Nas últimas quatro décadas, o Brasil viu um crescimento rápido de suas cidades, trazendo novos desafios para a sociedade e o meio ambiente. Um estudo recente da plataforma MapBiomas revelou que o Distrito Federal (DF) tem quatro das cinco favelas que mais cresceram em área entre 1985 e 2024.
A favela Sol Nascente, localizada em Ceilândia, lidera essa lista, seguida pela comunidade 26 de Setembro, entre Taguatinga e Vicente Pires. Essas duas são as maiores expansões territoriais entre todas as favelas do país, com Sol Nascente ocupando 599 hectares e 26 de Setembro com 577 hectares. O Jardim Progresso, em Natal (RN), aparece em terceiro lugar. Além dessas, outras duas do DF entraram no ranking: Morro da Cruz, em São Sebastião, e o Condomínio Porto Rico, em Santa Maria.
Se essas quatro favelas do DF fossem consideradas um município, sua expansão territorial superaria o crescimento em 95% das áreas urbanizadas brasileiras no mesmo período.
Áreas urbanizadas são regiões com muitas construções, ruas e infraestrutura. Em 2022, essas áreas somavam 3,7 milhões de hectares no Brasil, correspondendo a 0,4% do território nacional. São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro concentram 5,4% da área urbana total, com São Paulo liderando (86.644 hectares), seguida por Brasília (58.375 hectares) e Rio de Janeiro (56.568 hectares).
Especialistas do estudo destacam que o crescimento acelerado no DF acontece em áreas com desafios ambientais importantes. O pesquisador Julio Pedrassoli explica que essa expansão em locais com menor segurança hídrica traz riscos para quem vive nessas comunidades, muitas vezes por falta de outras opções de moradia, e também para a cidade inteira.
Crescimento urbano no Brasil
De 1985 a 2024, a área urbana no Brasil aumentou 2,5 vezes, passando de 1,8 milhão para 4,5 milhões de hectares, cerca de 0,5% do território nacional. Isso equivale a um crescimento médio de 70 mil hectares por ano, principalmente sobre áreas que antes eram usadas para agricultura. Em 2024, cerca de 1,84 milhão de hectares que hoje são urbanos eram áreas agrícolas em 1985.
Além disso, 680 mil hectares urbanizados antigamente eram áreas naturais. A expansão sobre áreas agrícolas foi quase três vezes maior do que em áreas naturais. Também houve aumento da ocupação em regiões vulneráveis, como terrenos com inclinação elevada, que têm risco maior de erosão e deslizamentos. Em 1985, o Brasil tinha 14 mil hectares nessas condições; em 2024, esse número subiu para 43,4 mil hectares.
Áreas urbanas próximas a cursos d’água, que têm maior risco de enchentes, cresceram 145%, passando de 493 mil hectares para 1,2 milhão de hectares no país. No ranking dessas áreas, Rio de Janeiro e São Paulo continuam no topo, e Brasília subiu do quinto para o terceiro lugar, com 16,38 mil hectares.
Mayumi Hirye, coordenadora do estudo no MapBiomas, ressalta que a expansão das cidades precisa considerar os riscos e as mudanças climáticas, pois os impactos afetarão mais as pessoas que vivem em áreas vulneráveis.
No Distrito Federal, a área urbana aumentou de pouco mais de 21 mil hectares, em 1985, para quase 63 mil hectares em 2024, triplicando em quase 40 anos. O crescimento foi ainda maior nas favelas e comunidades urbanas, que passaram de 360 hectares para aproximadamente 3.500 hectares, um aumento quase dez vezes maior. Essas áreas representam cerca de 6% do total urbanizado no DF, mas mostram falhas na política urbana, pois o crescimento rápido indica dificuldade em planejar a expansão e oferecer moradia formal.
Por outro lado, o Distrito Federal apresenta bons índices ambientais em algumas regiões, como Plano Piloto, Sudoeste/Octogonal, Núcleo Bandeirante e Guará, classificadas com os melhores resultados em sustentabilidade urbana. Outras 17 regiões têm avaliações boas, e 13 são regulares, sem nenhuma considerada ruim.
Brasília também lidera o país em áreas urbanas com vegetação, com 13,26 mil hectares. No Brasil, essas áreas verdes em cidades cresceram 293%, de 185 mil para 620 mil hectares, principalmente nas expansões urbanas. Em áreas já consolidadas, porém, a vegetação diminuiu ligeiramente.
Expansão do Sol Nascente
A região Sol Nascente/Pôr do Sol, uma das maiores comunidades urbanas do país, cresceu muito devido a ocupações irregulares desde os anos 1990. Até então, a área era rural e parte de Ceilândia. O crescimento desordenado começou com a divisão irregular de terrenos e se intensificou com o tempo.
Em 2008, Sol Nascente e Pôr do Sol foram reconhecidos como extensões habitacionais de Ceilândia e, em 2019, viraram uma região administrativa do DF, ganhando administração própria. Atualmente, vivem ali 70.908 moradores, segundo o IBGE.
Edson Batista, líder comunitário local, comenta que o crescimento da comunidade está ligado a melhorias na infraestrutura, como pavimentação e drenagem, que atraem novos moradores. No entanto, ainda há desafios: algumas áreas têm erosão perto das casas, o que preocupa os moradores e requer atenção do governo para garantir a segurança.
Batista também destaca a falta de serviços públicos essenciais, como escolas, hospitais e creches, para atender a população crescente.
A líder comunitária da Fazendinha, Sandra Ribeiro Bento, relata que o crescimento acontece diariamente, apesar de ser uma área de risco. A falta de infraestrutura básica, como esgoto e iluminação pública, causa dificuldades para os moradores, que enfrentam lama e insegurança devido a roubos.
Sandra mantém o Instituto Mais Vidas (MV), um projeto social que ajuda cerca de 70 crianças, tirando-as da rua e da influência das drogas. O projeto depende de doações para continuar oferecendo apoio.
A Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) informa que realiza campanhas de vacinação, prevenção de doenças e atividades educativas na região, em parceria com outras secretarias, para melhorar a qualidade de vida da população e combater fatores que prejudicam a saúde, como saneamento e segurança alimentar.
