MAURO ZAFALON
FOLHAPRESS
A Embrapa está retomando suas atividades na África após uma pausa de dez anos, com a inauguração de um escritório em Adis Abeba, capital da Etiópia, no dia 6 de fevereiro. Esse movimento faz parte da ampliação da presença internacional da empresa, que envolve parcerias, acordos e intercâmbio de conhecimentos.
Nos últimos anos, por questões financeiras e mudanças na legislação das estatais, a Embrapa reduziu suas operações no exterior. Agora, os pesquisadores retornarão aos Laboratórios Virtuais no exterior localizados na França e nos Estados Unidos, além de aumentar a cooperação com organizações internacionais semelhantes.
O Brasil se destacou no desenvolvimento da agricultura e pecuária, especialmente nas regiões tropicais. Com 43 centros de pesquisa, a Embrapa possui técnicos especializados em diversas áreas, o que atrai interesse global. As solicitações de colaboração vêm da África, Américas, Oriente Médio, Ásia e Europa Oriental, países interessados em aumentar a produção agropecuária regional.
Existe a percepção de que a Embrapa estaria usando recursos brasileiros para auxiliar concorrentes e incentivar a exploração de novas florestas?
Segundo Silvia Massruhá, presidente da Embrapa, além do conhecimento, que será comercializado, o Brasil pode oferecer insumos, máquinas e produtos ligados à agricultura tropical, área em que o país é líder mundial.
Silvia ressalta que alguns países africanos enfrentam desafios estruturais maiores. O Brasil avançou bastante em agropecuária e agora enfrenta outros desafios para manter sua posição como fornecedor global de alimentos. Sem investimento contínuo em pesquisa, pode perder esse papel em uma ou duas décadas.
O país está tornando dados públicos e também pode captar recursos licenciando tecnologias. Segundo a Embrapa, há um amplo mercado potencial para insumos, máquinas e equipamentos que beneficiam indústrias e produtores locais que atuam nessas regiões.
A preocupação de formar competidores não se sustenta, pois o Brasil tem a possibilidade de exportar não apenas commodities, mas também tecnologia, segundo a presidente da empresa.
Com relação à ajuda à África, Silvia destaca que esse continente está em uma fase diferente da do Brasil. Enquanto o Brasil busca expandir sua produção para exportação, a África precisa garantir sua própria segurança alimentar interna. Existe uma demanda mundial crescente por alimentos nas próximas décadas, e o Brasil não conseguirá atender sozinho a esse desafio.
Quanto à sustentabilidade, ela afirma que as práticas agropecuárias atuais são bem distintas das de 50 anos atrás.
A escolha da Etiópia para a reabertura na África é estratégica, já que a sede da União Africana está nesse país. Desse escritório, a Embrapa desenvolverá projetos conjuntos com outros países da região, focando na capacitação de técnicos africanos em áreas como manejo de solo, bioinsumos, pecuária, agricultura digital e inteligência artificial.
Os recursos para esses projetos podem vir do licenciamento de tecnologias ou de parcerias com instituições internacionais, como o Banco Mundial e a Fundação Gates.
Na África, a Embrapa mantém um projeto específico com Angola na agricultura, em cooperação com o Instituto de Investigação Agronômica local. Moçambique acessará cursos básicos de formação agrícola pela plataforma e-Campo, disponível online.
Acordos com Marrocos e Egito focam na cooperação científica, áreas mais desenvolvidas nesses países. Com Marrocos, a colaboração envolve fertilizantes, bioinsumos e intercâmbio de cientistas. Com o Egito, o enfoque está na cultura do algodão, com interesse mútuo nas variedades cultivadas.
Parcerias na Ásia incluem cooperações com Japão (recuperação de pastagens e agricultura de precisão), China (biotecnologia, edição gênica, sustentabilidade e cálculo de carbono), Coreia do Sul (com a agência RDA) e Índia (melhoramento de gado leiteiro via acordo com o ICAR).
Também estão sendo avaliadas parcerias com Singapura, Indonésia e Cazaquistão.
Do Oriente Médio, os Emirados Árabes Unidos manifestaram interesse em criar um polo de inteligência artificial para agricultura e buscam a participação do Brasil dada a experiência brasileira na agricultura tropical.
Silvia destaca que essa participação é fundamental para capacitar pesquisadores na linguagem da inteligência artificial. A Arábia Saudita está interessada em tecnologias para regiões semiáridas, similares ao semiárido brasileiro, mas as negociações ainda estão iniciais.
Na América Central e Caribe, a República Dominicana está traduzindo cursos da Embrapa para o espanhol para apoiar o desenvolvimento local. O IICA planeja criar um hub da Embrapa em sua sede na Costa Rica para facilitar a transferência de tecnologia para esses países.
A Embrapa oferece seu conhecimento da agricultura tropical, mas os países parceiros enfrentam o desafio de implementá-lo de forma contínua. A agricultura está se tornando mais previsível e esses países, assim como o Brasil, precisam se apoiar em três pilares básicos: ciência e tecnologia, capacitação e políticas públicas associadas, conclui Silvia.
