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Brasília

Homens negros jovens são maioria dos corpos não identificados no IML

O antropólogo forense Alexandre Castro, do Instituto de Medicina Legal (IML) do Distrito Federal, revela que a maior parte dos corpos não identificados na região são de homens jovens, pretos ou pardos.

Com mais de oito anos de experiência em identificação humana, Alexandre Castro destaca que recebe em média entre 20 e 40 casos anuais para investigação.

Para identificar esses corpos, são usadas técnicas como análise de digitais, odontologia legal, exames de DNA e antropologia forense, que avalia ossos e características físicas para estimar idade, sexo e altura.

De acordo com Castro, o Brasil tem mais de 750 mil falecimentos sem identificação registrados no Portal da Transparência do Registro Civil. Esses dados reúnem pessoas falecidas cuja identidade não foi confirmada.

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Por trás desses números, existem pessoas que podem ter sido enterradas sem que suas famílias saibam o que ocorreu ou onde estão seus restos mortais.

Esse trabalho é essencial especialmente quando o corpo está muito deteriorado, dificultando outras formas de identificação. Porém, para que a identificação seja possível, é preciso que alguém esteja buscando por essas pessoas.

“O maior problema é quando ninguém procura por essas vítimas. Na maioria dos casos em que atuamos, as pessoas foram enterradas como não identificadas porque não havia quem elas procurassem”, afirma Castro.

Mesmo com recursos técnicos disponíveis no IML, a falta de familiares ou informações de referência pode impedir o avanço da identificação.

À medida que novas técnicas ampliam as possibilidades, a identificação ainda depende de uma rede de informações, instituições e pessoas interessadas. Para quem é enterrado sem nome, manter registros atualizados é fundamental para preservar a chance de recuperar sua identidade no futuro.

Falta de informações

Para identificar alguém é vital que o corpo seja encontrado e que existam dados que ajudem a reconhecer a pessoa.

Por exemplo, ossadas podem ter material genético coletado e inserido em bancos de dados. Mas, sem uma amostra de um familiar para comparação, os resultados podem ser inconclusivos.

Entre os casos atendidos, há pessoas em situação de rua e envolvidos com criminalidade. Em alguns casos, familiares evitam procurar pelos corpos por desavenças ou medo. Castro também explica que muitas famílias não sabem que devem procurar a polícia e o IML, nem que informações sobre características físicas e histórico odontológico são essenciais para o reconhecimento.

O direito de saber

Para as famílias, Castro define um “luto duplo”: perder alguém e não saber o destino dessa pessoa.

Para o legista e sua equipe, identificar alguém vai além do exame técnico. “Devolver o ente querido à família é uma grande alegria. Mostra que nosso trabalho foi eficaz”, completa.

Busca e troca de informações

Um desafio é a comunicação entre órgãos de diferentes estados, pois uma pessoa pode desaparecer em um local e ser encontrada em outro.

Se o desaparecimento é registrado em um estado, mas as informações do corpo não chegam aos investigadores responsáveis, o cruzamento de dados fica prejudicado.

A troca de informações entre IMLs aproxima os registros de pessoas desaparecidas aos corpos não identificados. Castro comenta que, mesmo com progressos, essa troca ainda é feita de forma antiquada.

Desafios e soluções

A falta de padronização nos métodos de coleta e registro dificulta a comparação e o aproveitamento de dados importantes.

Para enfrentar essa questão, o Conselho Nacional de Justiça aprovou em 2026 a Resolução nº 684, que define diretrizes nacionais para registros de óbitos, sepultamentos e intercâmbio de dados relacionados a corpos não identificados ou não reclamados.

Essa norma busca uniformizar registros e facilitar cruzamentos com cadastros de pessoas desaparecidas, ampliando as chances de identificação.

Rumo a melhores resultados

Castro acredita que muitas respostas podem estar próximas, iniciando com coleta detalhada de informações junto às famílias que buscam por desaparecidos.

Dados como idade, altura, gênero e local de desaparecimento ajudam a direcionar buscas e cruzar informações com corpos encontrados.

Em sua pesquisa de doutorado, Castro criou um método de georreferenciamento para aproximar locais de desaparecimento e achados de corpos.

Entre 2018 e 2024, analisando 120 casos, constatou que a maioria das pessoas foi encontrada a até dois ou três quilômetros do local onde desapareceram.

Essa metodologia pode ajudar investigadores e promover o desenvolvimento de sistemas automatizados, facilitando a identificação daqueles ainda sem nome.

Como é o destino dos corpos não identificados

Quando a identidade não é reconhecida, o corpo precisa ser sepultado.

No Distrito Federal, o IML e a Secretaria de Desenvolvimento Social oferecem o sepultamento social, com auxílio para despesas funerárias.

As famílias podem solicitar esses serviços em unidades socioassistenciais locais, e na ausência de familiares, uma pessoa da comunidade pode fazer a solicitação.

Nos casos sob responsabilidade do IML, o órgão contata o Centro de Referência de Assistência Social para oferecer o benefício. Em hospitais, a articulação ocorre entre hospital e CRAS.

Após o sepultamento

O local do enterro é registrado para facilitar a localização dos restos mortais caso a identidade seja descoberta posteriormente.

Castro comenta que há casos de identificação que aconteceram anos depois do sepultamento.

Além das ações dos IMLs, iniciativas nacionais como a Mobilização Nacional de Coleta de DNA para familiares de desaparecidos, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, ampliam as chances de reconhecer nomes.

Na edição de 2026, foram disponibilizados postos de coleta em todas as unidades federativas.

O DNA coletado dos familiares é comparado com perfis de pessoas encontradas vivas ou falecidas sem identificação.

De 2021 a 2026, o número de perfis genéticos de desaparecidos na Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos passou de aproximadamente 3 mil para mais de 14 mil, enquanto os perfis de familiares cadastrados ultrapassaram 10 mil.

A coleta pode ser feita durante todo o ano, desde que exista um boletim de ocorrência do desaparecimento.

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