Pular para o conteúdo
Dólar R$ 5,08 ▼ 0,57% Euro R$ 5,87 ▼ 0,00% Libra R$ 6,84 ▼ 0,18% Bitcoin R$ 333.134 ▲ 0,34%
Brasil

Desaparecimentos na Rota dos Milagres crescem em meio a conflito de facções

Os desaparecidos desde 2022 que tiveram fotos e nomes divulgados: Diego Alexandre Santos de Melo, Diego Lucas Ferreira da Silva, Laudevanio Silva dos Santos, Guilherme Santos de Almeida Lima, Pedro William dos Santos Silva, João Victor Pinto, Alefi Jose Lima Santos, Marcondes Alves da Silva, Jó Mario da Silva, Glauco Gabriel Omena de Barros, Eduardo dos Santos, Maria Vitoria Chaves da Silva, Bruno Viana de Souza, Andreas Denicio Borges Barros e Nicolas Jhonathan Santos Cunha. – Divulgação SSP-AL

Josué Seixas
RECIFE, PE (FOLHAPRESS)

Nos últimos dois anos, 14 pessoas desapareceram na Rota Ecológica dos Milagres, que inclui as cidades de São Miguel dos Milagres, Porto de Pedras e Passo do Camaragibe, todas localizadas no litoral de Alagoas, próximas a Maragogi. O governo de Alagoas informa que está investigando todos os casos para encontrar as vítimas e punir os responsáveis.

Segundo as autoridades, esses desaparecimentos estão relacionados ao aumento da atividade de facções criminosas na região. Especialistas afirmam que essas organizações utilizam esse método para controlar o território, evitando homicídios que possam gerar maior atenção policial.

Além dos 14 casos recentes entre 2024 e 2026, o governo estadual reconhece um total de 19 desaparecimentos desde 2022, sem detalhar os dados por ano.

Publicidade

Foram encontrados sete corpos nessa área durante esse período. Três deles já foram identificados como pessoas que estavam desaparecidas, enquanto dois aguardam identificação via DNA, e outros dois ainda não foram reconhecidos pelas famílias.

A Folha já havia denunciado o problema no ano anterior, quando eram quatro desaparecidos. Agora, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) revelou os novos números, afirmando que todos os desaparecidos têm ligação direta ou indireta com o tráfico de drogas e o crime organizado.

Porém, familiares contestam essa versão. Cinco mães, sob condição de anonimato, disseram que seus filhos não estão envolvidos com o crime organizado. Três confirmaram uso de maconha, um de crack, e uma negou qualquer uso de drogas. Elas também afirmam que os jovens nunca tiveram passagens pela justiça e alguns tinham certidões negativas para trabalho.

Essas mães reclamam da falta de apoio do poder público, que nunca as procurou para conversar sobre os desaparecimentos. Sem suporte jurídico ou psicológico, elas dividem suas dores entre si.

Por conta de ameaças recebidas ao falar sobre os filhos, algumas decidiram deixar a região. As ameaças vinham de perfis anônimos nas redes sociais.

Para essas famílias, a busca continua, pois ainda não encontraram seus filhos nem puderam dar-lhes um enterro digno, o que faz com que o sofrimento persista.

Dos 14 desaparecidos, 13 são homens e apenas uma mulher, Maria Vitoria Chaves da Silva, de 22 anos, vista pela última vez em dezembro de 2025 em São Miguel dos Milagres. A maioria é jovem, com apenas um acima de 30 anos, Cristiano Henrique Pinto dos Santos, 38 anos.

Oito desaparecimentos aconteceram em 2025, e um em 2026, em janeiro, quando Bruno Viana de Souza, 23 anos, sumiu em São Miguel.

Pedro Willian dos Santos Silva, 26, desapareceu após sair de casa para cortar cabelo em São Miguel, deixando um filho de 5 anos. Ele sonhava em ser cozinheiro e compartilhava receitas nas redes sociais.

