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De dengue a superbactérias: as infecções que preocupam o Brasil

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Fomos ao Congresso Brasileiro de Infectologia e mapeamos alguns dos principais desafios envolvendo doenças causadas por vírus e micróbios no país

Bactérias e fungos resistentes já viraram problema de saúde pública (Erika Onodera/SAÚDE é Vital)

Acompanhar o Congresso Brasileiro de Infectologia, cuja vigésima primeira edição acaba de ocorrer em Belém do Pará, é ter um painel do que vírus, bactérias, fungos e companhia vêm aprontando por aí e, ao mesmo tempo, um retrato das diversas (e desiguais) realidades do país. Enquanto regiões ainda penam com doenças que parecem (mas só parecem) coisa do passado, como a hanseníase, nas grandes cidades os hospitais mais modernos já quebram a cabeça para contra-atacar micróbios resistentes e letais. O ponto em comum, e que independe de lugar ou classe social, é: as doenças infecciosas continuam sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil e no mundo.

Queda na vacinação, desmatamento e crescimento urbano, mudança climática, falta de informação… Tudo isso conspira para que micro-organismos ganhem terreno e imponham problemas à humanidade. A medicina corre atrás, buscando não só novos imunizantes e tratamentos, mas estratégias mais eficazes de esclarecer e engajar a população a se defender. Inclusive porque, em matéria de moléstias infecciosas, todo cidadão tem um papel a cumprir: seja lavando as mãos e não usando antibiótico por conta, seja limpando o quintal para não dar abrigo ao mosquito da dengue.

Mapeamos, a seguir, alguns dos temas mais preocupantes debatidos no congresso, que reuniu mais de 2 mil profissionais em Belém entre os dias 10 e 13 de setembro.

É ano de dengue

Entre as doenças disseminadas pelo mosquito Aedes aegypti, capaz de transmitir dengue, zika e chikungunya, a dengue já é o principal tormento de 2019. Como o próprio Ministério da Saúde divulgou, já foram registrados mais de 1,4 milhão de casos até agosto deste ano — um aumento de quase 600% em relação a 2018.

Segundo o infectologista Antonio Carlos Bandeira, da Vigilância Epidemiológica do Estado da Bahia, 65% dos casos e notificações vêm ocorrendo na região Sudeste. Só em São Paulo houve, até março deste ano, um incremento de mais de 2 000% na quantidade de pessoas acometidas. O Centro-Oeste fica em segundo lugar entre as regiões problemáticas.

O sorotipo 2 do vírus da dengue (existem quatro) é o que mais circula pelo Brasil nesta temporada. Ao suspeitar do quadro — que pode provocar, entre outras coisas, febre, dor de cabeça e no corpo —, o conselho é procurar um serviço de saúde quanto antes. A identificação e o manejo precoce evitam complicações e mortes.

A tendência de crescimento da dengue felizmente não se repete com dois outros vírus transmitidos pelo Aedes aegypti, o zika (2,3 mil casos prováveis até março de 2019) e o chikungunya (15,3 mil), que se mostram mais estáveis no número de episódios em comparação com o ano anterior.

Ainda assim, não dá para bobear com o mosquito. A prevenção inclui desde eliminar os criadouros a recorrer a repelentes e telas em casa. Bandeira reforçou a necessidade de se investir em novas tecnologias, como larvicidas biológicos e vacinas contra as infecções.

A epidemia dos micróbios resistentes

Eis um tema inescapável e que dominou boa parte das conferências e debates no congresso. A resistência antimicrobiana, que é a capacidade de bactérias e fungos repelirem os tratamentos disponíveis, já entrou na lista das dez prioridades da Organização Mundial da Saúde (OMS). Algumas projeções vislumbram que, por volta de 2050, o problema vai causar mais mortes que outra doença em ascensão, o câncer.

As causas do fenômeno não se resumem ao uso indiscriminado de antibióticos e outros remédios na medicina humana. “A maior parte dos antibióticos produzidos hoje é voltada à agropecuária e empregada como fator de crescimento para o cultivo de animais e em algumas plantações”, observou o médico Marcos Cyrillo, diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

A utilização massiva, e que envolve inclusive algumas substâncias similares àquelas que tratam infecções em humanos, tem repercussões, diretas e indiretas, no meio ambiente e até no que acontece dentro dos hospitais. Num mundo em que os micro-organismos são praticamente onipresentes, tudo se encontra conectado. E, quem diria, até o aquecimento global tem um dedo nessa história.

