Adriana Fernandes
Folhapress
O banco Digimais, alvo da operação Miragem da Polícia Federal, recebeu um investimento do Grupo Record e atualmente possui cerca de R$ 2 bilhões em caixa. O reforço financeiro foi feito pela controladora Digimais Participações, pertencente à holding B.A. Empreendimentos Participações, que é parte do Grupo Record.
O aporte ocorreu por meio de CDBs (Certificados de Depósito Bancário) emitidos pelo próprio controlador e outra parte foi captada no mercado com esses títulos, conforme informações obtidas pela Folha.
Esse investimento faz parte das negociações com o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para a venda do banco. Um novo aporte poderá ser realizado enquanto a negociação com o BTG Pactual não se conclui. Ambas as instituições fecharam um acordo de intenção de compra em abril deste ano.
Controlado pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da RecordTV, o Digimais é investigado por suspeitas de manipular relatórios financeiros para mascarar sua real situação e aparentar estabilidade perante órgãos reguladores.
As investigações abrangem crimes como gestão fraudulenta, falsificação em relatórios e concessão de empréstimos vedados por lei para evitar manipulação. Um dos pontos de foco é a compra de precatórios, que são títulos com valores a receber em decisões judiciais contra o Estado.
Na operação realizada na última terça-feira (23), foram cumpridos nove mandados de busca e apreensão contra diretores, conselheiros e empresas vinculadas ao Digimais, com bloqueios de bens até R$ 670 milhões e quebras de sigilo bancário e fiscal dos envolvidos.
Em comunicado ao mercado, após solicitação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o BTG Pactual não descartou prosseguir com a compra apesar da operação da Polícia Federal. Porém, destacou que a compra depende de um processo competitivo e da declaração de sua proposta como vencedora, condições que ainda não ocorreram.
Uma regra recente do FGC prevê a realização de leilão para casos em que instituições financeiras necessitam de socorro, definindo o preço pelo maior benefício para o fundo, minimizando custos no caso de falência bancária.
O BTG avaliou o Digimais e enviou uma oferta com termos e condições, mas o leilão ainda não foi realizado. Pessoas familiarizadas com o assunto informam que uma condição para a compra é um aporte maior feito pelo bispo Edir Macedo.
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, não comentou detalhes sobre o motivo do leilão não ter ocorrido durante entrevista coletiva, ressaltando que a condução é feita pelo FGC, que não se pronuncia sobre casos específicos.
Sobre a continuidade das operações do Digimais após a ação da Polícia Federal, o BC também não se pronunciou.
Após escândalos recentes como o do Master, com impactos no Banco de Brasília (BRB) e outras instituições, o presidente do BC enfatiza que a decisão de liquidar um banco não é punição por conduta inadequada, e sim para proteger os correntistas, esclarecendo a distinção entre investigação criminal e liquidação bancária.
No caso do Master, mesmo com fraudes detectadas, a liquidação extrajudicial foi decretada somente em 17 de novembro do ano anterior, quando o banco já não dispunha de recursos para honrar seus compromissos, possuindo apenas R$ 4 milhões naquele dia.
