Pular para o conteúdo
Dólar R$ 5,08 ▼ 0,57% Euro R$ 5,87 ▼ 0,00% Libra R$ 6,84 ▼ 0,18% Bitcoin R$ 333.134 ▲ 0,34%
Brasil

Cronologia do caso que suspendeu as lives do Discord no Brasil

Foto: Mauro Pimentel/ AFP

BRUNO LUCCA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) levou três dias úteis para abrir uma fiscalização contra o Discord e suspender as transmissões ao vivo da plataforma no Brasil.

Essa decisão, assinada em uma quarta-feira (12), foi a primeira medida preventiva aplicada à empresa com base no ECA Digital, que entrou em vigor em março.

A Folha teve acesso à nota técnica que fundamenta a decisão e a um relatório de 20 páginas enviado pelo Discord ao Ministério da Justiça. Também conversou com agentes envolvidos no caso.

Publicidade

Os documentos mostram que a agência decidiu suspender as lives dois dias antes do prazo final de cinco dias úteis que havia dado para a empresa apresentar esclarecimentos.

A ANPD justificou a ação rápida devido à identificação de um “padrão de riscos” na plataforma. O Discord considerou a decisão “precipada”.

Aqui está a sequência dos fatos, os argumentos de cada lado e o que ainda pode ocorrer.

22 de julho

A atividade no canal de voz começou por volta das 2h20, segundo o Discord. Era um servidor privado, acessível só por convite e invisível nas buscas. Uma adolescente de 13 anos transmitiu sua automutilação até a morte.

Às 3h50, o Noad (Núcleo de Observação e Análise Digital), ligado à Polícia Civil de São Paulo, solicitou a remoção do servidor, que foi tirado do ar às 4h15. Outros cinco pedidos de órgãos brasileiros chegaram ao longo do dia. Às 15h20, as contas relacionadas foram banidas.

A ANPD afirma que a live alcançou mais de 200 usuários, enquanto o Discord diz que poucos estavam online e ativos.

4 de agosto

A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul realizou a Operação Lívia contra um grupo suspeito de abusar de crianças e adolescentes online. Foram cumpridos sete mandados judiciais em cinco estados, incluindo seis buscas contra adolescentes e uma prisão.

Equipamentos apreendidos podem ajudar a identificar vítimas e membros do grupo.

5 de agosto

O Ministério da Justiça solicitou explicações ao Discord, pedindo medidas imediatas e questionando sobre detecção de riscos, verificação de idade e supervisão parental.

Relatórios anteriores já apontavam falhas na proteção a menores e exposição de crianças a riscos em grupos fechados.

6 de agosto

A primeira-dama Janja Lula da Silva apoiou o bloqueio do Discord por causa da morte da adolescente.

Depois, a Advocacia-Geral da União requisitou um plano de adequação ao ECA Digital. A ANPD pediu ao Discord cópias destes documentos.

7 de agosto

A ANPD iniciou fiscalização própria e convocou o Discord a prestar informações, com prazo de cinco dias úteis até 14 de agosto.

O Discord disse estar se adaptando ao ECA Digital e cooperando para identificar possíveis crimes em seus servidores.

10 de agosto

O Discord respondeu ao Ministério da Justiça e à ANPD, declarando ter removido o servidor “SNAK4 x proxy” às 4h15 do dia 22, 25 minutos após o primeiro alerta emergencial.

A empresa informou ter atendido seis pedidos de autoridades em 22 e 23 de julho e compartilhado dados de contas alternativas ligadas ao grupo.

O Discord alegou que devido à criptografia de ponta a ponta, não tem acesso ao conteúdo das transmissões. Também contestou que a morte tenha sido transmitida após a remoção do servidor, alegando que horários e provas apresentadas não conferem.

Segundo o Discord, há indicações de coordenação prévia em outros serviços digitais como Telegram e TikTok.

A polícia não encontrou provas da live em outras plataformas, apenas divulgação e repercussão.

O Discord afirmou que um conteúdo ilegal isolado não configura uma falha sistêmica conforme o Marco Civil da Internet.

12 de agosto

Às 10h06 e 10h11, a ANPD assinou a nota técnica que determinou a suspensão das transmissões ao vivo, dando à empresa três dias úteis para desligar o recurso Go Live e similares, inclusive compartilhamento de tela e uso por bots.

A decisão foi tomada antes do prazo final para resposta do Discord, considerando a manifestação enviada em 10 de agosto.

A nota técnica apontou que o Discord não mostrou provas concretas da eficácia das ações propostas.

A empresa chamou a decisão de precipitada e disse que a caracterização feita não representa a plataforma que construíram.

Na sexta-feira (14), a ANPD afirmou que espera as informações para avaliar novas medidas, ressaltando que a ação baseia-se em padrão de riscos recorrente, não em casos isolados.

Justificativa

Para a ANPD, a plataforma depende de dois processos fracos para identificar riscos: comportamento suspeito de contas/servidores e denúncias de usuários.

O primeiro é indireto e não reconhece o conteúdo da interação. O segundo depende que agressores denunciem o próprio conteúdo, o que é improvável em servidores criminosos.

O Discord diz que a criptografia impede acesso ao conteúdo ao vivo.

A agência rejeita esse argumento, afirmando que a plataforma deve oferecer uma forma equivalente de controle.

A criptografia nas transmissões começou em 2 de março, e o ECA Digital em vigor desde 17 de março.

Segundo a SaferNet Brasil, denúncias envolvendo Discord em 2026 somaram 406 até julho, recorde desde 2017.

O Discord afirma ter removido cerca de 9.700 servidores e 259 mil contas no Brasil de janeiro a junho de 2024. Há cerca de 50 milhões de usuários no país.

E agora?

A medida é preventiva, não uma punição. Para reativar as lives, o Discord precisa comprovar à ANPD que adotou as medidas exigidas até segunda-feira (17).

Se não comprovar, o caso será encaminhado ao Conselho Diretor da agência, que pode aplicar multa diária.

O ECA Digital prevê multa de até R$ 50 milhões por infração em eventual processo sancionador.

Boletim Imprensa Pública

Comece o dia bem informado

O essencial do DF, do Entorno e do Brasil, de graça, no seu e-mail.