Cyrillo abordou em uma apresentação o papel da mudança climática no crescimento da resistência antimicrobiana. É que, simplificando uma questão complexa, o aumento da temperatura seria capaz de tornar bactérias e fungos mais perigosos. Acredita-se que esse fenômeno tenha contribuído para o surgimento e a expansão das infecções por Candida auris, um fungo altamente letal e que já causa furor em hospitais (por enquanto, fora do Brasil). Já não dá mais para separar a saúde humana do bem-estar do planeta.

A explosão das doenças sexualmente transmissíveis

Esse foi o título de uma das conferências do congresso. E duas doenças causadas por bactérias que voltaram com tudo protagonizaram discussões. Falamos da gonorreia e da sífilis.

O termo “explosão” das ISTs — sigla para infecções sexualmente transmissíveis, antigamente conhecidas por DSTs — não é exagerado. De acordo com a infectologista Miralba Freire, professora da Universidade Federal da Bahia, a OMS calcula que mais de 1 milhão de infecções do tipo sejam adquiridas por dia pelo mundo.

A gonorreia é a segunda IST mais prevalente em boa parte do globo. Segundo a médica, hoje ela atinge mais pessoas jovens e homens que fazem sexo com outros homens. E a doença não apronta só com os genitais, não. “Vem crescendo o número de casos com acometimento do reto e da faringe”, relatou Miralba.

Da mesma maneira que acontece com outras infecções bacterianas, a gonorreia também atormenta os médicos devido à resistência a antibióticos.

Para deter seu avanço, precisamos investir em relações sexuais seguras, com o preservativo, e realizar o teste que detecta a bactéria — em alguns grupos, o exame deve ser periódico e repetido com maior frequência.

Raciocínio semelhante se aplica a outra IST da pesada, a sífilis. “Ela cresce em todas as regiões do mundo e tem um importante impacto psicossocial e econômico”, afirmou o infectologista Aluísio Segurado, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. São mais de 6 milhões de vítimas com idades entre 15 e 49 anos hoje.

Para o especialista, a ascensão da doença no país não se deve apenas a mais diagnósticos. “Há um aumento na circulação do agente infeccioso”, apontou. A sífilis pode lesar os genitais e ainda desatar complicações em várias áreas do corpo. Gestantes e seus rebentos inclusive enfrentam o perigo da sífilis congênita, quando a bactéria ataca o bebê ainda no ventre materno (muitos casos são fatais).

Para quebrar a epidemia da moléstia, Segurado salientou a necessidade de esclarecer mais a população e criar condições para que se faça diagnóstico e tratamento quanto antes.

O drama da hanseníase continua

A doença provocada pela bactéria Micobacterium leprae — e durante séculos conhecida como lepra — ainda é um desafio para o Brasil. Se passou pela sua cabeça um pensamento do tipo “isso ainda existe?”, saiba que, não apenas existe, como nosso país tem o segundo maior contingente de pessoas com a doença no planeta (só perdemos para a Índia).

Em uma apresentação emocionada no congresso, o infectologista Marcio Gaggini, professor da Universidade Brasil, em Fernandópolis (SP), convocou médicos, autoridades e sociedade a olharem mais para o problema e suas vítimas, muitas delas esquecidas pelos quatro cantos do país. Segundo o especialista, mais de 200 mil cidadãos podem ter ficado sem diagnóstico e assistência nos últimos anos.

O Brasil aloja 91% dos casos de hanseníase da América Latina. Por aqui, a maior parte dos episódios ocorre nas regiões Nordeste e Centro-Oeste. Muitos dos pacientes só descobrem a doença depois que ela provocou deformidades na pele, nas mãos, no rosto…

A bactéria causadora é transmitida pelo ar — esqueça aquela história de que, ao tocar em alguém com hanseníase, você pegou! — mas pode ser erradicada com tratamento. “As pessoas estão sofrendo hoje com diagnóstico tardio e sequelas”, revelou Gaggini. Campanhas e ações dirigidas a regiões e comunidades mais afetadas pela condição são urgentes.

Sim, também precisamos conscientizar a população. Na presença de alterações como manchas e lesões na pele, acompanhadas por falta de sensibilidade, procure um médico ou serviço de saúde. Não só existe tratamento para hanseníase como ele pode levar à cura.

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ECMO: o aparelho que ajuda a salvar vidas na pandemia de coronavírus

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A tecnologia é utilizada em casos gravíssimos e funciona como um pulmão artificial

Um paciente com Covid-19 é é tratado em UTI do Centro ECMO em um hospital de Moscou, na Rússia. Reprodução/Reuters

A Covid-19 é uma doença sistêmica, ou seja, afeta várias partes do corpo. Entretanto, sua ação inicial e principal é nos pulmões. Em muitos pacientes, o vírus danifica o órgão de um jeito em que a pessoa não consegue respirar sozinha. É nessa fase que entram os equipamentos de suporte, como a cânula de oxigênio e o respirador.