Lista dos desaparecidos entre 2024 e 2026

Em São Miguel dos Milagres:

  1. Ronilson Santos da Silva, 23 anos, desapareceu em 29 de maio de 2024;
  2. Carlos Gabriel Rodrigues dos Santos, 19 anos, desapareceu em 24 de julho de 2024;
  3. Guilherme Santos de Almeida Lima, 21 anos, desapareceu em 2 de fevereiro de 2025;
  4. Pedro William dos Santos Silva, 26 anos, desapareceu em 8 de março de 2025;
  5. Eduardo dos Santos, 20 anos, desapareceu em 13 de maio de 2025;
  6. Alefi José Lima Santos, 22 anos, desapareceu em 9 de outubro de 2025;
  7. Maria Vitoria Chaves da Silva, 22 anos, desapareceu em 8 de dezembro de 2025;
  8. Bruno Viana de Souza, 23 anos, desapareceu em 22 de janeiro de 2026.

Em Porto de Pedras:

  1. Cristiano Henrique Pinto dos Santos, 38 anos, desapareceu em 14 de setembro de 2024;
  2. Diego Lucas Ferreira da Silva, 29 anos, desapareceu em 16 de novembro de 2024;
  3. Laudevanio Silva dos Santos, 27 anos, desapareceu em 26 de novembro de 2024;
  4. Marcondes Alves da Silva, 22 anos, desapareceu em 11 de julho de 2025;
  5. Diego Lourenço da Silva (Pé de Pato), 29 anos, desapareceu em 18 de outubro de 2025;
  6. Jó Mario da Silva, 21 anos, desapareceu em 18 de outubro de 2025.

Crescimento das facções e impacto na segurança

Na região atuam quatro grupos ligados a duas grandes facções: Comando Vermelho (CV), que inclui Tropa do Kebinho e Trem Bala do CV, e o Primeiro Comando da Capital (PCC), junto com a Tropa dos Crias. O PCC é ligado a São José da Coroa Grande (PE), na fronteira com Alagoas.

Os desaparecimentos estariam ligados a dívidas, conflitos entre facções, delações e traições aos códigos dessas organizações, segundo a SSP.

O pesquisador Luiz Fábio Paiva, da Universidade Federal do Ceará, explica que esses desaparecimentos são táticas para controlar territórios, evitando problemas maiores como homicídios que atraem mais atenção.

Ele destaca a importância do investimento do poder público em investigação e inteligência para evitar que essa estratégia se torne comum e cause sofrimento à população.

Os corpos encontrados apresentavam sinais de violência e estavam em locais de difícil acesso, como matas e zonas rurais. Alguns estavam enterrados e outro exposto ao ar livre. Isso dificulta as buscas devido ao terreno e à baixa população local.

O caso mais recente foi Nicolas Jhonathan Santos Cunha, 17 anos, que desapareceu em 27 de março a caminho da escola em São Miguel e teve o corpo encontrado em 4 de abril em uma estrada vicinal na Fazenda Salema. Outro corpo ainda não identificado também foi achado na mesma área.

Investigação e auxílio às famílias

Patrick Madeiro, secretário-executivo de Políticas de Segurança Pública, afirmou que o Estado está empenhado em encontrar os desaparecidos e que muitos têm ligação com o crime, seja como usuários ou por meio de traficantes.

Ele lembrou que uma equipe de inteligência foi formada para atuar na região e que há um inquérito em andamento contra as facções criminosas CV e PCC.

Ronilson Medeiros, coordenador de desaparecidos em Alagoas, ressaltou a necessidade de apoio assistencial, psicológico e jurídico para as famílias. Ele afirmou que as investigações são feitas sem julgamentos, com o objetivo de localizar os desaparecidos.

O Ministério Público do estado solicitou boletins de ocorrência e informações sobre os inquéritos para garantir o rigor na apuração dos fatos.

Boletim Imprensa Pública

Comece o dia bem informado

O essencial do DF, do Entorno e do Brasil, de graça, no seu e-mail.