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Economia

Empresas esperam crescimento menor e possível recessão em 2027 por juros altos e inadimplência

Foto: Agência Brasil

TAMARA NASSIF MARIA CLARA MATOS
São Paulo, SP (FolhaPress)

Faltando pouco mais de quatro meses para o início de 2027, grandes empresas e bancos do Ibovespa têm uma visão preocupante para a economia do país no próximo ano.

Pesquisa feita pela Folha de S.Paulo com 76 empresas listadas na Bolsa mostra que muitas esperam que a economia cresça menos em 2027, e que os juros altos continuem dificultando as operações em comparação a 2026. Essas informações vêm das teleconferências de resultados do segundo trimestre deste ano.

O aumento das dívidas das famílias tem afetado até as contas mais básicas, como água e luz. Empresas do setor, como CPFL Energia e Copasa, intensificam o corte desses serviços para conter os prejuízos.

Gustavo Estrela, CEO da CPFL Energia, falou sobre o aumento da inadimplência, que subiu de 0,82% no segundo trimestre de 2025 para 1,08% em 2026. Ele explicou que a principal maneira de controlar isso são os cortes nos serviços.

Cleyson Jacomini, CEO da Copasa, também considera o nível de endividamento das famílias um grande desafio. A empresa já usa cobranças antecipadas e ajusta suas políticas de negociação para tentar reduzir a inadimplência.

Além dos pagamentos eletrônicos, como Google Pay e Apple Pay, a Copasa está ampliando ações de cobrança, incluindo cortes no caso de inadimplência, para tentar reverter essa situação.

Marcelo Kfoury, professor de economia do Insper, comenta que o alto endividamento se transforma em um ciclo difícil, mesmo com o desemprego em níveis baixos.

Ele explica que, diante das dívidas, as pessoas precisam escolher o que pagar, muitas vezes deixando contas essenciais como energia e água para depois.

No varejo, empresas como Lojas Renner e Assaí já sentem a pressão do consumo por causa dos juros elevados. Setores de serviços básicos também enfrentam calotes em contas devido ao endividamento recorde das famílias.

Alfredo Setubal, CEO da Itaúsa, mencionou o risco de uma “pequena recessão”, alinhando-se com o economista Armínio Fraga. A holding reúne diversas empresas, incluindo bancos, calçados, rodovias e saneamento.

Setubal ressaltou que, apesar dos incentivos do governo para aumentar o consumo e renegociar dívidas, a economia tem desacelerado.

Isso deve resultar em menor consumo das famílias, que já possuem muita dívida. Por isso, a orientação é que as empresas adotem orçamentos mais moderados e cautelosos.

Bancos como BTG Pactual e Santander também alertam para um cenário difícil em 2027, com inadimplência como preocupação central.

Roberto Sallouti, CEO do BTG Pactual, afirma que o ambiente complexo está virando consenso, devido aos altos níveis de dívida do governo e das famílias e à taxa de juros elevada.

Conforme o Boletim Focus desta semana, a Selic deve encerrar 2027 em 12% ao ano e o PIB crescer apenas 1,5%. Para 2026, a previsão é de crescimento de 1,98%.

O varejo também demonstra cautela. O Assaí Atacadista prevê uma pressão no consumo que deve continuar, ajustando sua estratégia por conta da Selic alta.

Belmiro de Figueiredo Gomes, CEO do Assaí, explicou que a empresa foca em reduzir dívidas, diminuindo investimentos e segurando projetos, incluindo a expansão de farmácias e eletropostos em suas unidades.

A Yduqs, no setor de educação, projeta um cenário desafiador para 2027, semelhante a 2026, com renda apertada e endividamento alto.

Mesmo assim, a empresa vê um lado positivo para o setor educacional, pois o próximo ano não terá eventos que possam afetar o consumo como Copa do Mundo ou eleições presidenciais.

Selic nas alturas

A cautela dos executivos está relacionada ao ciclo de queda da taxa Selic, que está sendo mais curto do que o esperado. Atualmente em 14% ao ano, a Selic está alta desde 2022 para ajudar a controlar a inflação.

Inicialmente, esperava-se uma redução mais rápida dos juros, com projeções de pelo menos 11% ao fim de 2026, mas a guerra no Irã e os aumentos nos preços do petróleo mudaram essa dinâmica.

Além disso, os incentivos do governo Lula em ano eleitoral mantêm o consumo aquecido, dificultando a redução da Selic.

O endividamento das famílias segue alto, com 82% das famílias endividadas em julho, segundo a Confederação Nacional do Comércio. Destas, cerca de 30% estão inadimplentes, e 12% dizem ter dificuldade para pagar suas dívidas.

Esse cenário pode diminuir o ritmo do consumo em 2027, gerando uma desaceleração maior do que o esperado para a economia. Para as empresas, isso significa dificuldades para financiar operações e menores receitas.

Joelson Sampaio, professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas, destaca que a Selic alta por tanto tempo cria um cenário difícil para as empresas, afetando investimentos, custo das dívidas e a receita porque o consumo das famílias está comprometido.

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