O problema é que o ventilador mecânico apenas ajuda o paciente a respirar ao facilitar a entrada de oxigênio até os pulmões e a retirada do gás carbônico na expiração. Mas, em alguns casos, os alvéolos – pequenos sacos de ar responsáveis pela troca gasosa que oxigena o sangue – estão tão afetados que nem o ventilador mecânico é suficiente.

Nesses casos, há um último recurso: o ECMO, sigla em inglês para o procedimento chamado oxigenação por membrana extracorpórea. “Esse procedimento é usado em casos extremos, quando o doente não respondeu a nenhum recurso disponível anteriormente e esse é um dos últimos ou o último para mantê-lo vivo. Ele não é a cura, mas ajuda a manter a pessoa viva até que a doença passe”, explica o cirurgião cardíaco pediátrico do Incor Luiz Fernando Caneo, ex-presidente da Organização para Suporte Vital Extracorpóreo (Elso, na sigla em inglês) latino americana, responsável por interligar centros que oferecem o ECMO na América Latina.

O equipamento pode exercer simultaneamente a função do pulmão e do coração em pacientes em que um desses órgãos ou ambos – perdeu temporariamente a capacidade de realizar estas funções. “O equipamento tem uma bomba, que faz a vez do coração e um oxigenador que faz a vez do pulmão.”, Caneo.

Essa tecnologia já era usada em serviços de saúde de referência pelo Brasil e pelo mundo, mas era utilizada em situações específicas, como em cirurgias cardíacas, operações de grande porte ou durante transplantes de pulmão e coração. Agora, o equipamento ganhou nova importância e está sendo usado com frequência em pacientes com Covid-19 em serviços como o Hospital Albert Einstein, o Hospital Sírio-Libanês e o Hospital das Clínicas. Estima-se que cerca de 50 pacientes com Covid-19 tenham sido submetidos ao procedimento em todo o Brasil.

O Hospital Israelita Albert Einstein, responsável pelo diagnóstico do primeiro caso brasileiro do novo coronavírus em fevereiro e referência no tratamento da Covid-19 no país, adquiriu recentemente mais três equipamentos de ECMO. “São equipamentos de alta tecnologia e de grande complexidade. […]  Estes não estão presentes em todas as UTIs — nem do mundo, nem do nosso país. Já tínhamos algo semelhante, mas agora estamos ainda mais preparados para poder oferecer aos pacientes mais graves pela Covid-19 ou por outra doença que deteriore o pulmão uma chance maior de recuperação”, explica Sidney Klajner, presidente da instituição.

Como funciona

Praticamente, é como se a máquina “respirasse” pelo paciente. Ela drena o sangue de uma veia, remove o dióxido de carbono, acrescenta oxigênio, aquece o sangue e depois retorna o sangue para uma artéria. Ao oxigenar o sangue externamente, a máquina permite que o pulmão se recupere e o paciente tenha possibilidade de melhora. “O ventilador mecânico não substitui a função do pulmão do paciente, ele só fornece um fluxo de ar para o interior dos pulmões. Já este equipamento funciona como um pulmão adicional”, explica Celso Freitas, diretor médico da LivaNova, empresa global de tecnologia médica, que forneceu os novos equipamentos ao Hospital Albert Einstein.

Tão importante quanto o equipamento, é o treinamento dos profissionais de saúde em sua utilização. É necessário um cirurgião para inserir os dispositivos no pacientes, uma equipe clínica altamente treinada para operar a máquina e equipe de suporte para monitorar o paciente o tempo todo. “O maior problema hoje é a demanda aumentada por esses dispositivos e o treinamento das equipes multiprofissionais para usarem essa tecnologia. Isso não é uma coisa que pode ser feita da noite para o dia, tão pouco por centros que não se prepararam para oferecer esse tratamento antes da pandemia”, afirma Caneo.

Por ser um procedimento complexo e invasivo, sua principal indicação é para pacientes jovens, com lesão pulmonar grave. E é um tratamento longo. Os pacientes costumam ficar pelo menos 15 dias nesse suporte.

“A ECMO ocupa hoje um importante papel no aumento da sobrevida dos pacientes. Em todas as pandemias anteriores, a ECMO surgiu como apoio para pacientes com insuficiência respiratória aguda grave. Na pandemia de H1N1, por exemplo, hospitais que ofereceram ECMO ao paciente tiveram maior taxa de recuperação do que aqueles sem essa tecnologia.”, diz o cirurgião cardíaco Luiz Caneo.

