ISABELLA MENON
FOLHAPRESS
Empresários e associações dos Estados Unidos e do Brasil solicitaram, em audiências recentes, que a tarifa extra de 25% sobre produtos brasileiros, proposta pelo governo americano, não seja aplicada na maioria dos casos.
As reuniões aconteceram nos dias 6 e 7 de julho, organizadas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Setores que dependem de insumos brasileiros pediram isenção da medida, enquanto produtores de carne dos EUA querem que a sobretaxa também atinja a carne bovina brasileira.
O USTR convocou a audiência para discutir medidas relacionadas à investigação sobre práticas comerciais brasileiras, iniciada em julho do ano anterior, que acusou o Brasil de adotar atitudes consideradas injustas no comércio com os EUA. Por isso, recomendou uma taxa adicional de 25% em muitos produtos brasileiros, mas com exceções.
Na primeira etapa, representantes dos setores de arroz, gelatina, sementes, cera de carnaúba e agropecuária alertaram que as tarifas poderiam aumentar os preços para consumidores americanos, tornar alimentos e medicamentos mais caros e prejudicar cadeias produtivas nos EUA.
Vinicius Vanzella, presidente da Associação Sul-Americana de Fabricantes de Gelatina (Sagma), destacou que gelatina e colágeno são essenciais para medicamentos e suplementos, e que os EUA dependem do Brasil para metade dessas importações.
Marcelo Junqueira da Silva, da Sociedade Rural Brasileira, contestou as acusações de desmatamento ilegal feitas no relatório do USTR, afirmando que o Brasil monitora o meio ambiente com sistemas de satélite e que as tarifas prejudicariam também as empresas americanas que fornecem máquinas e tecnologia para o Brasil.
Um ponto importante é o etanol. O USTR acusou o Brasil de dificultar a entrada do etanol americano após mudar a política tarifária em 2017. Mark Wilson, presidente do U.S. Grains and BioProducts Council, criticou a tarifa de 18% do Brasil sobre o etanol dos EUA e pediu negociações para reduzir essas barreiras; caso contrário, sugeriu uma tarifa recíproca de 25%.
No segundo painel, a discussão se concentrou na carne bovina, com representantes brasileiros e americanos divididos. Bill Bullard, da R-CALF USA, e Jenna Stanton, da United States Cattlemen’s Association, pediram que a carne brasileira perca a exceção e passe a ser tarifada, argumentando que isso prejudica pecuaristas dos EUA e associando a produção brasileira ao desmatamento ilegal e práticas de trabalho inadequadas.
Em resposta, Fernanda Carneiro, da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), rejeitou as conclusões do USTR, afirmando que acordos comerciais brasileiros não prejudicam os EUA, que a tarifa brasileira sobre etanol é aplicada de forma justa, e que a produtividade da agropecuária brasileira aumentou sem expandir a área cultivada, sendo monitorada conforme normas ambientais.
Empresas americanas também pediram exceções, argumentando que as tarifas aumentariam custos para pequenos distribuidores e produtores rurais, citando a necessidade de matéria-prima brasileira para certos produtos.
As audiências continuarão, com mais debates previstos, incluindo a participação do senador Flávio Bolsonaro, que está nos EUA para apresentar suas posições.
O governo brasileiro negocia com os EUA desde o ano passado para evitar essas tarifas extras, enquanto tensões políticas internas influenciam o debate.


