ALEX SABINO
FOLHAPRESS
O primeiro grande empresário industrial do Brasil, Irineu Evangelista de Sousa, conhecido como Visconde de Mauá, enfrentou muitas dificuldades para estabelecer suas indústrias e pediu que os governantes não esquecessem de proteger o trabalho e os interesses econômicos do país.
Apesar dos esforços, nas últimas quatro décadas, a indústria brasileira sofreu um forte declínio. Em 1985, a indústria de transformação representava 36% do Produto Interno Bruto (PIB), número que caiu para 10,8% em 2024. Essa desindustrialização precoce fez com que a produtividade, os empregos e os salários caíssem antes do Brasil alcançar uma renda per capita elevada.
Igor Lopes Rocha, economista-chefe da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), destaca que a indústria paga uma carga tributária muito alta em comparação com sua participação no PIB, o que dificulta sua competitividade.
O crescimento econômico do país ficou concentrado nas exportações de commodities, que passaram de 4% do PIB em 1962 para 23,2% em 2024. Essa dependência de recursos naturais trouxe problemas para a indústria, em um fenômeno conhecido como “doença holandesa”.
Guilherme Grandi, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (USP), lembra que a desindustrialização não foi um processo natural e virtuoso, como em alguns outros países, mas um enfraquecimento das cadeias produtivas que antes eram importantes.
O número de empregos formais na indústria também caiu muito. Em 1986, 27% dos empregos com carteira assinada eram industriais; em 2023, essa proporção caiu para 15,8%. Houve fechamento de mais de um milhão de vagas entre 2011 e 2020, e a remuneração sofreu queda significativa durante a recessão de 2014 a 2017.
A maioria dos empregos industriais atualmente está em setores menos tecnológicos, enquanto as áreas de tecnologia e pesquisa têm uma participação menor do que nos países mais desenvolvidos.
O governo federal lançou em 2024 o programa Nova Indústria Brasil, com um orçamento de R$ 394 bilhões para tentar reverter esse cenário. O programa é coordenado pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, e conta com apoio do BNDES.
Especialistas consideram o programa bem planejado, mas insuficiente, principalmente no que se refere aos investimentos em pesquisa e inovação. Eles também apontam para a necessidade de uma política industrial consistente e de longo prazo, que ainda falta no país.
Igor Lopes Rocha destaca que o Brasil perdeu a capacidade de planejamento sistemático, dando lugar a ações pontuais de governo. Para concluir, o Visconde de Mauá, que viveu esse ciclo de luta, afirmou: “Pela parte que me toca, fui vencido, mas não convencido.”