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O impacto da pandemia nos hábitos de vida

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Talvez esse momento seja oportuno para rever o estilo de vida, reorganizar a alimentação e por em prática a antiga meta de uma vida mais saudável

5- Planeje sua alimentação iStockphoto/Getty Images

A preocupação com o peso e doenças como diabetes, hipertensão e dislipidemia sempre foi um tema “chato” para os pacientes durante as consultas com o endocrinologista. O enfoque ou é muito voltado para a parte estética ou muito às solicitações do profissional de saúde por uma qualidade de vida melhor. Insistir em um controle de peso, alimentação saudável e exercícios físicos parece um discurso repetitivo dos médicos, mas que obviamente está embasado em dados de morbidade e mortalidade que essas patologias causam. Doença cardiovascular (infarto e acidente vascular cerebral), câncer, doenças respiratórias são as doenças que mais matam no mundo (mais que o Covid-19) e têm relação com o estado metabólico do indivíduo (peso, níveis glicose e colesterol, pressão arterial).

A pandemia de coronavírus tornou esse tema ainda mais real à medida que os estudos observacionais identificaram um risco maior de mau prognóstico e mortalidade nos indivíduos obesos, diabéticos, hipertensos e com síndrome metabólica. Em algumas regiões, 20-50% dos pacientes com Covid-19 têm diabetes mellitus tipo 2 e 89.3% têm uma ou mais das seguintes condições: hipertensão arterial (49.7%), obesidade (48.3%), doença pulmonar (34.6%), diabetes mellitus (28.3%) e doença cardiovascular (27.8%).

Paradoxalmente, nas últimas guerras, as pessoas que mais sobreviveram à fome e escassez foram as com maior reserva energética. Hoje, esse excesso de adiposidade, níveis de glicose e lipídeos elevados são fatores negativos para sobrevida.

Conhecidamente essas doenças têm uma fisiopatologia que leva a uma lesão do endotélio vascular e menor resposta do sistema imune a uma agressão externa, que quando associado a infecção pelo Covid-19 agrava as lesões vasculares em múltiplos órgãos concomitantemente com uma menor resposta imunológica. Em outras palavras, pacientes que já estão com suas patologias causando um processo inflamatório crônico nos tecidos são agravados pela presença do vírus. Subitamente o tema vida saudável passou a ter uma relevância ainda maior na nossa vida.

Justamente num momento em que as pessoas se encontram em isolamento, com limitações de suas atividades físicas, sob intenso estresse psicológico e econômico, deparando com notícias frequentes do número crescente de óbitos, elas também precisam se preocupar com sua saúde física. Talvez esse momento seja oportuno para rever hábitos de vida, reorganizar sua alimentação (dentro das suas condições e preferências), valorizar e iniciar uma atividade física aeróbica, equilibrar o emocional e por em pratica a antiga meta de uma vida mais saudável, entendendo que saúde física e mental nem sempre são sinônimos de corpo esbelto e magro, e vida saudável não significa dietas restritivas ou limitadas.

Voltamos a falar do velho equilíbrio e bom senso. Boa alimentação é mais do que ingerir nutrientes. Envolve como eles são combinados e preparados, o modo de comer e seu conteúdo simbólico, cultural e social. Aprender a gerenciar as escolhas com autonomia e cuidado, cozinhando refeições saborosas e balanceadas, usando todos os grupos de alimentos, criando regularidade e ambientes apropriados, em companhia (quando possível), reservando um momento para que as refeições sejam feitas com atenção. É hora também de treinar habilidades culinárias e trocar experiências.

Nesse aspecto, pessoalmente acredito que as preocupações e cuidados familiares devem estar mais voltados para nossas crianças e adolescentes. Momento útil para as famílias pensarem nos futuros adultos que precisam ter um sistema imune mais eficaz e mais preparados para envelhecer com mais qualidade de vida. Nossos jovens nunca foram tão sedentários, pobres em qualidade e variedade alimentar, procurando métodos milagrosos e rápidos de perda de peso, associando sempre prazer com excessos (comida ou restrições, álcool, cigarros, drogas). Curiosamente os jovens foram os que mais aderiram ao isolamento social e ao medo de contrair o Covid-19. Por que não aproveitarmos esses momentos para estimular novos hábitos e rotinas?

