MAURÍCIO MEIRELES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Nos últimos cinco anos, o medo sobre a inteligência artificial (IA) tem crescido muito, gerando muitas preocupações alarmantes. Contudo, no âmbito do trabalho, que é onde há maior receio de grandes mudanças, os dados atuais e as previsões mais confiáveis indicam que esse medo pode ser exagerado.
De acordo com o mais recente relatório do Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos, divulgado no início de 2026, a produtividade no setor empresarial aumentou 2,8% no quarto trimestre de 2025, depois de uma alta significativa de 4,9% no trimestre anterior. No entanto, essa elevação não foge aos padrões históricos, iniciados na década de 1940, e não pode ser diretamente atribuída à IA.
Os dados também apontam para um mercado de trabalho enfraquecido, com a taxa de desemprego subindo para 4,4% em fevereiro, mas sem sinais de colapso. Economistas descrevem o momento como de poucas contratações e demissões, e a alta no desemprego pode ser explicada por outros fatores, como greves e condições climáticas recentes.
O crescimento moderado do PIB (2,2% em 2025) junto a um mercado de trabalho fragilizado leva alguns analistas a sugerir que os Estados Unidos podem estar no início de um aumento na produtividade impulsionado pela IA. No entanto, ainda é cedo para conclusões, e outras explicações também são possíveis.
Alguns especialistas afirmam que as medidas atuais não são suficientes para captar plenamente os efeitos da nova tecnologia. Recentemente, membros dos partidos democrata e republicano solicitaram ao Bureau of Labor Statistics a criação de métodos para acompanhar o impacto da IA no mercado de trabalho em tempo real, incluindo o tema em suas pesquisas.
Quanto ao medo do apocalipse tecnológico, como a substituição total dos trabalhadores por IA, os modelos mais sérios não indicam esse cenário. O economista Daron Acemoglu, vencedor do Nobel em 2024, criou um modelo prevendo um aumento modesto de 0,1 ponto percentual no PIB ao ano na próxima década. Já Philippe Aghion, laureado com o Nobel em 2025, projeta um crescimento anual de 1 ponto percentual no mesmo período.
O pesquisador Samuel Pessôa, do BTG Pactual e da FGV Ibre, compara esse ritmo ao crescimento provocado pela tecnologia da informação entre 1995 e 2005, indicando que a IA pode não causar uma mudança tão drástica no mercado de trabalho quanto se imagina.
Esses especialistas acreditam que a IA tende a substituir tarefas específicas, não profissões inteiras, e também a criar novas funções no mercado. Apesar disso, o medo em relação à tecnologia aumenta. Nos Estados Unidos, o Pew Research Center descobriu que a parcela da população mais preocupada que otimista com a IA cresceu de 37% em 2021 para 50% em 2025.
Em outros países, a percepção é similar. O Brasil é o quarto país que mais teme a IA, com 48% da população expressando preocupação, atrás apenas da Itália (50%) e da Austrália (49%).
Uma pesquisa da Reuters/Ipsos de 2025 revelou que 71% dos americanos temem perda permanente de empregos devido à IA, enquanto 48% acreditam que a IA pode ser prejudicial para a humanidade, e 67% temem consequências fora de controle.
Embora existam casos isolados que alimentam o temor, como a demissão de 40% dos funcionários da empresa Block alegadamente por causa da IA, outras empresas do mesmo setor mostraram resultados variados, desfazendo ideias de um efeito único da tecnologia.
O debate sobre IA gera impactos sociais e políticos. Enquanto o presidente Donald Trump apoia os interesses das empresas de IA, cresce a oposição, inclusive dentro do partido republicano, onde 50% temem essa tecnologia, segundo o Pew. Comunidades locais também se organizam contra projetos de centros de dados.
Medos apocalípticos acompanham a história da IA desde seus primórdios. Uma história famosa relata que Elon Musk sendo alertado, em 2012, sobre os riscos de uma superinteligência hostil. Musk, preocupado, cofundou a OpenAI, inicialmente uma entidade sem fins lucrativos focada na segurança da IA para o benefício humano.
Além do medo da extinção humana, há alertas sobre riscos como criação de armas biológicas, acidentes graves ou manipulação social por IA. No entanto, a maioria desses perigos é hipotética e supera as capacidades atuais da tecnologia, que ainda depende muito da ação humana.
Muitas discussões sobre IA são conceituais e especulativas. Um exemplo é a teoria popular na internet de que robôs poderão buscar vingança contra humanos contrários ao avanço da IA.
Em meio a um mercado em rápido crescimento e cheio de incertezas, críticos apontam que as narrativas de catástrofe podem servir como instrumento das próprias empresas de tecnologia para pressionar por mais investimentos e menos regulação.
A jornalista Karen Hao, em seu livro “Empire of AI”, descreve como a crença na superinteligência virou quase uma religião no Vale do Silício, usada para justificar a aceleração do desenvolvimento tecnológico para superar a China, e para frear tentativas de controle.
David Nemer, antropólogo da Universidade da Virgínia, comenta que essa narrativa cria um medo moral, no qual se acredita cegamente que a tecnologia sempre traz progresso e que não deve ser questionada.
Essa ideia de destruição da humanidade beneficiaria os CEOs das empresas de IA, que se apresentariam como os únicos capazes de lidar com essa tecnologia e merecedores de mais recursos.
Enquanto o foco permanece em um futuro incerto de superinteligência, questões atuais como exploração de trabalho e impacto ambiental ficam de lado. Especialistas como Hao pedem que as pessoas lembrem que têm poder para decidir os rumos dessa tecnologia.
David Nemer reforça: “É importante combater o determinismo tecnológico, a ideia de que a tecnologia é um herói ou vilão de um evento social, pois a sociedade é dona do seu próprio destino.”
