GABRIEL GAMA
FOLHAPRESS
A decisão de encerrar a Moratória da Soja pode causar um aumento de 17% no desmatamento da Amazônia brasileira na próxima década (2025-2035), em comparação com os anos entre 2014 e 2024. Esse crescimento na derrubada das florestas pode atingir uma área do tamanho dos países Portugal e Itália, segundo estudo divulgado na revista Science.
O estudo estima que, até 2035, a destruição adicional será de cerca de 1,4 milhão de hectares de vegetação, caso o acordo não seja mantido. Essa margem pode variar entre 740 mil e 2 milhões de hectares.
Essa perda de vegetação fará com que a atmosfera receba cerca de 745 milhões de toneladas de dióxido de carbono, dificultando o cumprimento das metas climáticas do Brasil e afetando a entrada do país em mercados internacionais.
A análise indica que 9,1 milhões de hectares de áreas privadas, equivalentes ao território de Portugal, podem ser legalmente desmatados para o plantio de soja. Além disso, cerca de 28,7 milhões de hectares em áreas públicas não destinadas, próximas ao tamanho da Itália, também estarão em risco.
O estudo foi realizado por pesquisadores das universidades de Wisconsin, Illinois e DePaul, nos Estados Unidos, em colaboração com os grupos brasileiros Greenpeace e WWF (Fundo Mundial para a Natureza), e financiado pelo WWF Suíça.
A Moratória da Soja, iniciada em 2006, é um acordo voluntário que proíbe a comercialização de soja cultivada em áreas desmatadas da Amazônia após 2008, envolvendo órgãos governamentais, empresas do setor e organizações civis.
No início deste ano, a Abiove (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais), que representa as maiores empresas de comércio de soja, saiu da coalizão para preservar benefícios fiscais no Mato Grosso, após o estado aprovar uma lei retirando esses incentivos de companhias ligadas ao pacto.
A Abiove informou que não irá comentar a análise divulgada.
Lisa Rausch, pesquisadora ambiental da Universidade de Wisconsin, afirmou que o aumento previsto no desmatamento considera estudos anteriores sobre a influência da Moratória nas taxas de destruição do bioma.
Ela explicou que o fim do acordo impactará principalmente áreas que antes não tinham plantação de soja, abrindo espaço para a expansão em novas regiões.
Regiões próximas à rodovia BR-319, que liga Manaus a Porto Velho, podem se tornar novas áreas agrícolas, especialmente se a estrada for asfaltada.
O estudo ressalta que, durante a vigência do acordo, o desmatamento em áreas propensas ao cultivo de soja caiu 35%, evitando a derrubada de cerca de 1,8 milhão de hectares na primeira década do pacto.
Tiago Reis, especialista em conservação do WWF Brasil e um dos autores do estudo, destacou que a Moratória atuava como um selo garantindo que a soja não contribuiu para o desmatamento. Com o fim do acordo, essa garantia será perdida.
Sem a Moratória, a soja plantada em áreas desmatadas poderá voltar a ser comercializada, o que deve aumentar a pressão sobre a Amazônia.
O Brasil precisa reduzir drasticamente o desmate para atingir suas metas de emissão de carbono estabelecidas nas Nações Unidas. O Plano Clima define objetivos específicos para diversos setores, incluindo o uso da terra em áreas públicas e privadas.
Os pesquisadores alertam que, sem a Moratória, haverá incentivos para o desmatamento de florestas para o cultivo de soja, além do estímulo ao desmatamento especulativo.
O estudo também aponta que as fazendas de soja na Amazônia têm cerca de 60 mil hectares de florestas que poderiam ser legalmente derrubadas. Entretanto, já existem 1,7 milhão de hectares de terras abertas e adequadas para o plantio, sem necessidade de cortar mais árvores.