Claudia Cozer Kalil
Ricardo Matsukawa/Veja.com

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Coronavírus: Novavax começa a testar vacina em humanos

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Estudo contará com 130 participantes e deve ter primeiros resultados conhecidos em julho deste ano

3D art based in microscope images of the corona virus from the 2020 outbreak in Wuhan, China Reprodução/Getty Images

A empresa de biotecnologia Novavax anunciou na segunda-feira, 25, a primeira fase de testes em humanos para uma vacina experimental do novo coronavírus.

Esta primeira fase clínica será controlada por placebo e terá a participação de aproximadamente 130 participantes saudáveis com idades entre 18 e 59 anos em duas regiões na Austrália. A avaliação demandará duas aplicações.

“Administrar nossa vacina aos primeiros participantes desta fase clínica é um feito significante, nos leva um passo a frente à conquista de uma necessidade fundamental na luta contra a pandemia da Covid-19“, disse Stanley Erck, CEO da empresa.

“Estamos planejando divulgar os resultados clínicos em julho, se a resposta for positiva, logo iniciaremos a fase 2 do desenvolvimento”, apontou.Já a segunda etapa deve incluir diversos países, como os Estados Unidos, e avaliará o nível de imunização, segurança e redução de casos da Covid-19 em uma faixa mais ampla de idade, descreveu a empresa em comunicado.Em testes pré-clínicos, a vacina da Novavax demonstrou alto nível de imunidade à doença e de anticorpos neutralizadores.

Esses resultados, diz o laboratório, são evidências de que esta candidata a antídoto terá grande eficácia em humanos ajudando a controlar o avanço do novo coronavírus.A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou na sexta-feira, 22, que dez vacinas experimentais estão sendo testadas em humanos, incluindo a da Novavax.

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Covid-19: Oxford inicia nova fase de vacina, com mais de 10 mil pessoas

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As próximas etapas irão avaliar a resposta imune à vacina em pessoas de diferentes faixas etárias e seu funcionamento em um grande número de indivíduos

A avaliação da eficácia de uma vacina é feita pela comparação do número de infecções no grupo controle com o número de infecções no grupo vacinado. Reprodução/Reuters

Nesta sexta-feira, 22, a Universidade de Oxford anunciou o início das fases II e III de sua vacina para o novo coronavírus. De acordo com os pesquisadores, os ensaios clínicos estão “progredindo muito bem” e na próxima etapa 10.260 pessoas, entre adultos e crianças, serão imunizadas no Reino Unido. Esse é considerado o imunizante mais promissor em desenvolvimento por diversos especialistas.

O estudo clínico em humanos da vacina desenvolvida pela universidade começou no início de abril. Na fase I, mais de 1.000 adultos saudáveis receberam a vacina e essas pessoas ainda estão em acompanhamento. A fase II do estudo envolve a expansão da faixa etária e passa a incluir idosos e crianças. Até o momento, apenas adultos com idade entre 18 e 55 anos estavam incluídos nos testes de avaliação da segurança do imunizante.

Agora, os cientistas querem avaliar a resposta imune à vacina em pessoas de diferentes idades, para descobrir se há variação dessa resposta em pessoas idosas ou crianças, que tem um sistema imunológico diferente de adultos saudáveis. Já a fase III do estudo envolve analisar como a vacina funciona em um grande número de pessoas com mais de 18 anos de idade.

Os participantes adultos dos grupos fase II e fase III serão randomizados para receber uma ou duas doses da vacina ChAdOx1 nCoV-19 (contra o coronavírus) ou da vacina MenACWY, que será usada como “controle” para comparação. A vacina MenACWY é usada pra proteger contra uma das causas mais comuns de meningite e sepse e é administrada rotineiramente em adolescentes no Reino Unido desde 2015.

De acordo com os pesquisadores, a razão para usar esta vacina, em vez de um controle salino, é porque efeitos colaterais como dor no braço, dor de cabeça e febre são esperados em quem recebe a vacina contra o novo coronavírus. No entanto, a injeção de solução salina não causa nenhum desses efeitos colaterais e, se ela fosse usada, os participantes estariam cientes de que haviam recebido a nova vacina. Isso poderia impactar nos resultados, pois poderia afetar o comportamento de saúde dos voluntários após a vacinação e levar a um viés nos resultados do estudo.

Como funciona a vacina

A ChAdOx1 nCoV-19 é produzida a partir de um vírus (ChAdOx1), que é uma versão enfraquecida de um adenovírus que causa o resfriado comum em chimpanzés. Ele foi geneticamente modificado para impedir a infecção em humanos. A esse imunizante, foi adicionado material genético usado para produzir proteínas as proteínas Spike do SARS-CoV-2, nome oficial do novo coronavírus.

