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segunda-feira, 09/03/2026




Empresa ligada ao PCC exporta medicamento rejeitado pela Anvisa ao Panamá

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Em Brasília

Mateus Vargas e José Marques
Brasília, DF (FolhaPress)

Lotes de imunoglobulina adquiridos para o Ministério da Saúde e bloqueados pela Anvisa foram entregues à empresa Insight Participações S.A., investigada por suposto ocultamento de patrimônio e lavagem de dinheiro ligada ao crime organizado.

Imunoglobulina é um medicamento derivado do plasma sanguíneo, destinado a pacientes com sistema imunológico debilitado, incluindo casos associados ao HIV. O produto deveria ter sido enviado para a China, mas encontra-se no Panamá e vencerá entre junho e julho deste ano.

A distribuidora Farma Medical, contratada para fornecer a droga ao SUS, declara não saber o destino da carga, alegando que a repassou à Insight para quitar uma dívida de cerca de R$ 30 milhões.

O Ministério da Saúde informa que foi a Farma Medical quem formalmente realizou a exportação e que os lotes não podem retornar ao Brasil. A pasta afirma que não tem responsabilidade pela fiscalização após a saída da carga do país.

Conforme reportagem da Folha de S.Paulo, Farma Medical contraiu empréstimo de R$ 30 milhões com a Insight para comprar o primeiro lote da imunoglobulina destinada ao SUS. O contrato, estimado em R$ 87,63 milhões, foi cancelado após a Anvisa interditar o produto em outubro de 2023. O governo não efetuou pagamentos pelo medicamento.

Em setembro de 2024, a Farma Medical assinou um termo de quitação da dívida, transferindo a propriedade e os direitos da carga para a Insight, que recebeu autorização para tomar as providências necessárias para exportação junto à Anvisa e ao ministério.

Himad Abdallah Mourad, fundador e diretor da Insight, também assinou o documento. Ele e a empresa foram alvos da Operação Carbono Oculto, em agosto de 2025, que investigou o envolvimento do PCC no mercado formal.

Himad é primo de Mohamad Hussein Mourad, um dos líderes do grupo criminoso e atualmente foragido. Em outubro, Himad foi novamente alvo na Operação Octanagem, que investigou postos de combustível suspeitos de adulteração e lavagem de dinheiro.

Não foi possível localizar Himad para comentar, e a Insight não respondeu aos contatos enviados.

Documentos indicam que a Star Pharma, atual fornecedora de insulina do SUS, participou da exportação da imunoglobulina da Farma Medical, realizando orçamentos de embarque em 2025, após a cessão dos direitos à Insight.

Formalmente, os registros do Ministério da Saúde mencionam apenas a Farma Medical como exportadora, com destino final registrado para a China na Declaração Única de Exportação.

Fontes sob condição de anonimato relataram que a China negou a entrada da carga, que então foi levada ao Panamá, onde permanece conforme documentos obtidos.

Outros informantes confirmaram que a Star Pharma conduziu a exportação em nome da Insight, usando a estrutura da Farma Medical apenas para formalidades perante o ministério.

A Star Pharma declarou que participou tecnicamente da operação, apoiando a avaliação regulatória e logística da carga, sempre respeitando a legalidade.

Os 31 mil frascos, avaliados em cerca de R$ 30 milhões, ficaram armazenados no Ministério da Saúde entre outubro de 2023 e março de 2025, quando deixaram o país.

A Anvisa inicialmente ordenou a destruição do produto, que chegou ao Brasil sem controle adequado de temperatura, condição essencial para medicamentos biológicos, que devem ser mantidos entre 2°C e 8°C durante o transporte.

Posteriormente, a agência aceitou um pedido da empresa para devolver a carga ao fabricante chinês, Harbin Pacific, com possibilidade de substituição ou ressarcimento dos lotes.

A imunoglobulina não possuía registro na Anvisa. O Ministério recorreu a essa compra por falta de oferta no mercado regularizado no país.

A Farma Medical não tinha contratos anteriores com o ministério e foi selecionada em processo emergencial para evitar falta do medicamento. Representava a Prime Pharma LLC, dos Emirados Árabes Unidos, beneficiária dos pagamentos no exterior.

Em nota, o Ministério da Saúde afirmou que todo o processo de devolução foi conduzido com a Farma Medical, representante da Prime Pharma LLC. Informou que valores pagos para armazenagem do produto em Guarulhos estão em processo de restituição, sem detalhar os custos.

A pasta diz atuar com rigor na fiscalização e aplicou multa de US$ 1,69 milhão à Prime Pharma LLC, sem informar se o valor já foi pago.




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