Após dois dias de queda, o dólar voltou a subir nesta quarta-feira, 7, ultrapassando a marca de R$ 5,00 frente ao real. A valorização da moeda americana no mercado internacional e o aumento das taxas dos títulos americanos influenciaram essa alta, fazendo com que investidores realizassem lucros obtidos com a recente valorização ligada às eleições.
Durante a tarde, o dólar à vista atingiu o pico de R$ 5,0167, mesmo sem uma aceleração significativa no mercado externo. Operadores citam o possível impacto de declarações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que sugeriu que o projeto para acabar com a escala 6×1 pode ser votado antes do segundo turno, um tema importante da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O dólar fechou o dia com alta de 0,72%, a R$ 5,0112, sendo o real a moeda latino-americana com pior desempenho no dia. Na semana, a moeda recuou 3,94%, acumulando perdas de 8,70% em 2026.
Eduardo Velho, economista-chefe da Bravonte Capital, observa que o câmbio já refletiu grande parte do impacto do fluxo de investidores estrangeiros e da queda no prêmio de risco com o chamado “trade eleitoral”. Ele destaca que apoios políticos às candidaturas vistas como mais propensas a implementar ajuste fiscal limitaram a alta do dólar.
Neste cenário político, o senador Flávio Bolsonaro obteve apoio de candidatos derrotados e de importantes partidos para o segundo turno, com uma pesquisa Datafolha prevista para divulgação em 8 de outubro, indicando o rumo das eleições.
De acordo com relatório do Goldman Sachs, liderado por Alberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina, os preços dos ativos dependerão das pesquisas eleitorais, das posições dos candidatos sobre cargos-chave e da estratégia fiscal para 2027.
No contexto internacional, o índice DXY, que mede o dólar contra moedas fortes, subiu 0,46%, com a taxa dos títulos americanos de 10 anos em 5,28%. O preço do petróleo manteve-se acima dos US$ 100 por barril, apesar de perder força à tarde.
A ata do Federal Reserve revelou que o banco central dos EUA permanece focado na inflação e que um novo aumento da taxa de juros é esperado até o fim do ano. A economista Luíza Pinese, da XP, destaca que o cenário global continua incerto, com aperto monetário nos EUA e preços elevados de commodities que beneficiam o Brasil.
Luíza Pinese alerta que a alta das taxas dos títulos soberanos nos EUA reduz o apelo dos ativos de países emergentes, representando o principal risco para o real. Ela mantém a projeção do dólar em R$ 5,00 para dezembro de 2024 e R$ 5,30 para o fim de 2027, ressaltando que um ajuste fiscal mais profundo após as eleições pode sustentar essa valorização em 2027.
Bolsa
Após o rali recente, o Ibovespa recuou pelo segundo dia, caindo 0,74% e fechando em 204.302 pontos, devido a ajustes de posição e cenário externo desfavorável. O volume financeiro foi de R$ 40 bilhões. No mês, o índice subiu 9,64% e no ano acumula alta de 26,8%.
Bruno Ponciano, assessor da InvestSmart, explica que a correção era esperada e o mercado tende a se manter cauteloso até a definição do segundo turno, onde Flávio Bolsonaro aparece como favorito frente ao presidente Lula.
Segundo Guilherme Miranda, da Angatu Private, as small caps têm se destacado recentemente, apresentando desempenho melhor após muitos meses de desconto, impulsionadas pela expectativa de uma agenda fiscal mais austera e ambiente eleitoral favorável.
Eduardo Velho ressalta que a força da bolsa foi evidenciada pelo “trade” eleitoral, mas que a influência do cenário externo permanece significativa. O novo rali dependerá principalmente das pesquisas eleitorais, da curva externa de juros e de medidas econômicas para 2027.
Juros
Os juros futuros na B3 operaram com pouca direção e oscilaram timidamente, refletindo otimismo com possível alternância no poder em 2027 e esperada redução dos prêmios de risco no cenário fiscal. As taxas de curto prazo caíram levemente, enquanto as de longo prazo tiveram pequenos aumentos após recente queda expressiva.
O mercado ainda não enxerga um plano fiscal robusto que permita queda significativa dos juros, mantendo um prêmio elevado nas taxas. O contrato DI para janeiro de 2028 ficou em 12,605%, para 2029 recuou para 12,435% e para 2031 subiu para 12,600%.
Nos EUA, os retornos dos títulos de 2, 10 e 30 anos mostraram estabilidade ou leve alta. A ata do Fed reforçou a possibilidade de novo aumento dos juros este ano, com impacto neutro na curva.
Guilherme Abbud, da Persevera Asset, avalia que o cenário interno tem sido o principal motor dos negócios, sobretudo após o primeiro turno presidencial. Ele acredita que o mercado ainda não está convencido de um ajuste fiscal forte, mantendo prêmio nas taxas de juros.
Eduardo Velho destaca que a continuidade do movimento nos juros dependerá das próximas pesquisas eleitorais e das propostas fiscais de 2027, com os próximos levantamentos que serão divulgados nos institutos de pesquisa.
Os analistas da EQI Research recomendam maior exposição a títulos públicos indexados à inflação, mas João Abdouni alerta para uma abordagem gradual na alocação, aguardando medidas fiscais concretas para consolidar os ganhos nos ativos.