Essas proteínas são as responsáveis pela entrada do vírus nas células humanas. A expectativa é que após a aplicação da vacina o corpo reconheça e desenvolva uma resposta imune à proteína Spike, que ajude a impedir que o vírus SARS-CoV-2 entre nas células humanas e, portanto, evite a infecção.

Quando sairá o resultado

A avaliação da eficácia de uma vacina é feita pela comparação do número de infecções no grupo controle com o número de infecções no grupo vacinado. Portanto, é necessário esperar que um determinado número de participantes desenvolva o Covid-19. “A rapidez com que atingiremos os números necessários dependerá dos níveis de transmissão de vírus na comunidade. Se a transmissão continuar alta, podemos obter dados suficientes em alguns meses para ver se a vacina funciona, mas se os níveis de transmissão caírem, isso pode levar até 6 meses.”, escreveram os pesquisadores em um comunicado à imprensa.

Financiamento

Na quinta-feira, 21, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA anunciou o financiamento no valor de até 1,2 bilhão de dólares – equivalente a 6,7 bilhões de reais – à farmacêutica AstraZeneca para acelerar o desenvolvimento da vacina de Oxford. Recentemente, a farmacêutica firmou uma parceria com a universidade para viabilizar a produção do imunizante em larga escala caso ele se mostre eficaz.

De acordo com informações do The New York Times, o acordo do governo americano com a farmacêutica é o quarto e de longe o maior contrato de pesquisa de vacinas divulgado pelo departamento. O objetivo é que o dinheiro seja usado para pagar por um ensaio clínico fase III realizado nos Estados Unidos com cerca de 30.000 voluntários. O comunicado afirma ainda que a agência e a AstraZeneca “estão colaborando para disponibilizar pelo menos 300 milhões de doses” aos EUA. A projeção é que as primeiras doses estejam disponíveis já em outubro.

Caso a vacina se prove eficaz, serão necessárias bilhões de doses para imunizar toda a população mundial, já que o coronavírus afetou o mundo todo. O desafio é como garantir uma produção massiva em pouco tempo. Em outro comunicado divulgado também na quinta-feira, 21, a AstraZeneca afirmou ter fechado acordos para garantir a produção de pelo menos 400 milhões de doses e ter capacidade de fabricação garantida para um bilhão de doses. O início da distribuição está previsto para setembro. A empresa disse ainda que discutindo acordos para produção simultânea por outras empresas, incluindo o gigante Serum Institute of India, um importante fornecedor de vacinas para o mundo em desenvolvimento.

 

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Melatonina, o hormônio do sono, pode proteger coração de distúrbios

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Pesquisador alerta que a ação ampla da substância no organismo reforça a necessidade de usos calculados e de maneira personalizada

Coração: pesquisa pode guiar o desenvolvimento de novas drogas para doenças cardiovasculares (MEHAU KULYK/SCIENCE PHOTO LIBRARY/Getty Images)

Após revisar dados de 162 ensaios clínicos, pesquisadores brasileiros concluíram que a melatonina – substância popularmente conhecida como o “hormônio do sono” – pode proteger o coração contra arritmias, doença arterial coronariana, hipertensão e outros distúrbios cardiovasculares.

As conclusões foram divulgadas no International Journal of Molecular Sciences. O trabalho teve apoio da FAPESP e a participação de cientistas das universidades de São Paulo (USP) e Anhembi Morumbi.

“A ação do hormônio sobre a pressão arterial e a frequência cardíaca se dá tanto de maneira periférica nos vasos e no coração, como de modo central no hipotálamo e em outras estruturas do sistema nervoso central. Estudos mostraram o efeito do hormônio até mesmo sobre as mitocôndrias das células, importantes na regulação do sistema cardiovascular”, diz José Cipolla-Netto, professor do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e autor principal do artigo.

Além de dados de trabalhos clínicos e ensaios experimentais sobre o papel cardioprotetor da melatonina, os autores apresentam no artigo uma lista de substâncias capazes de imitar a função do hormônio – tecnicamente chamadas de agonistas dos receptores de melatonina. A seleção foi feita com auxílio de ferramentas de inteligência artificial do tipo machine learning, que permitem analisar uma grande quantidade de dados por métodos estatísticos.

Com a tecnologia, foi possível ainda elaborar ensaios experimentais virtuais com o objetivo de encontrar compostos e quantificar, preditivamente, a sua eficiência sobre um determinado sistema, baseado na sua estrutura e em ensaios prévios.

