo aumento dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, refletindo inseguranças inflacionárias e monetárias.
Paloma Lopes, economista da Valor Investimentos, destaca que a oscilação do dólar está ligada à guerra no Irã e às variações no preço do petróleo, sendo que o mercado entende que o conflito pode continuar por tempo indefinido.
O petróleo Brent teve alta de 7,04%, chegando a US$ 100,69, influenciado por restrições no tráfego marítimo e tensões geopolíticas na região do Mar Vermelho.
Vitor Kayo, economista da Nomad, observa que o mercado tem dado mais importância ao tema inflacionário gerado pela guerra do que ao impacto positivo no comércio brasileiro.
Com a perspectiva de juros elevados por mais tempo, investidores buscam segurança em mercados considerados mais seguros, como o americano, o que também ajuda a valorizar o dólar.
A ferramenta FedWatch indica mais de 80% de chance de aperto monetário pelo Federal Reserve até setembro, embora a maioria aponte para manutenção dos juros na próxima reunião.
Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos EUA, afirmou que o Fed parece preparado para elevar juros. Já Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, alertou que o aumento dos preços da energia deve manter a inflação alta até meados de 2027.
Além disso, espera-se um anúncio próximo sobre tarifas comerciais globais pelos EUA, que pode afetar produtos brasileiros relacionados a denúncias trabalhistas.
juros
Os juros futuros subiram em conjunto nesta quinta-feira, renovando máximas intradiárias, motivados pelo conflito no Oriente Médio e pela elevação do preço do petróleo acima de US$ 100.
As taxas intermediárias foram as que mais se elevaram, afetando expectativas de política monetária, fazendo com que o mercado não espere mais que o ciclo de redução da Selic se estenda além de agosto.
A taxa do DI para janeiro de 2027 subiu para 14,045%, a de 2029 para 14,705% e a de 2031 para 14,85%, segundo dados do pregão.
Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, comenta que há cerca de 68% de chance de corte de juros de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, mas que o último corte do ano deve ser esse, com expectativas de juros estáveis posteriormente.
Serrano atribui o cenário aos impactos da alta do petróleo, que se mantém pressionada por tensões geopolíticas que limitam o fluxo da commodity.
Gustavo Okuyama, da Porto Asset, ressalta que o ambiente global de juros está mais desafiador, com aumento consistente dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, reforçando a expectativa de juros elevados no mundo.
O Banco Central Europeu, embora tenha mantido a taxa básica em 2,25%, sinalizou uma postura mais rigorosa, com a presidente Christine Lagarde afirmando que uma alta de 25 pontos-base em setembro está sendo considerada.
O mercado aguarda a evolução da situação geopolítica e seus efeitos sobre a inflação para definir os próximos passos da política monetária.
