CLÁUDIA COLLUCCI
FOLHAPRESS
A polilaminina tem sido bastante comentada nas redes sociais recentemente, motivada por vídeos mostrando pacientes recuperando movimentos, discussões sobre patente, pedidos judiciais para obter a substância, manifestações de apoio à ciência brasileira e críticas a profissionais que pedem cautela devido à falta de provas concretas sobre sua eficácia e segurança.
Essa substância foi desenvolvida pela equipe da pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o laboratório Cristália. Ela é apresentada como uma possível novidade no tratamento de lesões na medula espinhal.
No entanto, sociedades científicas e médicas e especialistas em neurologia pedem cautela, pois um tratamento só é comprovadamente eficaz após pesquisas científicas rigorosas, tempo e confirmação independente.
Até o momento, não existem evidências clínicas fortes que provem que a polilaminina é responsável pelas melhorias relatadas pelos pacientes. Um dos debates envolve o momento de aplicação da substância, que deve ocorrer nas primeiras 72 horas após o trauma, fase em que a situação neurológica pode estar instável e pode haver melhora espontânea parcial.
Outro ponto importante é que ainda não foram realizados ensaios clínicos controlados para confirmar a relação causa-efeito da polilaminina. Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou um estudo de fase 1 para verificar a segurança, mas esta fase não avalia a eficácia. A seguir, veja o que já sabemos e o que ainda fica em aberto.
1. O que é a polilaminina?
É uma versão produzida em laboratório da laminina, proteína presente no corpo humano, importante para a organização dos tecidos e o desenvolvimento do sistema nervoso. Aplicada na área lesionada da medula durante cirurgia, a substância ajudaria a orientar o crescimento dos neurônios e a reconectar as vias nervosas.
2. Para que tipo de lesão a polilaminina é testada?
Está sendo testada em lesões agudas na medula torácica, classificadas como completas (ASIA A), ocorridas há menos de 72 horas, que apresentam ausência de sensibilidade e movimento abaixo da lesão. Lesões incompletas (ASIA B, C ou D) têm maior chance de recuperação espontânea, dificultando a medição do efeito da substância.
3. Existe risco de erro na classificação da lesão?
Sim. Nas primeiras horas ou dias após o trauma, a avaliação pode ser imprecisa. A fase de choque medular pode fazer uma lesão parcial parecer completa. Estima-se que até 40% dos pacientes classificados como ASIA A possam ser reclassificados após estabilização.
4. A polilaminina já é um tratamento comprovado?
Não. Até o momento, não há ensaios clínicos randomizados e controlados que provem eficácia em humanos. O estudo autorizado pela Anvisa é apenas para avaliar segurança.
5. Qual é o tratamento atualmente padrão para lesões medulares?
Inclui atendimento emergencial nas primeiras 72 horas (imobilização, estabilização da coluna e cirurgia de descompressão) seguido de reabilitação intensa, como fisioterapia e terapia ocupacional.
6. O que mostram os estudos divulgados sobre a polilaminina?
Foram feitos experimentos em laboratório, estudo em animais e uma pesquisa com oito pacientes, dos quais seis apresentaram alguma melhora motora e dois faleceram por causas não relacionadas à substância. Os resultados são promissores, mas ainda preliminares e sem grupo controle.
7. O que é um grupo controle e qual sua importância?
É o grupo de participantes que não recebe o tratamento experimental, servindo como base para comparação e ajudando a garantir a validade dos resultados.
8. Por que é importante ter grupo controle para avaliar a eficácia?
Porque em lesões medulares pode haver melhora parcial espontânea sem o tratamento experimental. Sem grupo controle, não é possível saber se a melhora se deve à substância ou à recuperação natural e ao tratamento padrão.
9. É possível fazer estudo clínico sem grupo controle?
Raramente, e não é a prática recomendada. Exceções ocorrem se o efeito for tão claro que seria antiético negar o tratamento a um grupo placebo.
10. Já é possível distinguir o efeito da polilaminina dos demais cuidados?
Não. Pacientes que recebem a substância também recebem cuidados padrão, tornando difícil separar os efeitos.
11. A polilaminina funciona em lesões crônicas?
Não há evidências de benefício em lesões crônicas, quando a paralisia já está estabelecida e a medula forma cicatrizes.
12. Existem riscos conhecidos da polilaminina?
Ainda não. Porém, a aplicação pode causar riscos cirúrgicos e inflamatórios. A fase 1 do estudo visa avaliar esses riscos.
13. Por que especialistas pedem cautela na divulgação?
Porque a substância tem sido usada fora dos ensaios clínicos, inclusive por meio do chamado uso compassivo e decisões judiciais, dificultando o controle rigoroso dos casos tratados.
14. Quanto tempo leva para saber se a polilaminina é eficaz?
Pode levar anos, porque as fases avançadas da pesquisa precisam de muitos participantes, grupos controle e análise rigorosa.
15. O Brasil perdeu a patente da substância?
Em 2014, a UFRJ decidiu suspender o pedido de patente internacional, mas o pedido nacional foi feito em 2007 e concedido em 2025. O laboratório Cristália assumiu a responsabilidade pelos avanços e patentes desde 2021.
16. Por que é importante o rigor científico?
Porque substâncias usadas sem rigor causaram problemas, como a talidomida nos anos 1950 e 1960 e a fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”, sem comprovação de eficácia.