“Com uso de machine learning listamos substâncias semelhantes à melatonina e verificamos quais delas têm potencial ação no sistema cardiovascular e nos receptores de melatonina. De um conjunto imenso de moléculas, encontramos 780 com ação cardiovascular supostamente semelhante à da melatonina”, afirma.

De acordo com o pesquisador, os dados estão abertos e podem guiar o desenvolvimento de novas drogas para doenças cardiovasculares.

Atuação no metabolismo

Cipolla-Neto coordena um Projeto Temático apoiado pela FAPESP sobre o papel da melatonina na regulação do metabolismo energético.

Recentemente, publicou artigo sobre a ação da melatonina em distúrbios metabólicos, no qual ressalta que a baixa produção desse hormônio pode causar sintomas variados, pois a substância interage com vários sistemas do corpo, como o cardiovascular, imunológico, reprodutor, sistema nervoso central e também o metabolismo energético.

“Havia uma concepção errada de que a melatonina, em humanos, pudesse ser, eventualmente, diabetogênica”, diz.

De acordo com o pesquisador, o hormônio tem efeitos noturnos e diurnos distintos. “À noite, quando o hormônio é fisiologicamente secretado, ele de fato reduz a produção de insulina e induz resistência insulínica, pois nessa fase o indivíduo está dormindo e, portanto, em jejum. A melatonina produzida e que atua à noite, por outro lado, determina, durante o dia, aumento da sensibilidade insulínica, aumento da secreção de insulina pelo pâncreas, estimulada pelas incretinas, o que é necessário para a fisiologia do dia.”

Cipolla-Neto afirma que, dessa forma, ao tomar melatonina à noite, é esperado que haja uma melhora no controle glicêmico. “Isso precisava ser esclarecido. Havia dados, mas permaneciam algumas confusões de interpretação sobre a questão de ela ser pró-insulínica ou anti-insulínica”, diz.

Prescrição criteriosa

O pesquisador alerta que a ação ampla da substância no organismo – seja na regulação do sono, no sistema cardiovascular ou na regulação do metabolismo – só reforça a necessidade de que a reposição hormonal seja cuidadosamente calculada de maneira personalizada.

“É uma atenção a mais que se deve ter. Por isso, faço questão de dizer que melatonina não é uma substância inócua que possa ser tomada ao bel-prazer. Ela é um hormônio e a sua administração deveria ser rigorosamente controlada.”

Para Cipolla-Neto, primeiro é preciso saber se é necessário fazer a reposição hormonal e depois ajustá-la para cada indivíduo de tal forma que a administração da droga seja exclusivamente noturna. A melatonina não pode estar circulando na corrente sanguínea durante o dia.

De acordo com o pesquisador, também é preciso observar os hábitos de sono de cada pessoa. “Aqueles que em geral dormem por muitas horas, provavelmente produzem o hormônio por mais tempo do que os que precisam de menos horas de sono. Além disso, pessoas que são mais produtivas durante a manhã geralmente têm uma fabricação natural de melatonina que começa no início da noite, enquanto as que são mais produtivas à tarde ou noite somente começam a fabricar o hormônio mais tardiamente. Todos esses fatores – além da idade, peso e condição clínica – devem ser levados em consideração na hora da prescrição.”

Estudos clínicos

O grupo de pesquisadores pretende iniciar um estudo, em parceria com o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graac), com pacientes que por algum motivo não têm a glândula pineal – responsável pela produção de melatonina.

“Por uma concepção errônea da medicina contemporânea, infelizmente, não se prescreve para os pacientes pinealectomizados [que tiveram a glândula removida] a necessária reposição hormonal com melatonina, por incrível que isso possa parecer. A reposição de melatonina é o que deve ser feito quando, por alguma razão, há a retirada ou destruição de uma glândula e, portanto, a ausência dos seus hormônios”, disse.

Em uma primeira fase, o objetivo do estudo será acompanhar os efeitos terapêuticos da reposição da substância nesses pacientes sem a glândula pineal. “A ideia é descrever uma síndrome do paciente pinealectomizado do ponto de vista metabólico, cardiovascular, neurológico e psicológico, além de estudos associados da ritmicidade circadiana e do ciclo vigília-sono”, diz.

Na segunda linha de estudos, agora experimentais, os pesquisadores vão estudar e caracterizar o papel da melatonina materna durante a gestação e lactação para o desenvolvimento, fisiologia e comportamento da prole.

“Serão gerados filhotes em situação de pouca melatonina durante a gestação e vamos avaliar, na prole, nas diversas idades, o desenvolvimento neuropsicomotor, aspectos de aprendizado e memória, o metabolismo, o sistema cardiovascular, o sistema imunológico, aspectos da ritmicidade circadiana da atividade/repouso, vigília/sono”, diz.

Em paralelo, pretendemos estudar os filhos de mulheres que trabalharam no turno da noite durante a gestação. “É a situação social que imita a situação experimental. Então a pergunta é: como é que estão os filhos dessas mulheres que trabalharam à noite durante a gestação? Vamos fazer estudo metabólico e de desenvolvimento neuropsicomotor dessas crianças”, diz.

O artigo Cardioprotective Melatonin: Translating from Proof-of-Concept Studies to Therapeutic Use pode ser lido aqui.

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Saúde

Covid-19: Corrida para a primeira vacina chegar ao mercado ganha força

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O anúncio da eficácia de medicamento americano em humanos traz esperança para o controle da doença

O PRIMEIRO PASSO – Laboratório Moderna, nos EUA: os resultados animadores inflaram as bolsas David L. Ryan/The Boston Globe/Getty Images

Raríssimas questões são tão unânimes na medicina epidemiológica: a vacina é a arma mais potente contra uma pandemia. Trata-se do único remédio capaz de brecar novas infecções. Desenvolvida em 2009, a vacina contra o H1N1, por exemplo, foi determinante para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciasse o fim da pandemia provocada pelo vírus no ano seguinte. Das 118 fórmulas contra a Covid-19 registradas atualmente pela OMS, oito já estão sendo testadas em seres humanos. Entre elas, há três com tração suficiente para chegar à reta final ainda neste ano, em louvável ineditismo. Até hoje, o tempo recorde tinha sido com o sarampo — o tratamento foi aprovado em 1963, dez anos depois de o vírus ter sido identificado. No que se refere ao prazo de início dos estudos, a data é ainda mais espantosa. Passaram-se apenas três meses desde a identificação do novo coronavírus, na China, e as primeiras pesquisas.

Um passo fundamental foi dado nesta semana. Na segunda-feira 18, a empresa americana de biotecnologia Moderna revelou um sucesso: as oito primeiras pessoas imunizadas com duas doses do fármaco estavam protegidas. “Esses dados, embora iniciais, demonstram que a vacinação provoca uma resposta imunológica ao vírus semelhante à produção de anticorpos que ocorre no sangue de pacientes já recuperados da doença”, disse Tal Zaks, diretor médico da Moderna. O estudo faz parte da chamada fase 1, ainda restrito, afeito a avaliar a segurança da vacina. O grupo de voluntários saudáveis que recebeu a imunização desde março não apresentou efeitos colaterais graves. Serão necessários testes de maior abrangência para comprovar a eficácia em larga escala.

EXEMPLO – H1N1: a imunização é fundamental para o fim do alastramento do vírus Mauro Pimentel/AFP

Os testes em humanos, é claro, brotam depois de vasto trabalho com animais. Em ratos, verificou-se que a vacina, ancorada no material genético do Sars-CoV-2, consegue impedir a replicação do vírus nos pulmões. As boas notícias aceleram os trabalhos. A Moderna prevê para julho o início de uma etapa de avaliação com milhares de voluntários. O laboratório Pfizer e a BioNTech desenvolvem um produto com potencial para ser lançado em setembro. A Universidade de Oxford, na Inglaterra, concluirá os testes de seu medicamento em um grupo grande de pessoas em três meses. A agilidade é atribuída à urgência, é óbvio, bem como à experiência dos pesquisadores com o desenvolvimento das vacinas para Sars e Mers, também da espécie coronavírus, durante suas respectivas epidemias, em 2003 e 2012 — elas nunca chegaram ao mercado porque, quando ficaram prontas, depois de longa jornada de investigação, os surtos já haviam sido contidos e os investimentos foram suspensos. No Brasil, há dois estudos em andamento. O do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), que começou os testes em camundongos, a caminho de ser aplicado em humanos, e o da Fiocruz Minas.

Considerada a bala de prata contra o coronavírus, a movimentação científica em torno da vacina mexe com os mercados financeiros, em evidente reflexo dos humores da sociedade, especialmente agora, com o mundo paralisado. As ações da Moderna subiram 20%, em média, nas bolsas americanas, com a animadora notícia. O nó, ainda longe de ser desfeito: a vacina, quando aprovada pelas autoridades sanitárias, será distribuída com a patente quebrada ou será controlada pelo fabricante? Não se sabe, mas estima-se que possa ser distribuída rápida e globalmente, a valores de custo. Há, portanto, uma boa e ampla avenida para seguir.

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